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Tropykaos - filme brasileiro

Desde que lançou o curta-metragem O Fim do Homem Cordial, Daniel Lisboa marcou o seu nome no cenário audiovisual baiano. Era de se esperar que o seu primeiro longa-metragem chamasse a atenção. Após passar pelos principais festivais do país, alguns com polêmicas, Tropykaos estreia no circuito comercial e acompanha a jornada de Guima, um jovem poeta que não suporta o calor da cidade e entra em parafuso porque seu ar-condicionado quebrou.

O filme flutua entre o real e o surreal ao exagerar os sintomas de Guima e ir construindo pistas do seu desfecho, seja por pequenas inserções do sol "roxo", seja pelos avisos da estranha "Igreja Solar". Na verdade, o sol que sufoca o poeta não é exatamente físico, mas metafórico. Um discurso infantil talvez da luta contra o sistema que seus colegas de bar bradam revoltados por ele ter se "vendido" ao esquema de editais. Mas que, através de imagens e sentimentos, Lisboa consegue nos envolver de maneira hábil.

Tropykaos - filme brasileiroNa verdade, esse é o grande problema de Guima, sua consciência dividida entre o mundo de onde veio e o mundo que escolheu. Nascido em uma classe alta, vide a casa de sua mãe, mas imerso em outra realidade: o lado B de Salvador, que não é vendido nos cartões postais nem nas propagandas turísticas. E é essa imagem do paraíso tropical que sufoca Guima em sua sensibilidade artística que talvez esteja em crise porque está escrevendo um livro sob encomenda. Por isso, não consegue terminá-lo.

Esse descontrole de sua consciência e luta interna contra as imagens que pulsa em nosso imaginário são passados com cenas diversas de Guima andando pelas ruas, como em uma sequência na praia, onde ele passa mal com uma roda de capoeira e uma exagerada baiana dando risadas. A maneira como Lisboa constrói o comparativo entre Guima e os baianos felizes dessas imagens é que abriram margem para as críticas de se tratar de um filme racista. Principalmente porque, ao dizer que não está geneticamente preparado para esta terra, o protagonista emite um juízo de valor sobre o fato.

O filme porém, dá indícios de que a intenção política ultrapassa a questão racial. Ao exagerar a metáfora solar com a aparição da dupla interpretada por Bertrand Duarte e Edgard Navarro coordenando uma exótica seita, Lisboa explicita o discurso, ainda que constitua uma quebra na narrativa, principalmente por ser demasiadamente alongada. Talvez uma inserção na televisão funcionasse, já que os indícios estavam lá. Do jeito que está, a participação dos dois ícones do cinema baiano soa como algo deslocado do que estávamos acompanhando até então da trajetória do protagonista.

De qualquer maneira, mesmo inconstante, o filme pulsa em seu próprio ritmo em tela. Seja pelas escolhas de Daniel Lisboa, seja pela ótima atuação do estreante Gabriel Pardal. Ainda que soe cansativo em muitos momentos, sabe fechar sua jornada com um clímax poético, forte e bem executado que fica soando em nossa mente por tudo que simboliza e dos elementos escolhidos. É uma grande cena, talvez uma das melhores e mais emblemáticas do cinema baiano desde que o personagem de Bertrand Duarte pulou do alto do Elevador Lacerda, em SuperOutro.


Tropykaos (Tropykaos, 2018 / Brasil)
Direção: Daniel Lisboa
Roteiro: Daniel Lisboa, Guilherme Sarmiento
Com: Gabriel Pardal, Manu Santiago, Dellani Lima, Fabrício Boliveira, Bertrand Duarte, Edgard Navarro
Duração: 82 min.

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