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Os Imperdoáveis

Os Imperdoáveis - filme

Existe algo de quase confessional em Os Imperdoáveis. Não parece apenas um western tardio, nem somente uma revisão de gênero. É mais um acerto de contas. E não só de William Munny com seu passado, mas do próprio Clint Eastwood com a imagem que ajudou a moldar ao longo de sua carreira.

Eastwood passou muitos anos encarnando o pistoleiro mítico, aquele homem silencioso que resolve tudo com um olhar e um disparo. Aqui, ele desmonta essa figura peça por peça. Munny não é mais rápido, não é mais preciso, não é mais invencível. Ele erra tiros, cai do cavalo, sofre com a idade e, mais importante, carrega uma culpa que nunca foi romantizada. Essa escolha muda completamente o eixo do filme. O western deixa de ser fantasia e vira memória, quase um trauma revisitado.

Os Imperdoáveis - filme
A direção acompanha esse movimento com uma precisão impressionante. Eastwood filma o Velho Oeste sem qualquer glamour. A fotografia de tons terrosos e a luz natural reforçam uma sensação de desgaste, como se aquele mundo estivesse se decompondo diante dos nossos olhos. Não há heroísmo nos enquadramentos, apenas distância e desconforto. Mesmo as cenas de violência são tratadas sem espetáculo. Quando alguém é baleado, o que vemos não é catarse, mas agonia. E isso faz muita diferença.

O roteiro de David Webb Peoples é essencial nesse processo porque estrutura a narrativa em torno da ideia de mito versus realidade. O personagem de English Bob, por exemplo, funciona quase como uma piada interna sobre o próprio gênero. Ele representa o western contado pelos livros, pelas histórias exageradas. Já Little Bill, interpretado por Gene Hackman, desmonta esse mito com brutalidade, mas sem jamais se tornar um herói. Pelo contrário, ele é talvez o personagem mais perturbador do filme, justamente porque acredita estar fazendo o certo.

Hackman domina o filme sempre que aparece. Sua atuação é construída na base da contradição. Ele é carismático, até simpático em alguns momentos, mas profundamente violento e autoritário. Não existe um vilão clássico aqui. Existe alguém que acredita na própria versão de justiça, o que torna tudo mais incômodo.

Os Imperdoáveis - filme
Morgan Freeman
, como Ned Logan, traz uma humanidade silenciosa que funciona como contraponto emocional. Ele não é um homem de grandes discursos, mas sua presença carrega peso. Quando o filme exige uma virada mais trágica, é através dele que sentimos o impacto.

Mas o coração do filme continua sendo Munny. E há um momento que sintetiza tudo o que Os Imperdoáveis quer dizer. A sequência final no saloon não é apenas um embate. É o colapso definitivo do mito. Quando Munny entra naquele espaço, não há música triunfal, não há coreografia estilizada. Há medo. Há raiva. E há uma violência seca, quase inevitável. Quando ele diz que já matou tudo que anda ou rasteja, não soa como bravata. Soa como condenação.

Esse momento redefine o faroeste porque retira dele qualquer ilusão de grandeza. A violência deixa de ser espetáculo e passa a ser consequência.

Ainda assim, em alguns momentos, o ritmo pode parecer arrastado, especialmente para quem espera uma narrativa mais tradicional do gênero. Há também uma certa didatização em trechos específicos, como se o filme quisesse reforçar demais sua tese sobre a natureza da violência. Mas esses pequenos excessos não comprometem o conjunto.

O que fica é a sensação de estar diante de um filme que entende profundamente o gênero ao qual pertence. E justamente por isso consegue desmontá-lo com tanta precisão. No fim, Os Imperdoáveis não é apenas um grande faroeste. É um filme sobre o fim do western. E talvez por isso continue tão poderoso. Porque, ao invés de celebrar lendas, ele prefere encarar o que sobra quando elas acabam.


Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992 / Estados Unidos)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Com: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris
Duração: 131 min.

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