18/09/2009

Che

Che Após ver a segunda parte de Che, intitulada A Guerrilha, entendo porque alguns críticos acusaram a película de querer vangloriar a imagem de Guevara. Se o primeiro filme era um documento que apenas expunha fatos, este segundo é uma verdadeira apologia à imagem do guerrilheiro e de sua sede por justiça. Até mesmo a forma como está mal camuflado nos campos bolivianos demonstra a aura encantada que este teria para o resto do mundo.

É uma continuação atípica, já que as duas partes foram rodadas como um único filme, dividido apenas para não ficar muito longo. A diferença sentida, então, nada mais seria do que um crescente do próprio Che, o argentino. Baseado em anotações de onze meses que o médico passou na Bolívia, relatados em O Diário do Che (de novembro de 1966 a outubro de 1967), foi adaptado por Buchman e Benjamin A. Van der Veen, que mantêm o clima de diário de bordo, tendo inclusive, indicações de dia.

O filme possui uma direção ainda mais documental. Começa com um discurso de Fidel Castro explicando ao mundo o sumiço de Che, sem deixar claro que ele estaria na Bolívia. Apesar de algumas cenas em Cuba e outra nos Estados Unidos, 90% do filme é mesmo nas florestas bolivianas, o que o torna extremamente cansativo. Pouca ação, muita contemplação. Para os brasileiros, nem procurem por Rodrigo Santoro, ele aparece apenas em uma cena, sem fala, fumando charuto. Em compensação, Benício del Toro está ainda melhor nessa segunda parte. Toda a dor e sede de justiça de Ernesto Guevara está exposta em um belo trabalho de interpretação, principalmente nos seus momentos finais de vida. Ele consegue cativar aos mais desatentos que tendem a terminar o filme concluindo que aquele foi um grande herói.



Não quero aqui fazer apologia contra nem a favor à figura de Che Guevara, exponho apenas que o filme é tendencioso e nos leva a aplaudi-lo como um grande herói incompreendido, traído por aqueles que queria proteger. Em parte é verdade, mas pelo que os próprios fatos históricos demonstram, ele não foi esse santo justiceiro todo. De qualquer forma, tomar partido de uma maneira tão contundente, é perigoso.

Steven Soderbergh
consegue, no entanto, fechar bem a história, com bons enquadramentos, apesar do ritmo lento e do excesso de planos abertos. O final é bastante coerente e poético. Se você se envolver um pouquinho, como eu, pode chorar, mesmo já sabendo o que acontece.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

5 opiniões:

Robin disse...

Eu achei que já estavam criando essa áura de herói desde a primeira parte... Mas, concordo que Benício Del Toro está muito bem no papel.
Abraços

19 de setembro de 2009 12:48
Rodrigo Mendes disse...

O Soderbergh tem momentos oscilantes em filmes bons, ruins, blockbuster, cult, orçamento milionário, orçamento zero!

Ainda quero assistir sua visão sobre o CHE (só em DVD). Vi que o filme ficou dividido entre público e crítica e achei que faria mais barulho, mais já vi que vai ser um ótimo cult.

O CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA achei péssimo em todos os sentidos. Aquela atriz pornô era inerte. Se não viu nem perca seu tempo Amanda.

Beijos!!!!

19 de setembro de 2009 13:41
Wenndell A. Amaral disse...

Primeiramente quero dizer que o blog simplesmente é muito bom. Conheci há pouco e já sou leitor assíduo.

Sobre o post, discordo sobre a apologia. Certamente a câmera e o modo de atuação pode levar o espectador a uma opinião pré-concebida pelos idalizadores, mas fatos são fatos e entre Che e Bush (EUA) fico com o primeiro.

Continue assim. Um abraço.

19 de setembro de 2009 16:08
Cristiano Contreiras disse...

Ainda não vi, preciso ver as duas partes, depois comento sobre.

20 de setembro de 2009 00:50
Amanda Aouad disse...

Wenndell, sem dúvidas entre Bush e Che, fico com o segundo, mas discordo de que o filme só mostra os fatos. Ele faz uma escolha clara na segunda parte ao mostrar o recorte do líder admirado, mesmo pelos soldados que o prendem... A cena em que o carcereiro sai porque não conseguiria ficar ali dentro sem soltá-lo é forte. Fora todas as manifestações de amor, a forma como o mito vai sendo desenhado. Enfim...

20 de setembro de 2009 22:14

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