21/07/2010

O Bem Amado

Odorico ParaguaçuQuando Dias Gomes chegou à televisão brasileira foi uma mudança na teledramaturgia. No lugar dos bons e velhos melodramas românticos, tramas mais politizadas começaram a invadir nossos lares, adaptadas de peças do autor. Foi assim que em 1973, estreava a primeira telenovela a cores na Rede Globo: O Bem Amado. Uma sátira aos políticos demagogos na figura de Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia Sucupira. O sucesso foi tanto que a trama virou uma série na década de 80, com 220 episódios. Agora, ela chega aos cinemas pelas mãos de Guel Arraes, o diretor já conhecido por seu tom farsesco, se encaixa muito bem na proposta original de Dias Gomes que foi amenizada na televisão pela censura e pela necessidade do meio.

"Mas deixemos os 'entretantos' e vamos logo aos 'finalmentes'". O Bem Amado retoma a história original da peça, repetida na telenovela, de uma cidadezinha do interior que elege seu prefeito com a promessa de construir um cemitério. O problema é que após terminada a obra, ninguém morre na cidade, adiando, sem previsão de prazo, a bendita inauguração. Guel Arraes, que também assina o roteiro junto a Cláudio Paiva, alterou alguns detalhes, fazendo um link da trajetória da cidade com a situação do país, incluindo a ditadura militar em um parelelo interessante, principalmente pelo seu final. Há ainda, o personagem de Tonico Pereira, o opositor de Odorico, que apesar de ser de esquerda também não tem escrúpulos, dando um tom maior de crítica à oposição também.

As Irmãs CajazeirasGuel Arraes é um diretor com estilo próprio, por isso é visto como vanguardista na televisão, sendo responsável por programas como Hipertensão ou TV Pirata. No cinema, é taxado de comercial, mas seus filmes são bem construídos, todos em tom de farsa, e sucesso de bilheteria. Vide, O Auto da Compadecida ou Lisbela e o Prisioneiro. Nesse ponto, O Bem Amado não acrescenta nada à sua trajetória, sendo apenas mais do mesmo. Porém, o texto de Dias Gomes se mostra atual, quarenta anos depois, sendo uma obra sempre a ser conferida.

José Wilker é Zeca DiaboO elenco cumpre o seu papel, não se tornando apenas uma caricatura do original. Apesar de não gostar do tom caricato ao extremo que Marco Nanini, provalvemente brifado por Arraes, dá à Odorico, tenho que reconhecer o talento do ator. Gosto mais do estilo canalha humanista de Paulo Gracindo, sem tantas caras e bocas, mas funciona no contexto do filme. Já Matheus Nachtergaele conseguiu fugir da caricatura ao construir um Dirceu Borboleta completamente diferente de Emiliano Queiroz, ficou sob medida e ainda evitou excessos. As irmãs Cajazeiras estão bem representadas por Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes (antes do agravamento da doença) que mantêm o bom humor a cada cena. Já José Wilker não consegue colocar medo com seu Zeca Diabo e Maria Flor está totalmente dispensável como a filha do prefeito Violeta. O filme é narrado por Caio Blat que dá vida ao jornalista Neco.

O Bem AmadoUma coisa que me incomoda nos filmes produzidos por Paula Lavigne é a trilha sonora. Adoro Caetano Veloso, como cantor e compositor, mas as trilhas que ele assina têm um excesso de músicas que transforma toda cena em um videoclipe. As músicas incidentais, no entanto, são bastante felizes, principalmente nas cenas das irmãs Cajazeiras, ampliando ainda mais o tom de farsa.

Com excessos propositais do estilo, O Bem Amado é um filme que cumpre o seu papel, ao resgatar um personagem lendário da nossa dramaturgia em uma época em que estamos nos preparando para as próximas eleições presidenciais e para governador. Como diz o personagem de Caio Blat, "a solução está na democracia".


9 opiniões:

Robin disse...

Odorico está no imaginário do brasileiro. Clássico com as irmãs Cajazeiras e Dirceu Borboleta. Tô louco para ver esse filme.

21 de julho de 2010 10:04
Vinícius P. disse...

Não parece ser um grande filme, mas ao menos se conseguir me entreter já está valendo. Mas esse pôster do filme é tão feio que nem tenho tanta vontade de ver.

21 de julho de 2010 11:41
Reinaldo Glioche disse...

A solução está na democracia e O bem amado vem mostrar mais que muita biografia de presidente por aí. Eu quero conferir! E uma salva a Dias Gomes!
bjs

21 de julho de 2010 13:59
Anônimo disse...

Eu não gosto de novelas, mas concordo que os filmes de Guel Arraes são legais. Adoro Auto da Compadecida. Vou ver esse aí.

21 de julho de 2010 15:13
Juliana disse...

Eu sou noveleira mesmo e estou adorando essa onda de textos de Dias Gomes nos cinemas, depois O Bem Amado, e soube que também tem Roque Santeiro para estrear.

21 de julho de 2010 15:29
Amanda Aouad disse...

Pois é, Robin, estava curiosa também para ver como tinham ficados esses personagens.

Consegue sim, Vinícius, ele não tem pretensões que ser uma obra-prima, mas tem sua função.

Com certeza, Reinaldo. Faço coro aos aplausos a Dias Gomes.

Anônimo, Se gostou de Auto da Compadecida, acredito que vá gostar desse.

Juliana, além dessas duas histórias, que agora são novidades, não podemos esquecer que O Pagador de Promessas que nos deu Palma de Ouro em Cannes também era do Dias.
abraços

21 de julho de 2010 20:13
Tiago Britto disse...

Não gostei de saber que é um filme baseado em uma novela...sou avesso a globo e suas novelas...fazer o que..mesmo assim devo assistir

22 de julho de 2010 05:47
Anônimo disse...

Ola pessoal...

Eu sou o Cadu do blog Ccine. Acho que vocês devem conhecer o blog.
Todo mês procuro colocar um blog especial que tenha como conteúdo o cinema e esse mês escolhi vocês.
Depois passe lá e veja. Se tiver alguma alteração me avise que eu mudo, ok?
Parabéns pelo blog.

http://ccine10.blogspot.com/

22 de julho de 2010 08:53
Amanda Aouad disse...

Bom, Tiago, primeiro não é uma novela qualquer, depois não é adaptado dela, na verdade, é adaptado da peça de teatro. A novela já foi uma adaptação.

Cadu, muito obrigada, já visitei e vou agradecer por lá também.

abraços

22 de julho de 2010 14:20

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