18/07/2011

Vem aí O Homem que Não Dormia

O Homem que Não DormiaO Homem Que Não Dormia, novo filme do diretor baiano Edgard Navarro (do premiado Eu Me Lembro), terá sua avant première no Cine Futuro na próxima semana aqui em Salvador. Na época do final das filmagens, tive a oportunidade de entrevistar o diretor juntamente com o ator Bertrand Duarte para a revista TudoBem. Resgato aqui aquele bate-papo na íntegra para sentirem o clima do filme.

Acorda Cinema Baiano

SuperOutro, filme de Edgard Navarro, com Bertrand Duarte no papel principal marcou época e entrou para história do cinema baiano. Vinte anos depois, diretor e ator se reencontram no filme “O Homem Que Não Dormia”. Coube a Amanda Aouad (CinePipocaCult) trazer esse bate-papo para TudoBem.

SuperOutro continua sendo o grande marco na vida de vocês, a que atribuem isso?
Navarro – SuperOutro é a entrega com uma confiança absoluta de um ator que não sabia bem do que se tratava, porque você pode até gostar de um roteiro, mas não sabe o que é que vai dar aquilo. Então, foi essa entrega responsável pelo sucesso do filme, porque ele se apoiou basicamente na interpretação de um ator. Se não tivesse um grande ator e uma grande entrega, não teria um grande filme.
Bertrand – Eu acho que SuperOutro tem uma capacidade de síntese, de um tipo de personagem, de um tipo de gente, de uma realidade que permeia as metrópoles. Por isso eu acho que as pessoas se identificam e fazem, de certa forma, uma catarse. Essa capacidade é que faz com que o filme tenha essa aura de atualidade que ele carrega e acho que vai carregar por muito tempo ainda.


Edgard Navarro dirigindo Bertrand Duarte (Superoutro / 1987)
O que significou este reencontro para vocês?
Bertrand – Eu e Edgard é uma coisa típica de um encontro de um diretor com as suas idéias e da capacidade do ator de absorver aquilo e materializar. Eu acho que nós somos uma dupla típica, não temos assim, nem tantos conflitos como um Klaus Kinski e um (Werner) Herzog, mas uma coisa que é parecida de relação. Um encontro interessante.

O homem que não dormia era um sonho antigo seu, como foi a experiência?
Navarro – Ele foi sofrendo muitas ações ao longo do tempo e hoje trata de um assunto que é parabolizar a transcendência de uma agonia de viver. São cinco personagens com problemas e um Barão. E o barão não existe na verdade, só no sonho das personagens. E é necessário para que naquele momento se dê um processo de eclosão de um novo ser naquelas pessoas que estão sonhando com ele. Vamos desenterrar esse tesouro que ele enterrou. Mas é tudo dentro de um universo mágico, metafórico. Assim, são cinco personagens que são cinco vértices de um pentágono e o centro é este Barão.

E o seu personagem é um desses cinco? Como é ele?
Bertrand – O meu personagem é o padre Lucas, talvez a missão maior da vida dele seja exatamente arrebanhar essas outras quatro pessoas, inclusive a ele próprio, para esta revelação interior. Porém, ele é um homem que lida com a igreja, mas não tem fé. Um homem que ainda busca uma explicação de porque que ele está ali, naquele lugar, fazendo aquele papel. Em uma relação totalmente hipócrita. E no momento da revelação, ele também se descobre como um ser que pode ter fé. Que pode acreditar.
Navarro - O fenômeno da fé é que é o barato, o fenômeno da inteireza, da integridade, da relação ética com as pessoas. Você muda a relação com as pessoas, tem uma relação amorosa, fraterna. O filme busca muito sinceramente isso. Eu quis me aproximar desse lugar da quebra do encanto. Quando a coisa perde o encanto parece que um véu cai e você fica muito feliz, porque se desvela a realidade. É o que acontece com o personagem de Bertrand. De uma forma tão forte que ele, no final, é dado como louco.


Edgard Navarro dirigindo O Homem que Não Dormia
É possível fazer bom cinema para grandes públicos?
Navarro – Eu não tenho a menor dúvida. Agora, o fenômeno que nós vemos é muito complexo. No caso do Brasil, os grandes públicos são aqueles que não podem pagar um ingresso caro. E é oferecido a ele um entretenimento gratuito da TV aberta. Fica uma fatia muito restrita, essa que pode pagar, e é uma platéia formada na convicção de que o cinema brasileiro não vale a pena.

O grande calo do cinema nacional e baiano é a distribuição. Alguma solução para isso?
Navarro – É um milagre que pode acontecer aqui e ali, mas não tenho dúvidas de que o grande público não pode ser atingido se ele nem sabe que o filme está passando. Se eu fosse esperar a coisa de mercado, não faria. Eu faço porque sou louco o suficiente para acreditar que posso voar. O SuperOutro não deu dinheiro, mas quando viram e dizem “seu filme mudou a minha vida”, então eu digo, valeu fazer.
Bertrand – Agora, mesmo com essa coisa perversa que é o mercado, tem alguns sinalizadores de que existe um potencial e que de alguma forma, mesmo que timidamente, isto está se modificando. Cineastas que já estão fazendo um exercício de se relacionar bem com esse mercado como Fernando Meirelles, Walter Salles com filmes brasileiros de qualidade. Então eu acho que é um caminho.

E os planos para o futuro?
Navarro - Eu tava sem planos pro futuro, achando que não ia ter nem futuro. Mas comecei a pensar que se realmente se cumprir essa história de uma libertação, eu esteja liberado para fazer um outro projeto que é uma comédia sobre a Igreja Católica: Eu, pecador. Um roteiro muito engraçado que vai discutir racismo e intolerância religiosa.
Bertrand – Fiz o filme de Miguel Littin (Isla 10), no Chile, que ainda não lançou. Tenho feito mais televisão atualmente. Estou indo viajar agora para fazer uma participação na novela das oito (Caminho das Índias). Fiz a última novela, A Favorita. E tenho um projeto de montar um espetáculo no próximo ano com Fernando Guerreiro em SP.

Um Ator?
Navarro – Bertrand Duarte.
Bertrand – Pra não comprometer meus colegas, eu acho que um ator tem que estar onde o povo está.

Um Diretor?
Navarro – Win Wenders.
Bertrand – Edgard Navarro.

O Homem Que Não Dormia
Um filme?
Bertrand – Crueldade mortal (Luiz Paulino), têm que ver esse tipo de filme.
Navarro – Amarcord (Fellini) e Tão Longe, Tão Perto (Win Wenders)

Um prêmio que você ainda quer ganhar?
Bertrand – Um prêmio fora do âmbito nacional.
Navarro – Prêmios são sempre bem vindos. Mas, o grande prêmio que eu queria ganhar hoje não é no cinema, é na vida... Eu quero ser alegre.

Um prêmio que dispensa?
Bertrand – A gente não pode dispensar.
Navarro – Do CQC. (Top Five)

Edgard Navarro?
Bertrand – Edgard Navarro é um homem de uma sensibilidade muito especial. Um companheiro, um amigo e um cineasta como poucos.

Bertrand Duarte?
Navarro – Um ator como poucos, um amigo, um companheiro e uma pessoa de grande afinidade. Não é à toa que a gente é quase do mesmo dia de nascimento, eu dez anos mais velho do que ele.


Amanda Aouad

Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, especialista em Cinema pela UCSal e roteirista de Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Vira-latas. É ainda professora de audiovisual, tendo experiência como RTVC e assistente de direção. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e da Liga dos Blogues Cinematográficos.

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