21/03/2010

Mostra Jean Rouch, o Cinema Direto e o Cinema Verdade

Jean RouchDesde sexta-feira, a sala Walter da Silveira está exibindo uma mostra sobre Jean Rouch, o pai do cinema verdade. Uma iniciativa da Associação Balafon, a “Caravana Rouch”, passou por quatro capitais em 2009 e chega a sua versão em 2010 há sete capitais brasileiras – Belém, Salvador, João Pessoa, Porto Alegre, São Luís, Florianópolis e Recife, expondo as obras desse grande diretor que mudou o modo de se conceber o documentário. Para Rouch, o documentário etnográfico era uma forma de estabelecer um diálogo com o sujeito do seu estudo, em vez de apenas descrevê-lo.

Em 1960, Edgar Morin e Jean Rouch saíram pelas ruas de Paris perguntando a pessoas comuns sobre a vida, felicidade, enfim, sobre assuntos cotidianos. A intenção, segundo Rouch era extrair a verdade do cinema, mas o termo Cinema Verdade causou polêmica entre os críticos, dizendo que só o fato de existir uma câmera, tornava as pessoas artificiais.

Na realidade, esse termo não é novo. Em 1929, Vertov já fazia filmes na Rússia utilizando os termos Kinoglatz (o cinema-olho) e Kinopravda (o cinema-verdade). Mas, o sucesso de seus filmes com montagens inovadoras e cunho propagandista, não impediram que Crônicas de Verão (Rouch e Morin) ficasse conhecido como o marco inicial do Cinema Verité.

Crônicas de um verão

A técnica era simples, as pessoas falavam diretamente para a câmera, respondendo a perguntas, dando depoimentos, interagindo com o cineasta. Hoje pode parecer esquisito chamar isso de inovador, mas na época não era costume. A televisão ainda era muito recente, assim como a gravação do som direto, tudo soava como experimentação.

Em contrapartida, surge nos Estados Unidos, meio que por acaso, o Cinema Direto. Com o advento de novas tecnologias, inclusive câmeras mais leves com som aclopado, Robert Drew resolve filmar em um estilo que a câmera não intervisse no objeto filmado. Hoje em dia, isso também parece absurdamente simples, basta lembrar dos Big Brothers. Porém, na época era uma inovação nunca antes vista.

O Cinema Verdade era muito criticado por lembrar o tempo todo ao expectador que eles estavam vendo um filme. No cinema direto, eles buscaram exatamente o contrário. Eram feitas longas filmagens para uma posterior montagem, buscando o naturalismo que fazia do expectador um observador da situação, era a "novela da vida real". Um dos grandes representantes do movimento foi Frederick Wiseman e seu filme mais expressivo é Titicut Follies de 1967.

Hoje em dia, o mais comum é que os documentários mesclem as duas técnicas, tornando o filme mais dinâmico, mas é possível encontrar filmes como Justiça de Maria Augusta Ramos que utiliza apenas do processo de observação como era pregado pelo Cinema Direto. O próprio Rouch renovou sua técnica em quase cem anos de atuação, isso é que é interessante de perceber nessa mostra de mais de sessenta filmes do diretor, e melhor, a entrada é franca.

Confira no site oficial a programação de sua cidade:
Salvador
Belém
Porto Alegre
João Pessoa

São Luís, Florianópolis e Recife ainda não estão disponíveis do site.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

4 opiniões:

Fred Burle disse...

Bem legal essa mostra. Estou sentindo falta de ver filmes antigos.
Mas o termo de cinema-olho era kinok, não?!
No Manifesto das Cores, o Vertov usava kinok como cine-olho. Sei lá...
Ah! Achei muito massa o aplicativo de contagem dos comentários!
Você que fez?
Beijo!

21 de março de 2010 23:14
Ari Cabral disse...

Oi, Fred. Sou eu que faço o design do CinePipocaCult.
Achei esse gadget pelo Google. Tem um link lá.
Estamos fechando umas parcerias e, em breve, esse critério pode contar no sorteio de alguns prêmios.
Além do que, quanto mais comentários, mais aparece.

Abraços e volte sempre.

21 de março de 2010 23:39
Amanda Aouad disse...

Oi, Fred, o termo kinok eu não conhecia, sempre conheci como Kinoglatz, primeiro com meu professor, depois em alguns textos. Dei um procurada rápida no google e só encontrei referências a ele também, mas confesso que não li o Manifesto das Cores, vou pesquisar mais para ver se tiro a dúvida.

abraços

22 de março de 2010 08:53
Amanda Aouad disse...

Encontrei algumas referências tanto a um termo quanto ao outro, acho que vale os dois, vi também como Kinoglaz e não Kinoglatz como tinha aprendido. O importante é que a idéia de cine-olho começou na União Soviética com esse grande diretor visionário. "O Homem com a câmera" é uma das coisas mais geniais que já vi.

http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/cinema/leonardo_cinema_6

http://blogs.estadao.com.br/luiz-carlos-merten/cinema-verdade/

http://www.mnemocine.com.br/aruanda/vertov.htm

22 de março de 2010 10:14

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