21/06/2010

40 anos do Tri: Pra Frente Brasil

Pra Frente, BrasilHoje faz quarenta anos que o Brasil ganhou o tri campeonato mundial no México. Como já falei aqui de Pelé Eterno, vou abordar o ponto ruim daquela vitória: encobrir a didatura militar que tomava conta do país. É essa a premissa do filme que Roberto Farias lançou em 1982, ainda no governo Figueiredo, sendo o primeiro filme a falar abertamente de torturas e todas as consequências do golpe de 64. O filme foi bem recebido pela crítica ganhando o Prêmio C.I.C.A.E., no Festival de Berlim e os prêmios de Melhor Filme e Melhor Edição, no Festival de Gramado.

O argumento é interessante, fazer um paralelo da Copa com as torturas. No dia do primeiro jogo do Brasil um pacato cidadão da classe média é confundido com um militante político e preso pelo DOPS. O processo de tortura ocorre enquanto está ocorrendo o campeonato de futebol e termina no dia da final. Reginaldo Faria, que vive o homem preso por engano, assina o roteiro junto a Paulo Mendonça e ambos pecam em não conseguir sustentar tão bem a premissa da comparação. As cenas dos jogos acabam sendo inseridas de forma forçada, principalmente no final. Poucos são os momentos em que a comparação é natural a exemplo de uma cena em que os militares se preparam para mais uma sessão de tortura quando alguém grita: o jogo vai começar. O comandante então, vira para o preso e diz: "reza para o Brasil ganhar".

Reginaldo Faria e Carlos ZaraA história se concentra na família de Jofre tentando descobrir seu paradeiro. Seu irmão Miguel, vivido por Antonio Fagundes, em uma ótima atuação. E sua mulher Marta, vivida pela ainda inexperiente Natália do Valle que em muitas cenas soa artificial. Destaque também para Elizabeth Savalla, como a noiva guerrilheira de Miguel, o torturador Carlos Zara e Neuza Amaral que vive a irônica mulher do chefe, interpretado por Paulo Porto.

Carlos Alberto ergue a Jules RimetApesar do roteiro não ser tão feliz, o filme se sustenta na importância da denúncia e na força do argumento. Com uma fotografia carente de técnica e criatividade, mas com uma câmera bem posicionada, a história se desenvolve retratando o contraste da época, onde a classe média, alheia às manobras dos empresários que sustentavam a tortura, acaba atingida pela falta de lei. Muitos criticaram essa solução que o roteiro teve para expor as torturas, ao colocar estes militares à margem do processo total, como se não fosse uma coisa oficial. Porém, esta foi a única forma do filme ser exibido, e mesmo assim, depois de muita censura. Tanto que o presidente da Embrafilme Celso Amorim teve que se demitir do cargo após aprovar o financiamento do projeto.

Menos emotivo que O ano em que meus pais saíram de férias, filme que insere a copa de 70 de uma forma mais harmônica na trama, Pra Frente Brasil se coloca como um filme denúncia. Expõe o que pode nas cenas de tortura, retrata o drama daqueles que têm seus parentes sumidos e ninguém a quem recorrer, e demonstra como a grande massa estava alheia a tudo isso, comemorando a vitória no México. Para a época era a proposta mais interessante e por isso, fez tanto sucesso. Hoje, eu prefiro algo como o filme de Cao Hamburger, muito mais sutil, pelo foco do garoto que perde seus pais para ditadura. Sem nunca mostrar prisão, nem tortura, deixa no ar, para que o espectador imagine aquilo que ele já sabe.

Noticias da Censura


8 opiniões:

Vinícius P. disse...

Recentemente vi o documentário "Cidadão Boilesen" e ele mostra algumas cenas de "Pra Frente Brasil", de forma que fiquei curioso para ver o filme - que realmente parece ter sido importante para a época.

21 de junho de 2010 16:22
Thiago disse...

Eu vi o filme e é interessante mesmo, principalmente para uma época em que ainda vivíamos com a censura. Reginaldo está ótimo como o torturado Jofre...

21 de junho de 2010 16:52
Amanda Aouad disse...

É, Vinícius, no documentário passa a cena da morte do chefe de Jofre, vivido por Paulo Porto que seria um retrato do empresário Henning Albert Boilesen, que se envolveu com a ditadura militar.

Com certeza, Thiago, falar de didatura ainda no governo militar foi um marco.

21 de junho de 2010 17:54
Hugo disse...

Gostei muito deste filme, é o retrato de uma época complicada e de contrastes. Enquanto o povo festejava o título, presos políticos eram torturados.
Não sabia desta história por trás do filme, do empresário Boilesen. Vou procurar este documentário.

Até mais

21 de junho de 2010 18:57
Robin disse...

Forte, gosto da iniciativa, mas concordo em preferir filmes como O ano em que meus pais... Gosto mais do estilo. Agora, entendo a importância da denúncia e louvo.

abraços

22 de junho de 2010 10:49
Amanda Aouad disse...

Com certeza, Hugo.

Robin, são duas épocas, dois objetivos. Que bom que a reabertura nos levou a escolhas.

bjs

22 de junho de 2010 21:53
Apelido indisponível disse...

Discordo da análise. Acho o filme de Roberto Farias mais contundente e direto - o que não tira sua qualidade como obra cinematográfica. O filme de Cao Hamburguer é bom, mas para mim trata a questão da ditadura por uma via muito tangencial. O roteiro de Pra Frente Brasil é muito interessante, como quando Reginaldo Faria diz ser um trabalhador, pai de família, não ser 'daqueles que são contra', para ao final concluir que ele não merece a tortura e, na última fala da cena, dizer que 'ninguém merece isso'. Outro ponto interessante é quando Milton Moraes, no papel de um investigador da repressão, pergunta a Antônio Fagundes: 'seu irmão professa ideologias alienígenas?' - termos exóticos que a ditadura usava - ou quando um militante diz a Paulo Porto (no papel de um industrial colaborador) que é gente como ele que era responsável pela situação do país. São visões diferentes de um mesmo processo, peças do mesmo quebra-cabeças, complementado pelos filmes dos países do Cone Sul sobre o mesmo tema (História Oficial, Machuca, etc.).

22 de julho de 2010 18:54
Amanda Aouad disse...

Oi, amigo respeito sua discordância e acho bastante válida a discussão. Mas, na minha visão, nada do que você disse invalida o que eu disse. Você apenas ressaltou outros aspectos do filme que são mesmo interessantes, eu tambem falei de alguns, principalmente do solução que eles tiveram de burlar a censura e deixar o filme ser exibido, já que foi lançado ainda no final da ditadura militar. O de Cao é em outro momento, não precisamos mais expor a ditadura, e podemos jogar com imaginário do público. Enfim, continuo achando que é ruim no roteiro o mote principal: o paralelo ditadura copa do mundo, isso fica completamente solto no filme, se perde, chegando a ser forçado em alguns momentos. Acho que a progressão do roteiro poderia ser melhor desenvolvida, gerando mais impacto.

abraços

22 de julho de 2010 21:59

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails
 

Licença Creative CommonsBlog CinePipocaCult by Amanda Aouad is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License
Based on a work at www.cinepipocacult.com.br
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.cinepipocacult.com.br