"Para entender o nosso amor, tinha que virar o mundo de cabeça para baixo". Essa frase do personagem Thomás ainda ecoa em minha cabeça, pois foi isso que Aluízio Abranches prometeu em seu trailer polêmico. Faltou-lhe atitude, no entanto, para virar esse tal mundo, ou quem sabe, reconstruí-lo em seu novo filme Do Começo ao Fim. Propaganda enganosa que nos prometia muito, o filme acontece em algum mundo paralelo da fantasia do diretor. Não há polêmica, não há conflito, não há história. Existem algumas cenas bonitas, plásticas e muita inverossimilhança.
Francisco e Thomás são dois meio-irmãos, filhos de Julieta (Júlia Lemmertz), e, desde o nascimento do caçula, nutrem um amor incondicional. Em dado momento, a mãe começa a observar que os dois só vivem grudados e muito timidamente os aborda, assim como o faz Pedro, o pai do mais velho, depois os dois trocam idéias sobre isso. São os três únicos momentos do filme em que algum esboço de censura acontece. Após um acontecimento que eles definem como libertador, o mundo mágico reina e vemos apenas cenas de amor tórrido clipados e pouca história. Sem conflito, a trama não anda, se arrasta em um emaranhado de irrealidades.
Se o homossexualismo já seria alvo de preconceito e polêmicas, o que diríamos do incesto? É impensável que as pessoas aceitassem da forma como é construído no filme, sem o menor questionamento. E sem o menor receio, pudor, medo, culpa, ou qualquer sentimento que fosse dos dois irmãos. Meu irmão, meu amante, minha vida? Que espécie de mundo é esse?
A despeito do conto de fadas, há cenas bonitas e plásticas, como algumas em que Abranches se utiliza muito bem de um espelho para fazer um jogo de efeitos. A cena do tango também é empolgante, além de um pesadelo de Francisco entre o mar e piscina. A primeira cena de amor entre os dois, no entanto, parece pura vontade de chocar, além de muito lenta e com uma musiquinha irritante que já tinha sido utilizada em outras cenas.
João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso conseguem trazer verdade aos seus personagens e emocionam em muitas cenas, seja pelo amor que sentem ou pelo sofrimento da saudade em um momento de separação. E conseguiram escalar duas crianças muito parecidas para os interpretar na primeira fase da projeção. O resto do elenco, tirando Fábio Assunção que já teve momentos mais inspirados, dá suporte ao filme. No caso deste ator, no entanto, acho que a construção rasa do personagem pode ter ajudado para sua falta de expressão.
Enfim, ainda estou esperando o tal fim prometido no título e a discussão polêmica prometida no trailer. O que Aluízio Abranches demonstrou foi ser um excelente "marketeiro" se utilizando de um tema extremamente polêmico (incesto homossexual) para nos apresentar um filme vazio. Uma pena...
Julie & Julia Baseado em duas histórias reais, o filme é uma boa diversão, para quem quer algo mais leve, com uma excelente atriz, Meryl Streep, em uma nova parceria com Amy Adams. A diferença é que agora, ambas estão separadas por duas épocas distintas.
Sinopse: Meryl Streep é Julia Child e Amy Adams é Julie Powell na adaptação da escritora e diretora Nora Ephron de duas autobiografias de sucesso: ''Julie & Julia'', de Powell, e ''My Life in France'', de Julia Child com Alex Prud'homme. Baseado em duas histórias reais, a trama intercala a vida de duas mulheres que, apesar de separadas pelo tempo e pelo espaço estão ambas perdidas, até descobrirem que com a combinação certa de paixão, coragem e manteiga, tudo é possível.
Televisão
Ensaio sobre a cegueira
Sexta-feira, TeleCine Premium: 18h A boa adaptação de Fernando Meirelles para as telas, chega ao TeleCine. Uma oportunidade para ver ou rever.
Sinopse: Adaptação do premiado livro escrito por José Saramago, mostra uma inexplicável epidemia chamada de "cegueira branca", já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.
DVD
Up- Altas Aventuras Já está disponível em DVD essa simpática animação. Leia a Crítica
Sinopse: Carl Fredricksen passou a vida toda sonhando em explorar o planeta e em aproveitar a vida ao máximo. Mas aos 78 anos de idade, parece que a vida o ignorou, até que uma reviravolta do destino dá um novo sentido para sua vida. Up leva o público em uma emocionante aventura na qual a dupla improvável enfrenta uma região remota, vilões inesperados e animais selvagens. Quando à procura de aventura no próximo verão - olhe Up.
A Onda A versão alemã do ocorrido na universidade americana causou polêmica e chamou a atenção. Outro bom lançamento em DVD. Leia a Crítica
Sinopse: Professor propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo. Em pouco tempo, seus alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério o professor decide interrompê-lo, mas aí já é tarde demais.
O Festival de Brasília acabou consagrando o filme É proibido fumar com oito estatuetas, mas o baiano Filhos de João, o admirável mundo novo baiano não ficou atrás, levando quatro prêmios, incluindo melhor filme pelo júri popular e prêmio especial pelo júri técnico. Grande feito para o cinema baiano e para seu diretor, Henrique Dantas, que vinha lutando para finalizar seu filme a onze anos. Dantas é artista plástico por formação e já trabalhou em várias produções como diretor de arte. Filhos de João é seu primeiro longa como diretor e ele quer muito mais. Abaixo uma entrevista com o cineasta:
Você está trabalhando nesse projeto a 11 anos, como surgiu a idéia de falar sobre os novos baianos?
- Após uma entrevista com o Paulinho Boca, onde ele comentava que o grupo iria completar 30 anos de existência. Ao ouvir aquela declaração, busquei coragem para me dedicar a algo mais complexo do que os trabalhos experimentais que eu praticava. Da primeira entrevista até este momento, passaram-se onze anos.
Quis mostrar lembranças das utopias que o país viveu, embora toda a repressão das décadas de 60 e 70 não pertençam mais à mesma geração. As posteriores, que ainda acreditam em algumas daquelas crenças, ou às que se recusam a aceitar a “vitória do dragão da maldade” - e aí faço uma alusão direta ao filme Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, um dos temas do meu filme. Quis mostrar também que todos somos “filhos de João” porque todos recebemos influências de João Gilberto. Não apenas os Novos Baianos ou os tropicalistas, mas todos os que mantêm suas identidades cruzadas com este momento histórico que o filme aborda e retrata.
Qual a sua relação com as músicas do grupo?
- A relação vem da infância, onde meu pai, entre outras pérolas, colocava alguns discos nos domingos musicais e eu achava ótimo...
E a idéia do título, veio dos depoimentos ou você já tinha uma expectativa quanto a influência de João Gilberto para aquelas pessoas?
- A idéia da mudança veio (o outro título era "Retrato de um Brasil Musical") a partir da percepção de que a marca Novos Baianos poderia se misturar com o trabalho e depois de uma entrevista de Orlando Senna (ele fala que João é o padrinho dos tropicalistas e o pai dos NB), onde o mesmo me dá a deixa, aquilo ficou em minha memória e antes mesmo de decupar o seu depoimento, estava em São Paulo entrevistando Tom Zé, Bola Morais, Gato Félix e Mário Thompson e conversando com um amigo cineasta onde me hospedo, Caio Vecchio (Um Homem Qualquer, 33ª Amostra Internacional de São Paulo) e conversando nesse questionamento, surgiu o nome "Filhos de João", o subtítulo veio depois como necessidade de brincar com a energia nova baiana, o livro de Aldous Huxley "O Admirável Mundo Novo Baiano".....
Qual momento do filme você mais gosta? Por quê?
- Não tenho um momento preferido. Mas o que me empolgou mesmo foi refazer a história dessas pessoas tão importantes, que muito contribuíram para a construção da identidade da minha geração com suas práticas artísticas.
Há alguma história de bastidores sobre o filme (pré-produção ou filmagem ou finalização) que tenha te marcado?
- Embora não tenha preferência, todas as fases me marcaram muito. A conquista crescente da credibilidade das pessoas que fizeram essa história acontecer foi muito interessante. É minha primeira produção de um longa-metragem. É um filme independente, que carrega diversos problemas que encarei como desafios. Tudo acaba sendo marcante, mas, perder pessoas que muito colaboraram com o filme foi impactante e aumentou minha responsabilidade com o trabalho. Entrevistei pessoas pelas quais nutria admiração: Bola Morais, Zé Baixinho, o cineasta Álvaro Guimarães, estes foram pessoas que me entristeceram com suas partidas.
Tirando a polêmica com Baby, como foi a receptividade dos artistas em relação ao filme?
- Foi ótima, todos que viram o filme até então e estão no mesmo, ficaram felizes e lisonjeados com a proposta apresentada sobre a vida deles... É claro que a memória é individual e essa construída é coletiva.
Fazer cinema na Bahia é uma luta constante, quais foram as principais dificuldades?
- Certamente é uma luta constante, não fosse isso eu não passava 11 anos, mas depois de nove anos de filme e um Teste de Audiência com 97,5 % de aprovação e um ano de diligências eu tive a finalização aprovada no Fundo de Cultura, o que foi fundamental para tudo que está acontecendo agora. As dificuldades são muitas... Teríamos que escrever uma tese...
Vocês já tem uma estratégia de distribuição? Como será a exibição no resto do país?
- Distribuição é um assunto que pouco conhecemos no estado e no Nordeste, porque é um poder do eixo RIOSAMPA e as negociações ocorrem por lá... Estamos bem encaminhados... Mas o gol só vale com a bola na rede...
Brasília é hoje o principal festival do país, ganhar esse prêmio ajuda na divulgação e distribuição do mesmo? Já recebeu algum convite de exibição, parceria?
- Ajuda muito, realmente pra quem achava que só ia receber Fandango, sair com 4 estatuetas e um troféu, foi maravilhoso... Recebemos algumas propostas mas nada de concreto.
E quando tem exibição em Salvador?
- Gostaria de estrear em Janeiro ou Fevereiro, no único templo de cinema que temos na Bahia, O Cine Glauber e nas três salas, junto a "Carreto" de Claudio Marques e Marília e caso ele aceite, Gabriel Trajano com "Apreço" filme que colaborei no roteiro e fiz a direção de arte (que me deu um Candango).
De artista plástico a cineasta, quais são os seus planos para o futuro? (pretende continuar dirigindo, já tem outro projeto em mente? documentários ou ficção? E o trabalho como diretor de arte em outros filmes?)
- "Não sei onde eu estou indo mas sei que estou no meu caminho", como dizia Raul....Estou fazendo mais dois filmes longos de linguagem documental... Talvez com um tom mais experimental... Um é "A Peleja do Sertão Cinzento" sobre as consequências do cinema político na vida e obra do cineasta baiano Olney São Paulo, durante a ditadura militar. Outro sobre a galeria F, que encontra-se sem título, mas já demos o pontapé inicial...
Adoro fazer direção de arte... Veremos em breve os longas baianos "Estranhos" de Paulo Alcantara e "Trampolim do Forte" de João Rodrigo Matos...
Se você é mulher, adora roupas folgadas, calça e não entende como nossas antepassadas usavam aqueles vestidos de várias camadas, apertados e cheio de babados, deve agradecer a Coco Chanel. Muito mais do que uma grife, um corte de cabelo ou um perfume, a estilista é o símbolo da revolução na vestimenta feminina no início do século XX. Ousada, forte e controversa, chegou a ser presa durante a guerra por se envolver com nazistas.
Mas nada disso será visto no filme de Anne Fontaine. Como o título bem define, é a história de Coco antes de Chanel, quando era orfã de mãe, abandonada pelo pai, costurava pela manhã e cantava em um cabaré à noite a singela música "Onde está Coco" de onde vem seu apelido. Gabrielle era uma garota ranzinza, que falava o que achava e não acreditava no amor. Paradoxalmente, a trama foca exatamente em seu envolvimento amoroso com dois homens: o milionário Étienne Balsan e o inglês Boy Capel. Tentando nos comover com aquela história, Anne Fontaine, que também assina o roteiro adaptado do livro de Edmonde Charles-Roux, constrói um melodrama até competente, mas que se torna um lugar comum. Milhares de histórias já foram vistas com aquele contexto. Ir ao cinema para ver a cinebiografia de um ícone como Coco Chanel nos traz a expectativa de algo mais.
Audrey Tautou comprova mais uma vez o seu talento, incorporando trejeitos, a forma de fumar ou beber café e a postura da estilista com seu humor difícil. Mas exatamente por Coco não ser uma heroína romântica, algo fica fora do contexto na história. Sua relação com Balsan é, no entanto, bonita. Principalmente pela transformação, bem defendida por Benoît Poelvoorde, daquele homem que só queria se divertir, em um ser sensível que aprende a amar uma mulher. Já Alessandro Nivola é puro charme na tela, mas sem chamar muita atenção pela interpretação.
A direção é correta, sem grandes inovações. Destaco apenas o primor da cena final, com o primeiro desfile de Chanel. Não considero um spoiler o que vou falar, pois não revelarei nenhuma novidade, nem resolução sobre a trama apresentada no filme. A construção artística da cena é muito bonita, com Coco sentada na escada, quase um bicho acuado, com aquelas manequins altas, magras e imponentes descendo as escadas com roupas que hoje consideramos comuns, mas na época eram verdadeiras revoluções. A música, criando um clima crescente, a fotografia e edição de imagens tornando tudo mais mais grandioso do que realmente é. O quase sorriso da protagonista logo recomposto. É um vislumbre apenas do que seria aquela mulher para a moda mundial.
Entendo a intenção de mostrar a mulher por trás do mito, recortando um pedaço de sua vida para mostrar como foi sofrida. Acho válida a construção de um melodrama e uma bela história. O único problema é que a protagonista poderia se chamar qualquer coisa. E por se tratar de Gabrille "Coco" Chanel eu esperava um outro enfoque.
Certa vez, falei aqui do poder da montagem, com uma versão de Star Wars para o cinema mudo. Ali era apenas montagem mesmo, as cenas eram as originais do filme. Agora, vejo no Youtube uma versão de Matrix. A diferença aqui é que o curta foi todo filmado pensando no cinema mudo, uma paródia muito bem feita, com uma espécie de Charles Chaplin como Neo. Foi feito por um grupo de atores russos, "Big Difference", e está sendo o maior sucesso na internet.
Reparem na forma como eles utilizam os elementos antigos para contar a história, os recursos são mínimos. A piada com a cor da pílula também é muito boa. A adaptação é completa, não é apenas um filme em P&B com cartelas. Eles mantêm a antiga rotação. No cinema mudo era rodado 18 quadros por segundo. Apenas com a voz o cinema passou a 24 quadros por segundo exatamente devido ao tempo da fala. Vale a pena conferir.
Estava com problemas no meu computador, por isso a ausência. Acabei vendo ontem no Canal Brasil algo interessante. Singelo e sem grandes pretensões Depois daquele Baile foi o filme de estreia de Roberto Bomtempo como diretor. Com um roteiro adaptado da peça de mesmo nome de Rogério Falabella, conta uma história de amor na terceira idade com muita sensibilidade. É uma pena que Bomtempo venha se dedicando a dirigir apenas novelas atualmente.
A história é sobre Dóris, uma viúva sensual dona de uma pensão e que desperta o interesse de dois clientes assíduos: Freitas e Otávio. O primeiro é completamente seguro e machão, o segundo, tímido e hipocondríaco. Sempre próximos, os dois divagam sobre o presente e o passado, demonstrando situações corriqueiras de pessoas mais velhas, suas situações vividas, seus presentes difíceis, seus futuros incertos. Apesar de tudo não perderam a capacidade de sonhar, nem de aproveitar os momentos da vida.
É bonito ver os três passeando por Minas Gerais, fazendo piquenique no parque, dançando na pensão, sonhando em encontrar um amor. Dóris é uma mulher prática, cheia de vida, mas romântica. Não consegue concordar com a modernidade dos novos tempos, onde sexo não está ligado a amor, por exemplo. Uma cena muito interessante é quando sua sobrinha lhe apresenta a internet e os classificados amorosos "Santo Expedito agora é a internet".
Os três atores também contribuem para a história e a química dos personagens. Irene Ravache está na dose certa como a viúva sensata, mas com uma imensa alegria em viver. Marcos Caruso dá o tom certo ao seu Otávio atrapalhado. Agora, Lima Duarte rouba a cena com seu Freitas machão e hilário, nunca dando o braço a torcer e com tiradas incríveis.
Há também uma declaração de amor do diretor pelo seu Estado. Com as paisagens, o modo de viver e as comidas típicas mineiras sempre presentes na vida dos personagens que passam aquele dia a dia com bastante naturalidade. Nada é forçado nem imposto, apesar de explícito. O filme tem drama, comédia e romance em doses certas, construindo uma bela história e um bom divertimento. O roteiro de Susana Schild é bastante feliz ao dosar cada momento. É muito mais do que uma trama sobre um amor na terceira idade, é uma lição de amizade e companheirismo.
No dia 20 de novembro de 1695 morria o líder Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra à escravidão. Por isso, em muitas cidades hoje é feriado, dia da Consciência Negra. Ironicamente, em Salvador não temos feriado, mas durante todo o mês de novembro diversos eventos com discussões sobre o tema estão acontecendo. Hoje tem festa na praça Castro Alves, com discurso de Lula que irá oficializar algumas comunidades Quilombolas, além da lavagem da estátua de Zumbi na Praça da Sé.
Vários filmes falam da luta contra discriminação social e racial. Até mesmo o recente Besouro, apesar dos problemas técnicos é um avanço no assunto. Queria aproveitar o tema, no entanto, para expor o meu microdrama, feito em 2005 em um projeto da TV Bahia e TVE. Durante esses anos, recebi vários elogios e até uma pesquisadora me procurou para entrevista. Como toda arte, tiveram também algumas críticas negativas, que o acharam com uma linguagem publicitária e denúncia vazia. A linguagem publicitária, bom... Eu sou publicitária e não vejo algo ruim nisso. Cidade de Deus tem uma linguagem publicitária e é um excelente filme. Quanto a denúncia vazia, sinceramente não entendi o que a pessoa quis dizer.
Criei esse roteiro a partir de um relato de um estagiário meu em uma agência que trabalhava. Um garoto consciente, inteligente que chegou contando que foi abordado por um segurança em um supermercado conhecido quando procurava sua mãe. O segurança (que também era negro) achou a atitude de menino suspeita e o levou para insvestigação e revista alegando que o viu roubando um produto. O garoto ficou só de cueca e sofreu diversas humilhações, antes de ser liberado e reencontrar a mãe. Na mesma época, surgiu o edital do concurso, onde deveríamos fazer um roteiro de 1' 30" e os cinco melhores seriam produzidos e exibidos nos intervalos comerciais. Com essa história na minha cabeça, procurei simplificar a mensagem para conseguir passá-la em menos de dois minutos. A minha intenção era mesmo levantar o debate, jamais esgotá-lo. Gosto da solução final apesar de não ter participado diretamente da produção. A mim só foi permitido acompanhar, sem interferir muito. Vejam e digam o que acham.
Ah, aqui uma reportagem do Programa TV Revista da TVE. Não reparem na timidez da que vos escreve, hoje estou melhorzinha e conseguiria falar um pouco mais sobre o tema, impressionante o quanto a gente amadurece em 4 anos..
Audrey Hepburn foi a grande cinderela dos anos 60/70 de Hollywood, não há dúvidas. Com sua beleza e sua classe, protagonizou histórias de amor inesquecíveis como Sabrina, Bonequinha de luxo ou Cinderela em Paris. Mas, quando seu nome foi o escolhido para interpretar Eliza Doolittle nos cinemas, a polêmica foi grande. Primeiro, porque a atriz não tinha uma voz tão potente para o musical, depois porque Eliza estava sendo interpretada há anos por Julie Andrews na Broadway. Os estúdios acharam que Julie não tinha experiência cinematográfica, mas o público achou tão absurdo que ela foi convidada para estrelar Mary Poppins, que acabou lhe rendendo o Oscar de melhor atriz no mesmo ano. Com toda a polêmica, Audrey ficou incomodada em ser dublada pela cantora Marni Nixon e gravou todas as músicas que foram mixadas em duas vozes. O resultado é muito interessante. Mas, os agudos mais altos são mesmo da dubladora, que tem um timbre bem parecido com o de Julie Andrews. A semelhança fez com que algumas pessoas achassem que era ela quem cantava.
My Fair Lady conta a história de uma vendedora de flores bastante rude e do professor Henry Higgins. A moça passa por aulas de dicção e postura por causa de uma aposta feita entre ele e o amigo Hugh Pickering, dizendo ser capaz de transformar uma simples vendedora de flores numa dama da alta sociedade, num espaço de seis meses.Um musical divertido, com canções inesquecíveis como I Could Have Danced All Night. O talento de Audrey Hepburn é demonstrado nas expressões e transformações na postura de Eliza, que vai evoluindo no decorrer do filme, mas sem perder sua personalidade forte. A parte chata fica por conta do pai da personagem, vagabundo que se aproveita da ascenção da filha para se dar bem. Há cenas intermináveis dele com os colegas.
O mais interessante em My Fair Lady é que trata-se de uma história de amor completamente atípica. Não temos um casal apaixonado, trocando juras de amor. Não há um único beijo no filme. A relação de Eliza e Henry é extremamente tensa, o amor fica velado, sem que nenhum dos dois seja capaz de admitir. O tom de comédia também é muito forte. Eliza é bastante atrapalhada e suas atitudes arrancam risadas do público como na cena em que vai acompanhar uma corrida de cavalos. Ainda assim levou multidões aos cinemas para sonhar com aquele conto de fadas.
E aqui um especial de My Fair Lady para televisão, com Julie Andrews, este foi uma forma de minimizar a polêmica. Eu adoro a voz da eterna Noviça Rebelde e a considero uma excelente atriz, vide seu papel não-musical em Dueto só para um, bom filme de Andrei Konchalovsky. Nem por isso deixo de admirar a Eliza de Audrey. São duas grandes estrelas do cinema.
Brasileiro é apaixonado por futebol, disso não temos dúvida. Engraçado, então, que poucos filmes retratem essa arte e menos ainda consiga uma história interessante. A exceção fica por conta de Boleiros, longa de 1998, dirigido por Ugo Giogetti. A história é feliz ao juntar seis amigos em um bar paulistano para resgatar histórias do futebol. O local é ambientado com fotos históricas de jogadores e times, o verdadeiro reduto da arte da bola. E os amigos são todos ligados ao futebol profissional.
Essa ambientação serve para ligar as seis histórias e ser chamado de um longa, mas poderiam ser também vários curtas interessantes. O primeiro, Pênalti, fala de um juiz que vendia seus jogos, sendo o mais engraçado de todos e contrastando com o segundo que é o mais triste. Ele fala sobre Paulinho Majestade, um grande jogador agora decadente que vende seus troféus para sobreviver. Depois vem Pivete, sobre a história de um garoto bom de bola, mas que está envolvido com a marginalidade. Seguido de Azul, sobre um craque que acaba de fazer o gol mais bonito da carreira, vai ser contratado por um time europeu, mas ainda sobre discriminação racial. Pai Vavá conta a história de um craque corinthiano que, contundido, vai contar com um trio de torcedores muito engraçados para voltar aos campos. E Hotel, o mais fraco de todos, mostra dois jogadores que queriam burlar a concentração do time para encontrar com mulheres.
Independente das histórias, o que marca em Boleiros é como a paixão pelo futebol é retratada através das pessoas que o cercam. Não é um filme sobre o jogo, poucas cenas de bola rolando acontecem. O importante é o seu entorno. Por isso o nome é tão feliz. Como disse, todo brasileiro é um boleiro nato e sabe dar algum pitaco sobre o assunto. A direção é muito boa, deixando os atores à vontade e as cenas com um tom natural. As atuações também estão muito excelentes, destaco apenas Flávio Migliaccio pela simbologia da nostalgia do seu personagem, principalmente no texto final. É um belo filme, despretensioso que nos mostra um pouco dessa grande paixão.
O longa teve uma continuação em 2006, retratando agora a situação da modernização do futebol, da realidade dos craques indo para europa e a tietagem das meninas. Inferior ao original, o filme perde um pouco dessa simplicidade de falar de futebol e de "casos" do nosso país, tentando uma crítica que não se aprofunda nem diverte. Uma pena.
Cada filme tem o seu propósito, então, não posso analisar Te amarei para sempre como um filme de ficção científica sobre viagens no tempo. Sua premissa peculiar serve apenas para contar mais uma bela história de amor, entre duas pessoas que lutam para ficar juntas apesar das intempéries da vida. Devo apenas reclamar do título brasileiro, afinal, não é sobre um homem que ama uma mulher, mas sobre um casal. O título "A mulher do viajante do tempo" confesso que não gosto também, talvez um "amor eterno" fosse mais honesto para a produção.
Deixe ela entrar Os fãs de Crepúsculo estão em contagem regressiva. Sexta-feira estreia Lua Nova, a continuação da Saga escrita por Stephenie Meyer. Confesso que a trama não me empolga muito, principalmente após o fraco primeiro filme. Pegando carona na temática, indico a quem ainda não viu, o drama Deixe ela entrar, esse sim, um amor pré-adolescente que se utiliza do mito vampiresco para tocar nossos corações.
Sinopse: A história é ambientada no subúrbio de Estocolmo, em 1982. Oskar (Kåre Hedebrant), um frágil garoto de 12 anos sempre atormentado pelos colegas de escola, sonha com vingança. Ele apaixona-se por Eli (Lina Leandersson), garota bonita e peculiar que, aparentemente, é uma vampira, já que não suporta o sol ou a comida. Eli dá a Oskar força para lutar, mas o menino é colocado frente a um impasse quando percebe que ela precisa beber o sangue de outros para sobreviver: até onde pode o amor perdoar?
Televisão
Wall-E
17/11 - Terça-Feira - HBO Family: 20:50 Essa doce animação, estreia na televisão no canal pago HBO. Quem tem acesso, é uma boa oportunidade.
Sinopse: Cerca de 700 anos no futuro, a Terra está infestada por poluentes. Por isso, os humanos vivem numa nave que percorre a atmosfera do planeta. Um robô que vive na Terra coletando lixo se apaixona por uma máquina que está na companhia dos humanos, no espaço. Assim, ele sai numa jornada para se juntar a ela.
Cinema, Aspirinas e Urubus
20/11 - Sexta-Feira - Canal Brasil: 16:40 Um bom filme nacional do diretor Marcelo Gomes.
Sinopse: 1942. No meio do sertão nordestino, dois homens se encontram: Johann (Peter Ketnath), um alemão que fugiu da guerra, e Ranulpho (João Miguel), um brasileiro que quer escapar da seca que assola a região. Viajando de povoado em povoado, eles exibem filmes para pessoas que jamais haviam conhecido o cinema, a fim de vender um remédio "milagroso". Nesta jornada, os dois aprendem a respeitar as diferenças e surge entre eles uma amizade incomum, mas que marcará suas vidas para sempre.
DVD
Os Falsários Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, finalmente chega a DVD. Quem ainda não viu, uma oportunidade.
Sinopse: Na década de 30, o falsificador Salomon Sorowitsch usa seu talento para forjar documentos e ganha dinheiro e notoriedade como criminoso. Depois de preso, os nazistas transferem o prisioneiro judeu "Sally" para outro campo de concentração com um objetivo: gerenciar um grupo de prisioneiros na maior falsificação de dinheiro da história. Eles ganham teto, comida e algum conforto. Mas nunca paz. Ao som das bombas e dos fuzilamentos, "Sally" e seus ajudantes se questionam sobre os limites da sobrevivência quando começam a ajudar os nazistas a ganhar a Guerra.
Pela profecia Maia, o mundo irá acabar em dezembro de 2012. Segundo eles, o mundo é feito de ciclos de 5.125 anos, onde o quarto ciclo acabou com o grande dilúvio. Faz sentido, apesar de eu não acreditar que para um ciclo se encerrar, precise necessariamente acontecer uma catástrofe. Mas, o fato é que após quase destruir o mundo em Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, Roland Emmerich traz às telas outro filme sobre o assunto que estreou em todo país ontem.
Ainda não fui ao cinema conferir a saga, e algumas críticas não me animam a ter pressa para tanto. Quero falar aqui de uma estratégia interessante que os filmes têm utilizado em sua divulgação. A começar pelos posters personalizados. Afinal, o mundo acabar é algo que traz impacto, mas você, brasileiro, ver um cartaz com o Rio de Janeiro, tendo o Cristo Redentor em primeiro plano sendo levado pela enxurrada, traz muito mais impacto. Não sei ao todo quantas versões foram feitas, na internet só encontrei seis. Sendo que Washington e Los Angeles estão entre elas, mas o que mais me chamou a atenção foi a do Tibet, e ainda trouxe um deja vu engraçado, pois o monge olhando a destruição do alto me lembrou a animação Avatar.
A técnica de divulgação e distribuição é cada vez mais essencial para o sucesso de um filme. Diante de tantos lançamentos semanais, é preciso chamar a atenção, criar a expectativa e levar o maior número de espectadores ao cinema na primeira semana. Promoções, ARGs, divulgações na internet, trailers de grande impacto são sempre boas ferramentas. Agora, nada disso é o suficiente se o filme não corresponde. Vamos ver qual a trajetória de 2012.
Para finalizar, o teaser trailer do filme. Percebam a pressão que é feita. A trilha psicodélica tensa. A intercalação com as cartelas deterministas. O monge correndo, tocando o sino. Afinal, se o topo do mundo está sendo inundado, o que será de nós, pobres mortais em cidades litorâneas? E a frase "descubra a verdade, busque online 2012" é típico para despertar a curiosidade e construir o boca a boca. Eles não dão um site, mandam o espectador procurar a data. É a idéia de: não é apenas um filme, é real. O trailer oficial também começa com uma pressão incrível. "a civilização mais antiga da humanidade nos avisou que essa data chegaria", apesar de os Maias não serem a mais antiga, é uma civilização antiga e merece respeito. Eram calculistas, práticos e inteligentes. Ou seja, o filme pode não ser bom, mas a propaganda foi muito bem feita.
Robert Zemeckis tem minha admiração, primeiro ele dirigiu um dos filmes que mais me marcou nas últimas décadas, Contato. Lembro de ter ficado um tempo pensativa no cinema após a exibição. Depois, é dele a bela trilogia De Volta para o Futuro. Além, claro do inovador Forrest Gump. Após algumas tentativas incertas, o Náufrago e Revelação, além das animações Expresso Polar e Beowulf, Zemeckis traz à tela uma nova versão do livro de Charles Dickens: Um Conto de Natal. Alguém explica porque a versão brasileira mudou tanto o título do filme?
A exibição em 3D não é exatamente uma inovação recente. Lembro de ver filmes com estrelinhas saltando da tela e outras bobagens desde que era pequena. A diferença é que elas simplesmente saltavam a tela, em filmes simples feitos apenas para isso e tínhamos que usar um óculos azul e vermelho ridículo de papelão. Hoje, a tecnologia avançou, os filmes comerciais estão sendo feitos pensando no 3D, utilizando a profundidade da tela como mais um elemento cinematográfico para contar a história e produtores vêem nele a salvação para pirataria. Afinal, é preciso um bom motivo para pagar os altos preços do ingresso tendo o mesmo filme sendo vendido na esquina ou ao alcance de alguns cliques na internet.
Agora, a Philips já anuncia sua linha de televisores 3D com a tecnologia WOWvx. A Panasonic e Sony também já estão buscando tecnologias similares, todas com previsão de chegar ao mercado ainda em 2010. Até a BBC de Londres já está pensando em exibir parte dos jogos Olímpicos em 3D. E ao contrário do que muitos pensam, não são apenas as animações lançadas na nova tecnologia, até mesmo clássicos modernos como Titanic têm previsão de voltar ao cinema utilizando os eixos x, y e z da tela. O grande problema fica por conta da dublagem já que a tecnologia não permite legendas. Alguns filmes já são aguardados para 2010, vejam:
Tron Legacy
Na década de 80, Steven Lisberger aproveitou a febre dos videogames e lançou Tron, um dos primeiros filmes a utilizar computação gráfica no mundo. Conta a história de Kevin Flynn, um programador que é levado para dentro de um computador e tem que passar por várias fases para voltar ao mundo real. Pouco se sabe ainda sobre a sequência, que tem previsão de lançamento no final de 2010, mas já tem a presença confirmada no elenco de Olivia Wilde, Kanye Stronger e o Daft Punk que irá compor a trilha e participar das filmagens.
Shady Talez
Um filme de terror protagonizado por Eminem e em 3D é, no mínimo, curioso. Assim, fica a expectativa desse filme produzido por John Davis, com roteiro de Dallas Jackson. O longa ainda está em fase de pré-produção.
Brasil Animado
Não confunda com a série animada de Luis Seel em 1928, Brasil Animado é um novo projeto de longa metragem dirigido por Marina Caltabiano. Após algumas tentativas em animação, a exemplo de O Grilo Feliz, o Brasil parece que vai lançar o primeiro longa em 3D, misturando cenas reais e em animação que conta a história de Stress e Relax. Viajando pelo Brasil em busca de um jequitibá especial, acabam conhecendo pontos interessantes do país. A previsão é que seja lançado em julho de 2010.
Yellow Submarine
Lançado em 1968, o longa em animação dos Beatles baseado no álbum de mesmo nome virou febre mundial. A atual onda de resgate ao grupo, iniciada com o filme "Across the Universe", fez com que os estúdios Walt Disney anunciassem a refilmagem do clássico em 3D. O projeto ainda está em fase inicial, mas já gera expectativas. A previsão de lançamento é em 2012.
Drive Angry
O astro Nicolas Cage também entrou na onda e vai estrelar um filme de suspense utilizando a tecnologia 3D. A história com roteiro de Lussier e Todd Farmer fala de um pai com sede de vingança por causa do assassinato de sua filha e sequestro de sua neta. Em sua caça aos bandidos, muita ação com perseguição de carro e sangue conduzindo a história. Com direção de Patrick Lussier, que deixou de lado o projeto de Halloween em 3D para terminar esse filme, Drive Angry tem previsão de estreia em 2010.
Avatar
Por último, não menos importante, esse já esperado filme de James Cameron que promete revolucionar os filmes em 3D, espero que ele consiga cumprir metade do que divulga. Deve chegar por aqui em 18 de dezembro. Conta a história de um planeta chamado Pandora e um fuzileiro naval que vai parar nele, acaba se apaixonando por uma nativa e ficando no meio da guerra entre os terrestres e os habitantes do planeta Pandora que se sentem ameaçados.
Poucas vezes vi um início de filme tão impactante. O corte rápido de imagens, a simulação de uma reportagem televisiva, a construção de um programa documentário tomam de salto o espectador que quase acredita naquele mundo paralelo criado por Neill Blomkamp. O argumento é muito interessante, aliens sendo segregados racialmente tal qual os negros no antigo sistema de Apartheid da África do Sul. O formato escolhido, simulando um documentário também foi bastante feliz, pena que não se sustenta o filme inteiro.
Em determinado momento, o roteiro parece ficar sem alternativa e mescla as cenas da câmera flagrante com outras em que seria impossível uma testemunha ocular. Isso quebra o ritmo do filme e o torna confuso. Não por ser difícil de comprender as cenas, mas por ser complicado entender onde o diretor quer chegar com aquilo. Ainda assim, a idéia é válida.
Distrito 9 é construído como uma grande crítica social. Através do exemplo fictício dos Aliens, ele mostra como foram formadas as favelas, o crime organizado, o tráfico de drogas e a marginalização na sociedade mundial. Só por essa idéia já é muito bom. Nos conduzindo a pensar como eles, Neill Blomkamp apresenta um protagonista humano babaca, egoísta e extremamente preconceituoso e o contrasta com o alien sensível, pai zeloso, cientista e ético. Porém, este é uma exceção em uma nuvem de Aliens que mais se assemelham a bichos irracionais, pulando em busca de comida de gato ou brigando para sobreviver diante da invação da MNU.
Por tudo isso, a primeira virada no filme estraga um pouco essa idéia realista e metafórica que o longa quer transmitir. Além de ficar sem sentido, já que não serve para modificar o espírito do protagonista humano. A construção fica vazia, sem nenhum embasamento científico para acontecer e não traz nenhum ensinamento para Wikus. A sinopse fala que seria um vírus, mas que espécie de vírus é esse que modifica um DNA humano e ao mesmo tempo serve como único combustível para uma nave espacial?
A perseguição a Wikus torna-se mais importante que as discussões sobre a situação dos Aliens, esvaziando o argumento inicial e construindo cenas de ação confusas, já que o diretor se perde um pouco. Distrito 9 torna-se um campo de batalha sanguinário, que cria tensão e entretem, mas acaba fazendo a crítica social, ponto forte do filme, cair no vazio, junto com os "camarões" e humanos soldados. Ainda assim, traz um fôlego novo à ficção científica, inovando na construção de alienígenas não-maniqueístas (nem bons, nem maus) e alertando para o preconceito inerente à raça humana.
O mundo ontem comemorou 20 anos da queda do muro de Berlim. Em um mundo globalizado, com União Européia cada vez mais forte, é até difícil lembrar que há tão pouco tempo, um país era separado por um muro que simbolizava a divisão entre comunistas e capitalistas da Guerra Fria. A queda do muro é considerada símbolo da liberdade, de um mundo melhor, o que chega a ser contraditório, já que a ideologia comunista era exatamente trazer o bem estar a todos. Os sonhos de uma geração caíram naquele dia, o sonho de um mundo igualitário, justo e mais humano. É disso que fala muito bem o filme dirigido e roteirizado por Wolfganger Becker, com a ajuda de Bernd Lichtenberg.
Em 1989, pouco antes da queda do muro de Berlim, a Sra. Kerner, uma comunista convicta, passa mal, entra em coma e fica desacordada durante os dias que marcaram o triunfo do regime capitalista na Alemanha (ou seja, a queda do muro). Ao voltar do coma, em meados de 1990, sua cidade, ex-Berlim Oriental, está sensivelmente modificada. Com medo que as mudanças causem algum trauma e piore a situação, seu filho Alexander, decide esconder os acontecimentos, tendo que se virar para construir programa de televisão falso, esconder painéis de Coca-Cola e trocar o rótulo dos alimentos e produtos utilizados. E o mais interessante é que tudo é construído com leveza e até mesmo com humor. Não é sofrido, mas nos comovemos com aquela história.
Esconder o capitalismo em uma cidade sedenta por ele, é uma verdadeira saga para Alexander. Até porque as mudanças ocorrem rápido demais. Parece que o povo alemão oriental estava esperando na beira do muro que ele caísse. A invasão do consumo é como uma onda que atinge a todos e dá a sensação de que todos "merecem" a sociedade atual. A história é contada pelos vencedores e o que vemos na mídia e livros escolares é um socialismo caótico, ditador e vilão, porém, tudo tem seu outro lado. O roteiro é sensível e inteligente ao constratar as duas visões da queda: os que se sentiam presos pelo regime e os que acreditavam com toda força em seus ideais. A simbologia maior está na Sra. Kerner e em seu sonho utópico de uma sociedade melhor. Isso torna a luta de seu filho tão comovente e interessante. Ficamos torcendo para que ele consiga manter aquele mundo harmônico para sua mãe doente. Um drama humano que emociona e nos faz refletir.
Como todos já devem saber, faleceu, nesse fim de semana, Anselmo Duarte. Nascido na cidade de Salto, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1920, começou ainda criança molhando telas de cinema mudo. Foi galã de diversos filmes da Vera Cruz e da Atlântida, como Tico-Tico no Fubá, onde fez par romântico com Tônia Carrero, e Aviso aos Navegantes. Trabalhou como roteirista em diversos longas e digiriu alguns de certo destaque como "Vereda de Salvação" (1964) que concorreu ao Urso de Ouro em Berlim, além de longas como "Absolutamente Certo" (1957), "Um Certo Capitão Rodrigo" (1971) e "O Crime do Zé Bigorna" (1977).
Seu maior feito, no entanto, foi mesmo a conquista da Palma de Ouro em Cannes (1962) com O Pagador de Promessas. O filme concorria com ícones do cinema, como O Anjo Exterminador de Luis Buñuel, O Eclipse de Michelangelo Antonioni, Le Proces de Jeanne DArc, além de Electra de Michael Cacoyannis, seu mais forte concorrente segundo anúncios da época.
Ao contrário do que deveria, no entanto, a conquista parece ter mexido com os brios dos cineastas brasileiros que preferiram desdenhar a comemorar o feito. O estilo clássico do paulista, com sua forma narrativa direta, era criticada pelos jovens em busca de inovações. Sua situação piorou quando não quis aderir ao movimento do Cinema Novo. A inveja e a cobiça quase acabaram com a carreira desse grande homem, mas ele continou firme naquilo que acreditava, fazendo os filmes que ele queria fazer.
O Pagador de Promessas, baseado na peça de Dias Gomes, conta a história de Zé do Burro e sua saga para pagar a promessa que fez a Santa Bárbara pela vida de seu burro de estimação. Com cunho altamente político, em prol dos menos favorecidos, mostrando a intolerância da igreja e a esperteza da imprensa que se aproveita do fato, o filme fez sucesso e continua atual. Não tem uma linguagem inovadora, nem as alegorias tão comuns em filmes de Gláuber Rocha, por exemplo, mas nem por isso é um filme menor. No elenco nomes como Leonardo Villar, Glória Menezes, Othon Bastos e Geraldo Del Rey ajudam a contar a comovente história. Talvez a honestidade com que o cineasta fez o filme, querendo passar a sua mensagem o tenha tornado universal. Zé do Burro é uma espécie de novo Cristo e Anselmo Duarte parece ter sido crucificado junto com ele. Uma pena, porque talento ele mostrou ter de sobra. O Pagador de Promessas é um clássico, um marco que merece ser lembrado e relembrado sempre. Esta é a melhor homenagem que podemos fazer a esse grande cineasta.
Amanhã é o Projeta Brasil na Rede Cinemark. Diversos filmes nacionais lançados esse ano serão exibidos a ingressos de apenas R$ 2,00. Uma iniciativa interessante e uma boa oportunidade para conferir e prestigiar o cinema brasileiro, além de ajudar novas produções, já que a renda é revertida para projetos. Pena que seja apenas em uma segunda-feira, quando a maioria do público trabalha ou estuda. Destaque para bons filmes que já saíram de cartaz como O Contador de Histórias, Feliz Natal, Tempos de Paz e Divã.
DVD
O Pagador de Promessas
Não é um lançamento em DVD, mas uma homenagem a Anselmo Duarte, cineasta falecido ontem. Este grande filme, único brasileiro a levar Palma de Ouro em Cannes, merece ser visto e revisto por todos. Pode ser encontrado nas melhores locadoras e lojas do país. Baseado na peça de Dias Gomes, o filme traça a trajetória de Zé do Burro e sua necessidade de pagar sua promessa, além de tocar em assuntos como intolerância religiosa, poder da imprensa e luta de classes.
Sinopse: Zé do Burro (Leonardo Villar) e sua mulher Rosa (Glória Menezes) vivem em uma pequena propriedade a 42 quilômetros de Salvador. Um dia, o burro de estimação de Zé é atingido por um raio e ele acaba indo a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal. Com o restabelecimento do bicho, Zé põe-se a cumprir a promessa e doa metade de seu sítio, para depois começar uma caminhada rumo a Salvador, carregando nas costas uma imensa cruz de madeira. Mas a via crucis de Zé ainda se torna mais angustiante ao ver sua mulher se engraçar com o cafetão Bonitão (Geraldo Del Rey) e ao encontrar a resistência ferrenha do padre Olavo (Dionísio Azevedo) a negar-lhe a entrada em sua igreja, pela razão de Zé ter feito sua promessa em um terreiro de macumba.
Televisão
Bee Movie, a história de uma abelha Quarta-feira, 13:35, Telecine Light
Uma animação inusitada, com uma metáfora muito interessante sobre as relações humanas e as funções de cada ser no planeta
Sinopse: Barry B. Benson (voz de Jerry Seinfeld) é uma abelha que acaba de se formar na faculdade, mas não se sente satisfeito em executar uma única função durante toda a sua vida, na fabricação de mel. Em uma viagem fora da colméia, ao lado das abelhas que colhem néctar, Barry tem sua vida salva pela florista nova-iorquina Vanessa (Renée Zellweger). Enquanto o relacionamento entre os dois cresce, ele descobre que seres humanos colhem e vendem mel. Por isso, decide processar toda a raça humana.
Joana D´Arc, de Luc Besson Sábado, 22h, Universal
O diretor francês Luc Besson conta a história verídica de Joana D'Arc (vivida pela bela Milla Jovovich, mulher de Besson na época), a heroína mais famosa da França que foi queimada como bruxa, de uma forma muito interessante.
Sinopse: Nascida em 1412, Joana desenvolve uma religiosidade tão intensa que a fazia se confessar mais de uma vez ao dia, ainda jovem. A Guerra dos Cem Anos, travada com a Inglaterra, se prolongava desde 1337 e, em 1420, os reis Henrique V e Carlos VI assinam o Tratado de Troyes, declarando que após a morte de seu rei a França pertencerá a Inglaterra. Porém, ambos os reis morrem e Henrique VI é o novo rei dos dois países, mas tem poucos meses de idade e Carlos (John Malkovich), o delfim da França, não deseja entregar seu reino para uma criança. Assim, os ingleses invadem o país e ocupam Compiègne, Reims e Paris, com o rio Loire detendo o avanço dos invasores. Surge, então, Joana D'Arc para libertar a França dos ingleses. Desesperado por uma solução, o delfim resolve lhe dar um exército, com o qual ela recupera Reims. Mas seu amor pelo exército e pela França não é reconhecido e, graças às visões premunitórias que tinha, Joana foi tida como bruxa e condenada à morte pelos mesmos franceses que libertou.
A bela da tarde Sábado, 18h, Canal Brasil
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, este filme de Buñuel chocou muita gente e trouxe Catherine Deneuve no auge de sua beleza. Uma boa reflexão sobre a insatisfação humana.
Sinopse: Séverine é uma jovem e bela mulher casada com um médico. Ela ama o marido, mas não consegue se satisfazer sexualmente com ele. Então entrega-se aos seus desejos e acaba por se tornar uma prostituta, mantendo uma vida dupla.
Comédias românticas possuem sempre a mesma fórmula: Rapaz conhece moça, rapaz perde moça e rapaz reconquista moça. Ou algo parecido com isso. Tem até um filme brasileiro que brinca com os clichês do gênero. Talvez, por isso, Sintonia de Amor tenha chamado tanta atenção quando estreou em 1993, sendo indicado a todos os prêmios de melhor roteiro do ano seguinte. Para começar, o casal principal, vivido por Tom Hanks e Meg Ryan, ficam menos de dois minutos em uma mesma cena. Não há beijos, nem declarações apaixonadas. Há ainda um link engraçadíssimo com o clássico dos anos 50, Tarde demais para esquecer. O sucesso do filme de Nora Ephron foi tanto que Hollywood tratou de lançar uma refilmagem do antigo clássico no ano seguinte.
O filme conta a história de Annie, uma mulher que está prestes a se casar quando ouve um depoimento de um viúvo e seu filho em uma rádio e se apaixona apesar de estar a milhas de distância. Toda a construção do filme é inteligente ao contrastar a fantasia de Annie e Jonah com o pragmatismo de Sam. Annie, uma mulher madura, com a vida resolvida, mas que assiste ao filme romântico, já tendo decorado todas as falas. Jonah, um garoto que quer uma nova mãe que seja uma mulher legal para o seu pai. E Sam, o insone de Seattle, um homem normal que ainda não superou a perda de sua esposa e não encontrou a mulher ideal. A beleza da construção narrativa está nos detalhes, nas pequenas cenas. Podemos definir Sintonia de Amor da mesma forma que Sam define o que sua esposa tinha de especial: "são várias pequenas coisas que juntas me davam a certeza de que deveríamos estar juntos".
Tarde demais para esquecer, dirigida por Leo McCarey, conta a história de um casal, vividos por Cary Grant e Débora Kerr, que se conhecem e se apaixonam em um cruzeiro marítimo. O problema é que ambos são comprometidos e dependem financeiramente de seus parceiros. Resolvem, então, marcar um encontro para seis meses depois, no topo do Empire State, quando já com a vida reorganizada poderiam se casar. Um acidente, no entanto, impede que ela chegue ao local. Por ter ficado paraplégica não esclarece o mal entendido e os dois ficam separados. Mas, como toda boa história de amor, a história não acaba assim...
As melhores cenas de Sintonia de Amor são justamente os cruzamentos com referências a obra de Leo McCarey. Annie e sua amiga assistindo ao filme chorando e repetindo cada fala, a irmã de Sam contando a história e sofrendo, a constatação de Annie que só conseguiu dizer "olá" a Sam, da mesma forma que Débora Kerr. E, claro, o encontro marcado no topo do Empire State.
É um filme despretensioso e muito gostoso de assistir. Assim como o clássico que o inspirou. Aos fãs de Warren Beatty, é interessante ver a refilmagem também, apesar de eu achar que não tem o mesmo charme do primeiro. Uma coisa comum aos três é a bela música An Affair to Remember (título original do filme de 1959).
Grandes cenas marcam por motivos diversos. Algumas possuem um técnica espetacular, outras uma atuação soberba, há ainda aquelas em que o clímax da emoção tornam-na inesquecível. E há finalmente, aquelas que simbolizam algo maior. Em todas as listas de melhores cenas da história do cinema encontramos uma citação ao Grande Ditador e à cena em que Chaplin brinca com o mundo. Até paródia em abertura de novela já foi feita pela Rede Globo. A cena foi uma grande sacada que sintetizou uma crítica não apenas a Hitler, mas a todos os ditadores que já passaram pelo planeta. O descaso com o mundo, com as pessoas que nele vivem, como se tudo fosse um grande brinquedo, um deboche de um ego inflado.
O grande ditador foi o único grande filme de Charles Chaplin após o cinema adquirir o som (Tempos Modernos tem apenas algumas falas). Ele era o gênio dos gestos. As palavras parecem ter tornado sua arte menor, ele não se adaptou muito, uma pena. Ironicamente, apesar da famosa cena do discurso final, o grande momento do filme não possui uma única palavra.
Para quem não conhece, o filme conta a história paralela de duas figuras muito parecidas fisicamente: um barbeiro judeu e um ditador intolerante. A alusão a Hitler é clara, tanto na constituição física, quanto no gesto de saudação e na perseguição aos judeus. Na cena em questão, o ditador acaba de confirmar que a última fronteira está perto de ser conquistada. Ele já se imagina Imperador do mundo. Em uma euforia sonhadora, pendura-se na cortina e se imagina no topo. Pede, então, para ficar sozinho e começa sua "brincadeira".
Ele desce, escorregando pela cortina, a câmera o acompanha. Já no chão, põe as mãos na cintura e se aproxima do globo terrestre. A câmera se afasta um pouco e enquadra o ditador atrás do globo, observando-o. Ele então se aproxima e a câmera se aproxima junto dando uma sensação de dimensão maior do pequeno homem. Ele pega o globo em suas mãos e diz quase em êxtase que é imperador do mundo. Começa então, a brincar com o globo tal qual uma bola de criança. A câmera se afasta um pouco para enquadrá-lo junto ao objeto sendo arremessado ao alto. Por vezes, a esfera vai a uma grande altura e a câmera a acompanha, tirando o ditador do quadro.
A preocupação do olhar é com esse mundo que está sendo arremessado (administrado) com leviandade. Será que ele corre o risco de cair? A música é doce, porém triste. O efeito que quer passar ao espectador não é o da felicidade do homem inconsequente, mas a angústia e frustração daqueles que são dominados por ele. É com esse povo que o espectador se identifica. E é nisso que está a genialidade da cena.
Em determinado momento, ele deita sobre a mesa, e, sem nunca parar de arremessar o globo, agora ele pode tocá-lo também com os pés e com as nádegas. A simbologia é ainda maior. Apesar das caras e bocas de Charles Chaplin, essa cena não é uma clássica de humor. Não é a risada, mas a preocupação que impera. Há um close nos dois, depois um novo corte para plano inteiro. O balé do homem e da bola é bem conduzido. Ele chega a pular em cima da mesa, até que o mundo não suporta tanta pressão e estoura. O ditador se assusta e chora como uma criança que perdeu seu brinquedo.
Só para constar, a última cena do filme, que sintetiza tudo que Chaplin queria passar ao mundo.
Sucesso total de bilheteria, This is it, ganhou mais duas semanas de exibição nos Estados Unidos, mais precisamente até o dia de Ação de Graças. O filme que mostra os ensaios de Michael Jackson para sua turnê já arrecadou US$ 101 milhões (cerca de R$ 180 milhões), nos cinco primeiros dias de exibição mundial segundo o Portal MSN. O lucro já ultrapassou o prejuízo do cancelamento dos tais 50 shows que o artista faria em Londres.
É isso aí, nome mais feliz não poderia existir para este filme. Michael Jackson é um fenômeno mundial e seu talento impressiona. Nos últimos anos de carreira, estava quieto, sem grandes sucessos, mas nunca esquecido. Sua volta nos shows de Londres era aguardada com grande expectativa e é essa mesma sensação que leva seus fãs e admiradores ao cinema. A oportunidade de ver pela última vez algo inédito do cantor é valiosa, mesmo que sejam pedaços de ensaios, gravados sem a finalidade de se tornar público, pelo menos não dessa maneira. Não havia nenhuma intenção em se fazer um documentário dos ensaios, nem da turnê. Eram apenas registros. Que bom que eles gostam de registrar tudo.
Há clipes gravados que passariam em telão, muita cena de dança e algumas estripulias do artista, mostrando que apesar dos remédios, Michael Jackson ainda tinha fôlego para muita coisa. Toda explosão e energia do cantor estão expressas nas imagens do documentário através de suas atitudes, expressão corporal e voz.
Além disso, This is it é uma oportunidade de ver a intimidade do astro, já que ao ensaiar ele se mostra sem máscaras, à vontade naquele que sempre foi o seu lugar. Michael sofreu todas as humilhações possíveis na infância, tornou-se um homem recluso, com problemas psicológicos, mas nunca deixou de ficar a vontade no palco. Ali ele estava em casa, como dizem.
O perfeccionismo do artista é grande, mas também a sua capacidade de compreender e se comunicar com sua equipe. O diretor Kenny Ortega soube aproveitar o que Michael tinha de melhor e presentear aos admiradores da boa arte com uma homenagem merecida ao rei do pop. Sem choro, nem vela, muito menos escândalos pessoais. This is it é uma ode à boa música, um resumo do que foi a carreira do artista (com direito a nova versão de Thriller). Como não há confirmação de prorrogação da exibição aqui no Brasil, melhor correr para o cinema.
História, filosofia, técnicas cinematográficas e quebras de regras respaldadas nas questões humanas e capacidade de esquecimento de nossa traumatizada memória. Quando Alain Resnais apresentou ao mundo o seu primeiro longa-metragem solo, misturou um pouco de tudo isso em um legítimo representante do movimento conhecido como Nouvelle Vague. Falar deste longa é correr o risco de cair na repetição. Muita coisa já foi dita, muitas interpretações já existiram e continuam a surgir. O desafio é, então, observar o filme como se nunca se houvesse ouvido falar dele. Para compreender a profundidade de Hiroshima Mon Amour é preciso compreender o momento, fazendo um esforço de olhar a época vivida.
Aproveitando o clima do pós-guerra e os questionamentos humanitários sobre as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, Resnais fez um filme que questiona a própria essência humana e sua capacidade de lembrar e esquecer traumas e amores vividos. Uma aula filosófica com monólogos internos, momentos angustiantes de silêncio profundo e diálogos verdadeiros entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês que misturam passado e presente em emoções dúbias.
Alain Resnais começou sua carreira dirigindo filmes independentes sobre estudos de artistas plásticos a exemplo de Van Gogh e Picasso. Ao entrar para o movimento da nouvelle vague, os documentários passam a ser de roteiros literários como Nuit et Brouillard, Toute la Memórie du Monde. Não é de se estranhar, então, que o seu primeiro longa de ficção tenha um pouco de documentário, uma estética plástica forte, além de muita poesia.
O filme começa com uma linguagem próxima a um documentário, intercalando o casal na cama trocando carícias com imagens de Hiroshima. A narração de Emanuele Riva expõe elucubrações sobre a cidade destruída dizendo “eu vi tudo em Hiroshima”, enquanto que Eiji Okada rebate dizendo que ela “não viu nada em Hiroshima”. As imagens dos braços entrelaçados e do dorso masculino nu acariciado pelas mãos femininas dão um contraste com as imagens de horror da guerra, criando uma expectativa inicial impressionante.
O roteiro de Marguerite Duras é preciso em criar a cadência, quase musical desse primeiro momento, em que a afirmação e a negação se intercalam com as imagens impactantes de corpos queimados, sobreviventes e construções precárias. São quinze minutos de projeção inicial que prendem o espectador, principalmente por ser totalmente diferente de tudo que já havia sido visto.
A partir de então, somos apresentados ao casal protagonista e ao seu drama de viver algo impossível, burlando a memória e querendo esquecer o passado. Ela, uma atriz francesa, casada, que está em Hiroshima para participar de um filme sobre a paz. Ele, um arquiteto japonês, também casado, com a mulher viajando, que se encanta pela possibilidade de viver momentos com aquela mulher diferente. Dois dias ela ficará na cidade e eles têm apenas esses momentos para viver intensamente o presente e esquecer o passado, porém ambos querem mais daquilo. Os diálogos se intercalam com o silêncio, forte elemento do filme, em uma linguagem contemplativa e intimista.
Com a insistência dele em querer compartilhar algo íntimo, ela acaba recordando o drama do seu primeiro amor, quando vivia em Nevers e se apaixonou por um oficial alemão. Nesse momento, o filme começa a intercalar imagens em flashback com momentos presentes, uma inovação para a época. Somos então apresentados a esse jogo temporal, resgatando o amor proibido, comparando-o ao horror da guerra e ao dilema vivido pelo casal atual. É um momento de catarse, em que as emoções estão à flor da pele e Emanuele Riva demonstra toda a sua capacidade emotiva, em olhares e gestos desesperados que evocam a escalada da loucura pelo sofrimento vivido.
É um momento único, mágico, entre duas pessoas que, como a maioria dos seres humanos, não tem a capacidade de controlar as próprias emoções, nem escolher o que suas mentes conseguem lembrar ou esquecer. Eiji Okada também surpreende em sua interpretação, principalmente se levarmos em conta que ele não sabia uma única palavra em francês e teve que decorar foneticamente cada palavra. Sua emoção é transmitida em olhares contidos.
O drama se passa em um nível emocional, está apenas na cabeça deles. A simbologia é tanta que eles não se chamam por nomes ou pronomes. Em um pacto silencioso, ele é para ela, Hiroshima. Ela é para ele, Nevers. As cidades que guardam seus maiores segredos, suas maiores dores, aquilo que eles querem esquecer, mas não conseguem.
A grande genialidade de Resnais nesse filme é montar a cadência de imagens intercalando silêncio e som, claro e escuro, beleza e destruição. Os opostos se completam em um jogo psicológico de reflexão sobre a verdadeira condição humana e os limites de sua mente. Uma inovação não apenas para época, mas que consegue ser atual mesmo nos dias de hoje, quando a linguagem cinematográfica parece ter esgotado sua capacidade de inovação.
Por tudo isso, Hiroshima Mon Amour é um clássico do cinema mundial, em que a capacidade criativa de Alain Resnais compôs um retrato preciso da fragilidade humana, dos traumas e horrores da guerra e da força controladora do amor. É uma obra que merece ser sempre revisitada.
No dia de Finados, trago um filme controverso de João Falcão, o mesmo diretor de A Máquina, mais uma vez adaptando uma peça de teatro para o cinema. A comédia é divertida, dinâmica e completamente nonsense, bem no estilo debochado do diretor.
A história gira em torno do casal Edu e Laura, que estão passando por uma crise conjugal. Sempre que a discussão começa a ficar séria, Edu se finge de morto, o que começa a irritar a moça. No dia em que Laura não acredita, é exatamente quando ele morre repentinamente. Sua luta, então, é para se comunicar com a amada, se despedir e descobrir o que ela queria falar com ele. Para isso, conta com a ajuda de um defunto muito estranho. O homem do sotão, o fantasma do coração de pedra, que ele sempre temeu em sua infância, interpretado muito bem por Gustavo Falcão.
A comédia mistura música, diálogos escrachados e romance, levando o público a sensações diversas. Uma das melhores cenas do longa é o velório de Edu, que tem a participação de Zéu Brito como um agente funerário esquisito e faz uma referência direta ao filme Os fantasmas se divertem. A mistura de exoterismo e realidade alterada também contribuem para que o espectador compre o argumento do filme, sem questionar muito alguns detalhes.
Na verdade, o filme começa com Edu se apresentando ao público, já como morto, em narração over e aos poucos vai contando sua história. "O que você faria se soubesse que hoje é o seu último dia de vida?" Além da estética surreal e clipes musicais, o filme trabalha com a dicotomia entre o homem pop que parece não ter crescido e a mulher erudita, uma espécie de Eduardo e Mônica estilizado. O primeiro encontro dos dois é em uma biblioteca, ele vendo quadrinhos, fã de Frank Miller e Neil Gaiman e ela fã de Fernando Pessoa.
A estética desses dois mundos é construída na fluição da história de uma maneira interessante, mas logo se perde, quando cai nas regras da comédia romântica. Os atores Vladimir Brichta e Aline Moraes parecem não achar o tom dos personagens. Ficam em cima do muro entre o universo estranho que o diretor imprime à história e o romance clássico, tornando algumas cenas maçantes.
Para completar, o final parece jogado na tela sem muito cuidado, tornando a resolução vazia e mesmo previsível. Principalmente pela revelação da identidade do anjo da guarda e do fantasma do sotão. No geral, no entanto, é uma boa diversão para o feriado.
This is it
Ainda dá tempo de ver o filme que traz os últimos ensaios de Michael Jackson para a turnê que faria em Londres. Para os fãs, um momento único, para os admiradores da boa arte, uma oportunidade de ver um pouco mais do perfeccionismo e talento do artista. O filme arrecadou US$ 20 milhões em sua estreia.
Sinopse: O filme mostra aos fãs de Jackson um raro olhar sobre o artista criando e ensaiando para os shows que seriam realizados na O2 Arena, em Londres. O filme foi montado a partir de mais de cem horas de cenas de bastidores, com Jackson ensaiando várias músicas para o show.
Televisão
O Quatrilho
Terça-feira (03/11), 18:10 - TV Brasil
Na expectativa de Lula, o filho do Brasil, vale a pena rever o último bom filme do diretor Fábio Barreto, que por coincidência é estrelado também por Glória Pires e foi nosso primeiro representante no Oscar.
Sinopse: Filme baseado no livro homônimo de José Clemente Pozenato. A história de dois casais numa colônia de italianos no sul do Brasil, no começo do século 20. Um conturbado relacionamento se estabelece quando os quatro passam a morar juntos e uma inesperada e proibida paixão acontece entre a esposa de um e o marido da outra. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1996.
Juno
Quinta-feira (05/11), 16:40 - Telecine Light
Um drama adolescente pode se tornar uma comédia divertida, basta mudar o seu ponto de vista e ter uma personagem tão interessante e sarcástica como Juno. Oscar de melhor roteiro original e com uma das melhores aberturas da história do cinema, um belo filme de Jason Reitman.
Sinopse: Juno MacGuff (Ellen Page) é uma adolescente que engravida de maneira inesperada de seu colega de classe Bleeker (Michael Cera). Com a ajuda de sua melhor amiga, Leah (Olivia Thirlby), e o apoio de seus pais, Juno conhece um casal, Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), que está disposto a adotar seu filho, que ainda nem nasceu.
DVD
Amar e Morrer
Clássico de guerra de 1958, dirigido por Douglas Sirk, que finalmente é lançado em DVD.
Sinopse: Em 1944, uma companhia do Exército Alemão combatendo no front russo está completamente aterrorizada pelos confrontos da II Guerra Mundial. Nesse cenário, o soldado Ernst Graeber é finalmente chamado de volta para a Alemanha e ao chegar encontra seu lar em destroços devido aos bombardeios. Enquanto procura seus pais desaparecidos, conhece a jovem Elizabeth Kruse, filha de um preso político. O casal irá lutar por suas vidas e por esse belo amor.