26/01/2010

A Troca

A TrocaSe a história não fosse baseada em fatos reais eu iria pensar que J. Michael Straczynski apelou demais ao escrever o roteiro de A Troca. Que pessoa em sã consciência iria imaginar uma trama tão elaborada para calar a boca de uma mãe? Criar um falso menino e fazer todos acreditarem que a mulher está louca por não querer o filho de volta? O fato é que, as vezes, a realidade consegue ser mais inacreditável que a ficção. E Clint Eastwood conseguiu construir essa atmosfera de forma crível e angustiante.

Angelina Jolie é Christine Collins, uma mãe solteira que procura seu filho desaparecido. Cinco meses depois, a polícia de Los Angeles lhe apresenta um garoto dizendo ser o seu Walter, o que a mulher não reconhece, obviamente. Começa, então, uma luta contra um sistema viciado, em busca da verdade e justiça.

A narrativa é clássica, onde bons e maus estão bem definidos, principalmente nas figuras do reverendo Briegleb (John Malkovich) e policial Jones (Jeffrey Donovan), respectivamente. O hospital psiquiátrico é caricatural, mas bem próximo da realidade dos anos 30 nos Estados Unidos. Ainda assim, parece que Eastwood se sente à vontade tanto no melodrama da primeira parte, quando na trama policial que se inicia na segunda parte do filme. A verdadeira reviravolta em A Troca não está no menino que não é o filho da senhora Collins, mas no que aconteceu ao filho verdadeiro e outras crianças americanas. E principalmente, como a polícia de Los Angeels não quis ver a verdade, trancafiando Christine Collins e encobrindo seu próprio erro.

Angelina JolieAngelina Jolie consegue uma interpretação emocionante e convicente, que lhe rendeu a indicação ao Oscar, mas que não supera a densidade dramática que atingiu em O Preço de uma coragem, pelo qual, para mim, merecia o prêmio de melhor atriz. O grande trunfo, em A Troca, é a identificação do público com o sofrimento de sua personagem, elevada quase a Cristo, sofrendo todas as injustiças possíveis. No final, até um personagem que seria um vilão diz admirar sua coragem de ir contra o sistema.

A Troca é um filme que toca em diversos assuntos sérios e complexos como o papel da polícia, a corrupção dentro dela, a precariedade do sistema de saúde mental e outros detalhes que seriam spoilers. Mas, no fim, a narrativa se resume a uma trama muito simples. A luta de uma mãe para reaver seu filho desaparecido. Talvez, por isso, seu êxito não tenha sido completo. Ainda assim, é um bom filme.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

6 opiniões:

Cristiano Contreiras disse...

Posso te confidenciar algo?

Pra mim, este é o melhor filme do Clint Eastwood. Acima de qualquer opinião, contra todos, eu afirmo isso. Gosto muito e acho a atuação de Jolie puramente emocional!

beijos e aparece!

27 de janeiro de 2010 00:56
Davi disse...

Olha, Clint é tão fantástico que é difícil escolher entre seus filmes. De minha parte, acredito que Cartas de Iwo Jima é seu clássico imbatível. É louco pensar que A Troca foi lançado no mesmo ano do também excelente Grand Torino. Devo dizer que discordo de alguns pontos da crítica, especialmente do final. No meu entender é justamente a simplicidade de certas tramas que garante a plenitude de seu efeito, por adereçar mais desembaraçadamente determinados temas de alcance universal.

É claro que, com menos elementos a serem dispostos no esquema narrativo, o jogo fica mais arriscado, mas, se a mira é boa como a de Clint, temos um tiro limpo, que atinge o alvo sem desvios.

E sexta-feira, Invictus :D

beijo!

27 de janeiro de 2010 01:33
Amanda Aouad disse...

Verdade, Clint Eastwood é uma das maiores surpresas cinematográficas. De ator de Cowboy decadente, se revelou um excelente diretor. Na expectativa por Invictus. Mas, acho que não consideraria A Troca seu melhor filme, Cris.
Davi, eu concordo com você que simplicidade pode ser exatamente a melhor coisa. O que disse foi que por ser simples, o filme não ganhou o status de clássico, não devo ter me expressado bem. O reflexo foi o Oscar, não foi sequer indicado a melhor filme, nem diretor. E Jolie perdeu em melhor atriz.
abraços

27 de janeiro de 2010 10:04
Davi disse...

Sem querer ser chato mas já sendo (hehe), os westerns de Eastwood com o genial diretor italiano Sérgio Leone - a saber: "Por um punhado de dólares", "Por Uns Dólares a Mais" e "Três Homens em Conflito" (também traduzido como "O Bom, o Mau e o Feio) estão longe da decadência. Sua atuação é sempre precisa, encarnando com verdade o homem endurecido pela natureza e pela vida, mas que mantém, sob a aparente brutalidade, um senso ético e altruísta. No fim de sua primeira fase de cowboy teve um tropeço em "The Outlaw Josey Wales", sua primeira direção. Depois disso, ajudou a criar o esterótipo do valentão de filmes de ação com "Dirty Harry" e arrebentou em "Fuga de Alcatraz", apenas para no ano seguinte encarnar o cowboy moderno e anacrônico "Bronco Billy", uma melancólica paródia de si mesmo, assinando também a direção. Isso foi em 1980. Em 85 voltou ao western com "Pale Rider", um grande sucesso que estrelou e dirigiu. Sete anos depois, em 1993, ganhou 4 oscar, incluindo o de melhor filme, por "Os Imperdoáveis". O resto é história!

28 de janeiro de 2010 22:24
Davi disse...

Dirty Harry, na verdade, surgiu em 1971. Eu que apenas o conheci nos anos 80.)

http://www.imdb.com/title/tt0066999/

28 de janeiro de 2010 22:36
Amanda Aouad disse...

Ok, Davi, eu usei uma palavra infeliz, afinal decadente é muito forte... Na verdade, os westerns dos italianos tem seu charme, apesar de não serem os grandes clássicos do gênero de décadas anteriores. Afinal, eles surgiram quando os americanos já estavam em declínio. E na verdade, não gosto muito da interpretação dele, típica demais, sempre um cara durão e anti-herói. Achei um barato quando De volta para o Futuro fez uma piada no terceiro filme, dizendo que "Clint Eastwood" era o homem mais covarde do oeste. hehe. Mas, registrado o seu protesto, pode ser chato e nos brindar com seus conhecimentos sempre. É bom trocar e aprender cada vez mais.

28 de janeiro de 2010 23:01

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