01/06/2009

Me faça uma garapa

Garapa"Não sou do tipo que diz "não vi e não gostei", por isso não vou entrar no mérito, porém passeando pelos sites e blogs é impossível deixar de perceber o assunto do momento: Garapa, novo documentário de José Padilha[bb]. O nome do diretor parece que virou símbolo de polêmica. Podemos dizer que seja o nosso Michael Moore tupiniquim. Polêmico, controverso e com algo que os documentaristas mais puritanos condenam: a opinião própria conduzindo e induzindo o público.

Foi assim em Ônibus 174, quando Padilha reuniu todas as imagens que flagraram a dura sina dos passageiros sequestrados em pleno Jardim Botânico por cinco horas no Rio de Janeiro. A forma como ele contou a história, quase que para comprovar a sua tese, foi alvo de crítica de muitos cineastas. Mas, era um documentário e este gênero não tinha a amplitude no Brasil para tanta polêmica na imprensa.

A exposição maior veio quando ele resolveu fazer seu segundo documentário que acabou virando ficção. Com uma ajuda substancial da censura, que gerou curiosidade. E da pirataria que criou um fenômeno de distribuição no país, Tropa de Elite ganhou mundo. Todos viram, ouviram e comentaram sobre o filme. Venceu em Berlim e ganhou críticas taxando-o de fascista. Uma bobagem, em minha modesta opinião. Ao contrário dos documentários de Padilha que induzem a uma conclusão de certo e errado. A saga do Capitão Nascimento apenas expõe uma realidade com detalhes cruéis, desumanos, mas não entra no mérito do que é ou não válido. Dando apenas subsídios para pensar.
garapa josé padilha
O fato é que, após todo o burburinho, qualquer coisa que Padilha fizesse viraria notícia fácil. E ele chega as telas com Garapa, um documentário quase encomendado sobre a fome no Brasil. Um tema nobre, preocupante e totalmente válido de ser discutido. O documentário é um meio de comunicação, denúncia, protesto. A polêmica está em como fazê-lo. Algumas críticas que li apelam para o fato de que não existem pessoas morrendo de fome no Brasil. Porém, comer algo não significa se alimentar. Subnutridos, a maiorida da população enche a barriga de jabá com farinha, ou com uma bebida adocicada que engana a fome: a chamada Garapa. E isso é deprimente até para os menos sensíveis.

Pelo visto, Padilha quer chamar a atenção para o problema e comover a todo custo. O filme é todo em preto e branco, com muita câmera na mão e sem nenhuma trilha sonora (tão criticada por alguns em O ônibus 174). O que se espera é que tanto burburinho leve a algo produtivo, senão, é apenas muito barulho por nada. E disso, já estamos cansados. Talvez por esse motivo não tive a motivação para ir ao cinema vê-lo. E dei como título a este post uma expressão baiana que usa o termo garapa para dizer algo como: "não me enrole não" ou... "por favor, eu não sou otário".


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

2 opiniões:

Fred Burle disse...

Amanda, dê uma lida no meu post sobre esse filme. Não tem nada de "encomenda" como alguns disseram, pelo contrário. Deixa muito amplo o leque de impressões que podem ser tiradas do filme. É um exercício de conscientização assistir Garapa.
Não tenha medo de assistí-lo.

3 de junho de 2009 20:28
Amanda Aouad disse...

Oi, Fred, se vocÊ fala, acredito, deixo na lista dos filmes que ainda verei... Normalmente não me deixo levar pela crítica, mas nesse caso os argumentos de Ali Kamel, me deixaram com pé atrás.
abraços

4 de junho de 2009 10:16

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails
 

Licença Creative CommonsBlog CinePipocaCult by Amanda Aouad is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License
Based on a work at www.cinepipocacult.com.br
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.cinepipocacult.com.br