18/05/2009
Filhas do Vento
A Rede Globo exibe na madrugada de hoje Filhas do Vento. Único filme de ficção de Joel Zito Araújo até então, o longa ganhou diversos prêmios como 32º Festival de Gramado, de onde saiu vencedor de 8 Kikitos. Mesmo assim, é um filme polêmico, onde uns adoram e outros não suportam, como o crítico Rubens Ewald Filho que insinuou que os prêmios de Gramado foram dados apenas porque o elenco era todo negro.
O filme é panfletário da causa negra, não há como negar. Joel Zito Araújo sempre foi um ativista da causa, pesquisando e produzindo obras sobre o racismo velado que existe no Brasil. Sua obra de maior impacto foi resultado de anos de pesquisa sobre a participação do negro nas telenovelas brasileiras. A Negação do Brasil virou documentário e livro, mostrando que cabe ao negro apenas papéis secundários como escravo, empregado ou marginal. Como grande pesquisador de telenovelas era natural também que seu primeiro filme de ficção tivesse muito dessa linguagem. A movimentação de câmera, a trilha sonora sempre exacerbada, a construção dramatúrgica do melodrama clássico. Mesmo assim, há méritos em Filhas do Vento.
O filme é sensível e mostra o reencontro de duas irmãs após 45 anos. Podendo retratar o drama de qualquer mulher, mostra as consequências da escravidão e do racismo de forma sutil naquela sociedade. Após a morte do pai, Cida e Jú têm que lidar com o rancor dos acontecimentos passados e reencontrar o amor mútuo em família. O roteiro é bem construído e vai dosando a emoção no expectador que se envolve com o drama, sonhos e frustrações daquelas mulheres.
Porém, o engajamento é tímido, sutil como é o racismo no país. Aqui não temos uma luta de classes declarada com nos EUA, por exemplo. Somos um país dito liberal, de um povo aparentemente sem preconceitos. Isso foi o que Joel sempre procurou mostrar em seus trabalhos. Logo, no momento de contra-atacar, ele acabou caindo na mesma sutileza. Não expôs os fatos de maneira clara e perdeu a oportunidade de tocar no assunto de forma mais consistente. Ainda assim, é um começo. O elenco, quase todo negro e a história de uma família que poderia ser branca, azul ou amarela, mostra que todos têm direitos a grandes papéis.
Outro grande mérito do filme foi produzir uma boa obra, e tantos prêmios, com um baixo orçamento. Talvez pela experiência com documentários, Joel Zito Araújo não abusou nos recursos em seu filme de ficção. Uma pena é que ele não tenha insistido no gênero, já que após cinco anos, está novamente lançando um documentário.










































4 opiniões:
Oi, Amanda!
18 de maio de 2009 22:29Concordo com todo o discurso ativista do Joel Zito, mas acho que ele fez desse filme uma obra apática e tímida até demais. Não tocou na ferida como deveria e ficou no superficial. A tentativa foi válida, mas o resultado dá preguiça!
Quanto a ganhar Gramado... bem, quase tudo que ganhou lá eu não gostei. Falta bom gosto àqueles jurados! rsrs
Abraço!
Verdade, Fred... Mesmo assim, achei um começo válido...
20 de maio de 2009 11:21Eu sou do time que amou o filme,mas tb não sou crítica... Apesar de ter me despertado profunda tristeza (ou especialmente por isso), gostei sim.
20 de maio de 2009 18:15Devemos lembrar que este é o primeiro filme brasileiro onde todo o elenco é formado por excelentes atores negros e esses não são estereotipados.
21 de maio de 2009 14:33É um filme que retrata situações várias de racismo de modo extremamente sério e belo; sim porque a luta dos negros, em nosso país, vem desde a escravidão onde a "abolição" foi atribuída a uma princesa branca para encobrir todo sangue derramado nas lutas dos quilombolas pelo direito à liberdade. O filme consegue mostrar o preconceito e não penso que deveria ser de outro modo, afinal se um país de maioria negra não aceita um filme como esse, imagina se fosse uma obra radical que utilizasse cenas mais chocantes e frases de efeito? Com certeza não surtiria o efeito que tem provocado mundo afora. Sem contar que Joel Zito tem um estilo muito próprio para retratar o tema sem cair na banalização. Quanto ao novo documentário, recomendo assistí-lo, pois consegue ser tocante e drástico! Um abraço Amanda. SVieira.
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