Home
Clint Eastwood
critica
drama
faroeste
Gene Hackman
Morgan Freeman
Richard Harris
Os Imperdoáveis
Os Imperdoáveis
Existe algo de quase confessional em Os Imperdoáveis. Não parece apenas um western tardio, nem somente uma revisão de gênero. É mais um acerto de contas. E não só de William Munny com seu passado, mas do próprio Clint Eastwood com a imagem que ajudou a moldar ao longo de sua carreira.
Eastwood passou muitos anos encarnando o pistoleiro mítico, aquele homem silencioso que resolve tudo com um olhar e um disparo. Aqui, ele desmonta essa figura peça por peça. Munny não é mais rápido, não é mais preciso, não é mais invencível. Ele erra tiros, cai do cavalo, sofre com a idade e, mais importante, carrega uma culpa que nunca foi romantizada. Essa escolha muda completamente o eixo do filme. O western deixa de ser fantasia e vira memória, quase um trauma revisitado.
A direção acompanha esse movimento com uma precisão impressionante. Eastwood filma o Velho Oeste sem qualquer glamour. A fotografia de tons terrosos e a luz natural reforçam uma sensação de desgaste, como se aquele mundo estivesse se decompondo diante dos nossos olhos. Não há heroísmo nos enquadramentos, apenas distância e desconforto. Mesmo as cenas de violência são tratadas sem espetáculo. Quando alguém é baleado, o que vemos não é catarse, mas agonia. E isso faz muita diferença.
O roteiro de David Webb Peoples é essencial nesse processo porque estrutura a narrativa em torno da ideia de mito versus realidade. O personagem de English Bob, por exemplo, funciona quase como uma piada interna sobre o próprio gênero. Ele representa o western contado pelos livros, pelas histórias exageradas. Já Little Bill, interpretado por Gene Hackman, desmonta esse mito com brutalidade, mas sem jamais se tornar um herói. Pelo contrário, ele é talvez o personagem mais perturbador do filme, justamente porque acredita estar fazendo o certo.
Hackman domina o filme sempre que aparece. Sua atuação é construída na base da contradição. Ele é carismático, até simpático em alguns momentos, mas profundamente violento e autoritário. Não existe um vilão clássico aqui. Existe alguém que acredita na própria versão de justiça, o que torna tudo mais incômodo.
Morgan Freeman, como Ned Logan, traz uma humanidade silenciosa que funciona como contraponto emocional. Ele não é um homem de grandes discursos, mas sua presença carrega peso. Quando o filme exige uma virada mais trágica, é através dele que sentimos o impacto.
Mas o coração do filme continua sendo Munny. E há um momento que sintetiza tudo o que Os Imperdoáveis quer dizer. A sequência final no saloon não é apenas um embate. É o colapso definitivo do mito. Quando Munny entra naquele espaço, não há música triunfal, não há coreografia estilizada. Há medo. Há raiva. E há uma violência seca, quase inevitável. Quando ele diz que já matou tudo que anda ou rasteja, não soa como bravata. Soa como condenação.
Esse momento redefine o faroeste porque retira dele qualquer ilusão de grandeza. A violência deixa de ser espetáculo e passa a ser consequência.
Ainda assim, em alguns momentos, o ritmo pode parecer arrastado, especialmente para quem espera uma narrativa mais tradicional do gênero. Há também uma certa didatização em trechos específicos, como se o filme quisesse reforçar demais sua tese sobre a natureza da violência. Mas esses pequenos excessos não comprometem o conjunto.
O que fica é a sensação de estar diante de um filme que entende profundamente o gênero ao qual pertence. E justamente por isso consegue desmontá-lo com tanta precisão. No fim, Os Imperdoáveis não é apenas um grande faroeste. É um filme sobre o fim do western. E talvez por isso continue tão poderoso. Porque, ao invés de celebrar lendas, ele prefere encarar o que sobra quando elas acabam.
Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992 / Estados Unidos)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Com: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris
Duração: 131 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Os Imperdoáveis
2026-06-29T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Clint Eastwood|critica|drama|faroeste|Gene Hackman|Morgan Freeman|Richard Harris|
Assinar:
Postar comentários (Atom)





