24 de fev de 2013

Indomável Sonhadora

Indomável SonhadoraUm filme independente, mostrando um lado pobre dos Estados Unidos, com uma estética bem próxima do neorealismo italiano. Se não bastasse tudo isso para chamar a atenção do filme de Benh Zeitlin, Indomável Sonhadora tem a pequena Quvenzhané Wallis, que apenas com nove anos é indicada ao Oscar de Melhor Atriz.

Hushpuppy é uma menina órfã que vive com o pai em um barraco com condições precárias. Sua alimentação é pobre e come junto com os outros bichos, quase como eles. Desde muito cedo, Hushpuppy foi estimulada a animalizar-se, afinal esse mundo é mesmo dos fortes. E a pequena segue entre a dura realidade e seus sonhos fantasiosos, metáforas de bestas-javalis e uma mãe inexistente que lhe dá conselhos. Principalmente quando seu pai fica doente e uma enchente complica a situação onde vivem.

Indomável SonhadoraIndomável Sonhadora não tem um roteiro extremamente criativo, nem mesmo uma direção que inove qualquer linguagem. Mas, é um filme que toca por trazer uma poesia crua para a pobreza. Uma realidade que não se gosta de ver, que muitos preferem esconder, mas que se apresenta em cada canto escondido de qualquer país. É nisso que a fotografia é tão feliz ao nos mostrar os detalhes desse mundo de uma maneira bem delicada. A cena em que Hushpuppy está dentro de um caixote assustada com a tempestade, enquanto gotas caem do teto é muito boa.

Indomável SonhadoraMas, Benh Zeitlin não pretende fazer um filme denúncia, um tratado sobre a pobreza ou algo parecido. Ele e a roteirista Lucy Alibar não aprofundam a questão. A doença do pai é quase um detalhe, a ignorância que é continuar vivendo naquelas condições subumanas se recusando a aceitar a ajuda dos voluntários por exemplo, não é desenvolvida. É apenas mais um ato dentro da trajetória daqueles personagens, como o é a tempestade, a represa sendo derrubada ou o nascer e morrer de cada dia.

E em meio a tudo isso, a pequena Quvenzhané Wallis realmente impressiona. A carga dramática pelo qual passa a sua personagem é defendida com muita força. O olhar de tristeza da garota nos atinge profundamente. Sua capacidade de passar alegria, raiva e medo, modificando-as de uma maneira tão rápida, chama a atenção. Ela parece compreender tudo aquilo mais do que qualquer pessoa. Ainda que não tenha maturidade suficiente para entender.

Indomável SonhadoraPor outro lado, essa menina que vive nessas condições subumanas é capaz de sonhar. E a imaginação da pequena invade a tela sem nos pedir licença, porém sem nunca perder o viés realista da trama. Isso não deixa de ser interessante, pois não temos aqui uma nova Preciosa, mas uma garota em plena ebulição de emoções difusas que não consegue distinguir a realidade dura de sua fértil imaginação. Nisso, Indomável Sonhadora, apesar do título pobre em português, nos leva além e nos faz pensar em tudo aquilo.

Indomável Sonhadora é o primeiro longametragem de Benh Zeitlin, que já começa chamando a atenção pela força do tema e das imagens que nos proporciona. Não é, no entanto, um filme que encante as grandes massas. Tem um tempo próprio, uma estética própria e não faz questão de dialogar com outras escolas. Ainda assim, é envolvente e tem como grande destaque mesmo essa pequena grande atriz que parece que, apesar de ter aprendido a se animalizar, é a mais humana de todas as personagens da trama.


Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, 2012 / EUA)
Direção: Benh Zeitlin
Roteiro: Benh Zeitlin e Lucy Alibar
Com: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry e Levy Easterly
Duração: 93 min.


Amanda Aouad

Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, especialista em Cinema pela UCSal e roteirista de Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Vira-latas. É ainda professora de audiovisual, tendo experiência como RTVC e assistente de direção. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e da Liga dos Blogues Cinematográficos.

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