sexta-feira, 19 de março de 2010

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Aconteceu em Woodstock

Aconteceu em WoodstockLeve, foi essa a sensação com a qual sai do filme de Ang Lee sobre o lendário Festival de Woodstock. Na verdade, não é exatamente sobre o festival, mas sobre o responsável por levar à pequena cidade de Bethel Estado no estado de NY que a narrativa irá se debruçar para tentar passar um pouco da sensação de liberdade daquele momento único. Baseado no livro Taking Woodstock: A True Story of a Riot, A Concert, and A Life, autobiográfico de Elliot Tiber, a história irá mostrar a transformação daquele lugar esquecido com os ganhos e perdas para aquela família antes falida. Engraçado que o filme ensaia falar um pouco da população local, mas acaba esquecendo-a completamente na segunda parte do filme.

Elliot Tiber, vivido pelo comediante Demetri Martin, é um decorador que tenta a sorte em Nova York até que resolve voltar para sua cidade natal na tentativa de ajudar seus pais a saldar uma promissória que lhes tirará a casa e sustento, já que esta é também uma pousada decadente. Aproveitando-se do fato de ser responsável pela Câmara de Comércio da cidade, tem a idéia de trazer o festival de música que havia sido expulso de uma cidade vizinha por causa da insatisfação da população com a possível invasão hippie. Ele só não tinha noção de que mais de 500 mil pessoas iriam tornar sua cidade em um estado de calamidade pública.

O roteiro de James Schamus, como falei, até ensaia falar dessa calamidade e da revolta dos locais com Elliot, mas acaba esquecendo-a e concentrando na revolução pessoal de Elliot e seus pais. Imelda Staunton e Henry Goodman merecem aqui um destaque especial por suas interpretações do casal judeu que vê suas vidas transformadas com aquelas pessoas estranhas, vivenciando experiências novas, mas sem deixar de se preocupar com o filho. Outra caracterização impressionante é a de Jonathan Groff que encarna a tranquilidade e visual do produtor Michael Lang de uma forma impressionante. E ambos, personagem e persona inspiradora, me lembram muito Treat Williams em Hair e o estereótipo do "hippie cuca fresca".

A sempre elogiada fotografia de Eric Gautier nos conduz sempre à Elliot, nunca focando o festival, o que acho acertado, apelando muitas vezes para a já usada tela dividida, que busca dar conta de todas as instâncias daquele caos organizado. Algo, no entanto, fica faltando, seja no roteiro, na direção ou na fotografia para tornar a experiência realmente sublime. O filme não atinge o objetivo de construir um protagonista para aquela história, que é na verdade do fenômeno histórico e não de uma pessoa em particular. Por vezes, se perde em algumas experiências tolas de auto-descoberta, sem se aprofundar exatamente na construção desta. Afinal, Elliot se mostra um personagem raso, um recorte de várias sensações sem nexo. Há algumas cenas em que a catarse é pretendida, mas não se consuma exatamente pela falta dessa profundidade, como no momento em que encontra a mãe deitada no armário com os dólares ou na cena da boate.

Ainda assim, a experiência é sensitiva. Algo no clima e nas imagens que Ang Lee constrói como conjunto fílmico no leva para aquele espaço de transgressão, mesmo que esquecendo as questões políticas não abordadas no filme. Isso me fez sair leve. Com vontade de cantar e vivenciar algo parecido, coisa que é, infelizmente, impossível.

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quinta-feira, 18 de março de 2010

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Moda e cinema na Sala de Arte

Versão em Preto e Branco, de Fabíola FreireComeça amanhã o Imagem Fashion - Semana de Arte e Moda de Salvador. Uma iniciativa do Circuito Sala de Arte que irá reunir estudantes universitários, profissionais de moda, educadores, empresários, profissionais de cinema e a classe artística em geral para exposições, debates, exibição de filmes, bate-papo e, como o release define, um mercado moderno. A idéia surgiu da ausência de um evento que reunisse todos esses elementos, falando de moda e de cinema, fotografia, pintura, design e pensamento explorando o intercâmbio produtivo de todas as áreas.

Diversos nomes estarão presentes, entre eles o baiano Cao Albuquerque, figurinista de renome da Rede Globo e filmes como Grande Família, Irma VAP e Romance. Além de debates, exposições e exibições de filme, a programação traz ainda Oficinas de Moda e Maquiagem, que mostram na prática como trabalhar com Planejamento e produção de figurino e maquiagem e Fotografia e imagem de moda.

O evento conta com o apoio financeiro do Governo da Bahia através do Fundo de Cultura e também com o apoio institucional do Shopping Paralela, da Unijorge e da UFBA/PAC.

Quando: 19 a 27 de março de 2010
Onde: Saladearte Cine Vivo, Saladearte Cinema da UFBA, Unijorge e Shopping Paralela
Informações: 71 3237-9681

PROGRAMAÇÃO   

19/03 – SEXTA-FEIRA
ABERTURA
LOCAL: Shopping Paralela
BATE-PAPO COM CONVIDADO: Cao Albuquerque – figurinista

Dolls, filme de Takeshi Kitano

MOSTRA 7X7
EXIBIÇÃO DO FILME: Dolls
LOCAL: Cinema da UFBA
HORÁRIO: 18:30h

ABERTURA DA EXPOSIÇÃO DE CAO ALBUQUERQUE
LOCAL: Shopping Paralela

ABERTURA DA EXPOSIÇÃO 10 ESTILISTAS BAIANOS
LOCAL: Shopping Paralela

20/03 – SÁBADO
Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci

ABERTURA DA EXPOSIÇÃO DE FABÍOLA FREIRE
LOCAL: SALADEARTE DA UFBA

MOSTRA 7X7
EXIBIÇÃO DO FILME: Beleza Roubada
LOCAL: Cinema da UFBA
HORÁRIO: 18:30h

AULA-SHOW DE MAQUIAGEM
LOCAL: Shopping Paralela
HORÁRIO: 17h30

21/03 – DOMINGO
MOSTRA 7X7
EXIBIÇÃO DO FILME: A Pantera Cor de Rosa
LOCAL: Cinema da UFBA
HORÁRIO: 18:30h

22/03 – SEGUNDA-FEIRA
OFICINA DE MODA 1
TEMA: Planejamento e produção de figurino e maquiagem
LOCAL: Unijorge
HORÁRIO: 14h – 17h
OFICINEIROS Alam Félix

MOSTRA 7X7 E BATE-PAPO
EXIBIÇÃO DO FILME: Bonequinha de Luxo
LOCAL: Cinema da UFBA
HORÁRIO: 18:30h
TEMA DA MESA: Elegância, feminilidade e sofisticação num pretinho básico. O cinema e a moda como vendedores de sonho
PALESTRANTES: Diogenes Costa/Phaedra Brasil
MEDIADOR: Marcus Vinicius de Souza

MOSTRA CAO ALBUQUERQUE
LOCAL: Shopping Paralela – Cinema UCI Orient
HORÁRIO:11h
EXIBIÇÃO DO FILME: Romance
ENTRADA FRANCA

23/03 – TERÇA-FEIRA
OFICINA DE MODA 1 (Continuação)

MOSTRA 7X7 E BATE-PAPO
EXIBIÇÃO DO FILME: A Regra do Jogo
LOCAL: Cinema da UFBA
HORÁRIO: 18:30h
TEMA DA MESA: Channel, a moda e o cinema. A alta costura nas grandes telas
PALESTRANTES: Jonga/Maurício Portela
MEDIADORA: Carina Silveira

MOSTRA CAO ALBUQUERQUE
LOCAL: Shopping Paralela – Cinema UCI Orient
HORÁRIO: 11h
EXIBIÇÃO DO FILME: Auto da Compadecida
ENTRADA FRANCA

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quarta-feira, 17 de março de 2010

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A Fita Branca

"O medo é a trilha para o lado negro. O medo leva à raiva. E a raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento." Quando mestre Yoda disse isso para Anakin Skywalker ele estava prevendo o futuro de um dos maiores vilões da ficção científica. Alguns dizem que a Saga de George Lucas é uma analogia ao nazismo. Fantasia ou realidade, o âmago do que aconteceu ao povo alemão para que aceitasse um líder como Hitler e disseminasse a idéia de raça pura e anti-semitismo com tanta força ainda é um mistério. Experiências até tentaram compreender, como o retratado no filme A Onda. Agora, saber mesmo é mais complicado.

E é assim que a gente fica após assistir A Fita Branca. Há muitas perguntas e poucas respostas. O narrador já havia dito no início que não tinha certeza de que tudo que irá narrar é verdade. Aliás, há tempos não via um filme onde a voz over fosse tão bem utilizada e necessária ao roteiro. É através dela que fazemos as associações que Michael Haneke quer passar: a origem do nazismo, ou como o narrador diz "quem sabe, eles poderiam esclarecer algumas coisas que ocorreram neste país." A verdade é que faz parte da filmografia do diretor expor a crueldade humana até o seu limite. E o mais tenso é demonstrar essa crueldade em crianças.

Ao escolher filmar em preto e branco, Michael Haneke e Christian Berger conseguiram acentuar ainda mais o tom obscuro da trama. Os contrastes são grandes, negro é denso, branco é brilhante. As cenas ficam mais intensas e fortes, apesar de sentir falta de cores quando o pastor pergunta por exemplo ao filho porque ele ficou ruborizado ao falar de determinado assunto. Em contra-partida, o objeto do título "a fita branca" fica bem visível no contraste. O significado dela é metafórico. O pastor da vila amarrava uma fita branca nos filhos para deixá-los longe dos pecados, um símbolo de pureza. Era uma espécie de rito de passagem tirar a fita, significava que a criança tinha amadurecido e já sabia discernir as coisas.

As interpretações são assustadoramente fortes, principalmente do suspeito grupo de crianças.  Na dor, no disfarce, no medo, na dissimulação, na confissão. Cada personagem é tensamente construído como todo o resto, na sutilidade e nos detalhes. Um olhar, um pequeno gesto, uma frase não terminada. A Fita Branca é daqueles filmes que nos tiram do conforto e nos obrigam a refletir.

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terça-feira, 16 de março de 2010

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Vem aí o In-Edit Brasil 2010

In-Edit Brasil 2010 Para quem gosta de documentário musical e mora em São Paulo ou Rio de Janeiro, uma boa notícia. Começa quinta-feira, dia 18/03, a segunda edição brasileira do In-Edit, festival já tradicional na Espanha. Música e documentário juntos em mais de 70 filmes nacionais e internacionais, dos quais 60 são inéditos no circuito comercial.

O festival acontece em São Paulo de 18 a 28 março nas salas do MIS, Cine Olido, CineSESC, HSBC Belas Artes, Matilha Cultural, Auditório Ibirapuera e Instituto Cervantes. E no Rio de Janeiro entre os dias 02 a 08/04 em dimensões reduzidas. Com muitas sessões gratuitas, o festival vai exibir documentários diversificados com temas como Seu Jorge, Naná Vasconcelos, Bezerra da Silva, Tom Zé, Dzi Croquetes, Lenine, Bill Withers, Johnny Cash, Anvil, Led Zeppelin, White Stripes, Filarmônica de Berlim, entre outros, além de apresentações musicais exclusivas e debates com diretores, jornalistas, músicos e produtores.

O festival tem uma mostra competitiva no Panorama Brasileiro, em que seis longas serão votados pelo público e o vencedor ingressa no circuito In-Edit de festivais pelo mundo. Uma ótima vitrine, além de uma oportunidade para conhecer bons filmes em primeira mão. São eles:

Beyond IpanemaBeyond Ipanema
(Guto Barra, Brasil-EUA, 2009, 89’)
Qual é o som do Brasil no exterior? Beyond Ipanema reúne artistas brasileiros e internacionais para analisar o impacto da música brasileira no mundo. Um intercâmbio de estilos musicais que tem ajudado o Brasil a garantir uma posição única na cultura global.





Mamonas AssassinasMamonas para Sempre – O Doc.
(Claudio Kahns, Brasil, 2009, 90’)
Em menos de 10 meses, a banda Mamonas Assassinas saiu do anonimato e se tornou um dos maiores fenômenos da música brasileira. Irreverentes, inteligentes, sarcásticos e criativos, o grupo pegou o Brasil desprevenido e vendeu dois milhões de cópias de seu único disco. Este documentário mostra material inédito da banda e depoimentos de parentes, amigos, produtores e músicos para recontar a trajetória do grupo, os desafios, a ascensão e o trágico acidente que matou todos os seus integrantes em 1996.

Bezerra da SilvaBezerra da Silva – Onde a Coruja Dorme
(Márcia Derraik e Simplício Neto, Brasil, 2010, 72’)
O cantor Bezerra da Silva se tornou uma estrela nacional nos anos 80, durante a chamada “explosão do pagode”. Classificada inicialmente pela crítica como "sambandido", sua música encantou o público brasileiro com crônicas cáusticas e extremamente bem-humoradas sobre o cotidiano das favelas. No entanto, o que poucos sabem é o segredo do sucesso de Bezerra da Silva: sua equipe de compositores - pedreiros, trocadores de ônibus, carteiros, técnicos de refrigeração e biscateiros em geral. Trabalhadores anônimos que cantam como ninguém o universo da malandragem carioca. Sambistas genuínos, escolhidos a dedo por Bezerra.

Dzi CroquettesDzi Croquettes
(Tatiana Issa e Raphael Alvarez, Brasil, 2009. 110’)
A trajetória do irreverente grupo de dança carioca Dzi Croquettes, que marcou o cenário artístico brasileiro nos anos 70. O grupo contestava a ditadura por meio do deboche e da ironia e defendia a quebra de tabus sociais e sexuais. É lembrado por depoimentos de artistas e amigos como Liza Minnelli, Ron Lewis, Gilberto Gil, Nelson Motta, Ney Matogrosso, Betty Faria, Miéle, Jorge Fernando, Cláudia Raia, Pedro Cardoso e Norma Bengell, entre outros.
Prêmio de melhor documentário no Festival do Rio 2009, na 33ª Mostra Internacional de Cinema (São Paulo, 2009) e no Festival Mix Brasil 2009.

ClaudiaMeu Amigo Claudia
(Dácio Pinheiro, Brasil, 2009, 86’)
Documentário sobre Claudia Wonder, o travesti que rompeu preconceitos aparecendo nas páginas culturais de jornais e revistas. Com participações em produções de cinema erótico, famosas performances no Madame Satã e cantando punk rock marcou presença na cena dos anos 80. Mesmo com tudo isso, Claudia Wonder não deixa de ter envolvimento no campo intelectual e político, tornando-se uma importante representante do governo nas organizações de assistência e proteção aos homossexuais.
Melhor documentário no Festival Mix Brasil 2009, ao lado de DZI Croquettes.


Seu JorgeSeu Jorge – América Brasil, o documentário
(Pedro Jorge e Mariana Jorge, Brasil, 2009, 103’)
Não é sempre que vemos um artista tocar as estrelas, mas em 2008 Seu Jorge chegou perto disso. Emplacou três hits no topo das paradas, fez várias participações em projetos interessantes e realizou a turnê de seus sonhos: cruzar o Brasil por terra tocando nas principais capitais.
"Seu Jorge – América Brasil, o documentário" perfaz todo esse caminho de maneira natural e espontânea. Um road movie que acompanha o músico desde seu processo criativo até sua plenitude, no palco.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

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Orquestra dos meninos

Murilo Rosa em Orquestra dos MeninosQuase esquecido por público e crítica, Paulo Thiago construiu mais que um filme ao homenagear o maestro Mozart Vieira, servindo como uma oportunidade de corrigir uma grande injustiça. Músico do interior de Pernambuco que sonhou em criar uma orquestra com meninos do agreste, foi perseguido por forças políticas e quase teve seu projeto de vida destruído ao ser acusado de abuso de menores.

O filme está longe de ser uma obra-prima, é verdade, mas a história tem uma força tão grande que você termina a projeção embevecido. É possível fazer o nosso sonho acontecer. Em situação adversa, Mozart conseguiu construir uma orquestra de sucesso, quando ninguém mais acreditou ser possível. Mais do que isso, os créditos finais mostrando que todos os meninos vivem hoje de música é um sopro de esperança de dias melhores. Afinal, quem é capaz de viver de seus próprios sonhos? Todos os dias somos puxados pela realidade que nos obriga a trabalhar e pagar as contas, deixando os desejos, as paixões em segundo plano. É o medo que nos impede de mergulhar de cabeça em projetos próprios que nos trariam mais satisfação. Mozart não teve esse medo. Saiu de sua posição confortável e lutou pelo impossível, dando um rumo na vida de pessoas que jamais sonhariam em oportunidades parecidas.

Orquestra dos MeninosVoltando ao filme em si, há falhas técnicas diversas. O roteiro não é tão bem amarrado, oscilando por vezes, em um melodrama caricatural, tornando o drama menos denso do que poderia. Muitas cenas soam de forma artificial e algumas interpretações ficam aquém do esperado. Peca ainda, no final, ao colocar um noticiário e depoimentos de Ivan Lins e Geraldo Azevedo em uma tentativa sem sentido de mostrar que aquilo é real. Porém, há uma coerência e uma sensibilidade em mostrar a história de vida daqueles meninos sofridos, a forma como eles vão aprendendo a tocar os instrumentos, a dedicação e o amor a música, as primeiras apresentações. É possível se envolver e se emocionar com várias cenas. Destaque para a apresentação em frente à prefeitura após a confusão.

Murilo Rosa está muito bem no papel principal e Priscila Fantin também convence em sua atuação se esquecermos que é a atriz global conhecida. O rótulo é tão forte que, por vezes, fica impossível comprar a idéia de que ela é uma adolescente nordestina, semi-analfabeta. De qualquer maneira é uma história de inspiração. Filmes assim deveriam estar sendo feitos em maior escala. Em vez de incentivar a população a reclamar e sofrer com situações de miséria, mostrar bons exemplos de caminhos e possibilidades para ir além e vencer na vida. Por que não?

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sábado, 13 de março de 2010

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Grandes Cenas: A escolha de Sofia (com spoilers)

A Escolha de Sofia

Já que pela décima quarta vez, Meryl Streep perdeu um Oscar, resolvi lembrar aqui a última estatueta ganha por essa excelente atriz. A escolha de Sophia é um filme complexo. Mistura o sofrimento da guerra, do campo de concentração, com simples prazeres da vida, como tomar vinho, passear no parque com os amigos, e problemas psicológicos graves. Fala de muita coisa, mas o que fica para nós é a maldita escolha. A possibilidade de escolha é a grande questão da nossa existência humana. Afinal, se somos capazes de escolher, temos que arcar com nossas responsabilidades. Mesmo a escolha de se abster é uma escolha e pode nos carregar de culpa, por não ter feito nada. A escolha infringida a Sofia foi tão forte que a expressão se transformou em símbolo de escolha impossível. E o mais notável é que só lhe deram míseros cinquenta e cinco segundos. Todo o filme é notável, a interpretação de Meryl Streep é fenomenal em cada momento, seja sorrindo, dançando, chorando na beira da escada, apanhando do namorado, mentindo, confessando, aprendendo a falar inglês e tudo mais que a vemos fazer. Mas, nada é tão forte e significativo quanto o momento da escolha. E esta é a grande cena que fica em nossa memória.

ATENÇÃO, SE VOCÊ NÃO VIU O FILME E QUER SE SURPREENDER, NÃO LEIA O RESTO.

Somos avisados no título de que Sofia vai fazer uma escolha, mas não nos explicam qual é essa escolha. Durante duas horas e quinze minutos somos induzidos a entender que ela deverá escolher entre seu namorado Nathan e seu vizinho Stingo. Só no apagar das luzes vem a revelação. Sua escolha é muito mais profunda do que um simples romance. Quem deve viver? Seu filho de dez anos ou sua filha de oito? Quem você irá mandar para câmara de gás e quem terá uma chance naquele campo insólito? Qual a mãe conseguiria responder? Mas, se não respondesse, Sofia veria os dois serem exterminados. Não seria justo salvar ao menos um? Nem muito tempo há para pensar. Do instante em que o nazista fala "você pode ficar com uma" até o momento em que ele diz "levem as duas crianças", se passam exatos cinquenta e cinco segundos. A decisão que irá torturar a mente de Sofia para o resto de sua vida, não leva um minuto. E ela grita, quase inconsolável, "leve o meu bebê, leve a minha garotinha". A tensão psicológica é imensa, não há como não se emocionar.

Engraçado que já estamos quase no final do filme, já sabemos que a menina foi para a caldeira e que o menino poderia estar vivo, sendo criado por uma família alemã. A revelação ali era apenas que foi Sofia a responsável pelos dois destinos. Então, sem a expectativa da resposta, podemos nos concentrar no sofrimento daquela mulher. Na expressão que Meryl Streep consegue construir em cada gesto e na frieza de seu opositor.

Percebam o enquadramento escolhido por Alan J. Pakula. Ele coloca o nazista de baixo para cima, na penumbra e Sofia de cima para baixo com a luz estourada em sua face. Ele, no conforto de sua superioridade e escondido pela sombra. Ela, submissa e totalmente exposta. O plano é fechado em ambos os casos. A tensão está no olhar, nos pequenos gestos. Ele chega falando de sua beleza e do seu desejo. Brinca com seu desespero ao falar as palavras de Jesus. Tudo dá ainda mais raiva daquele homem sem sentimentos.

A Escolha de Sofia

Outro detalhe que dá força à cena é o fato de a menina estar no colo da mãe e o menino ao seu lado, agarrado as suas pernas. Então, vemos a garotinha que irá morrer (já sabemos disso, lembrem) e suas expressões de medo. A força dramática disso é ainda maior. O menino só é mostrado no momento em que o nazista manda levar os dois. Aí ele chora agarrado à mãe e ela grita para levarem a menina que sai chorando muito. A cena dela se afastando se contrasta com o rosto de Meryl Streep no ápice da dor, nenhum som ela consegue soltar.

Se tem uma cena emblemática de dor, é essa. Infelizmente não encontrei-a no Youtube com legendas em português, apenas em inglês e mesmo assim sem possibilidade de incorporar ao blog. Cliquem aqui para vê-la. E se você não domina a língua inglesa, abaixo o diálogo completo.

A Escolha de Sofia

Comandante Hoess:
Você é tão bonita...
Gostaria de ir para cama contigo.
Você é polaca?
Você! É também uma dessas comunistas sujas?

Sofia:
Eu sou polonesa!
Nasci na Cracóvia! Não sou judia. Tampouco meus filhos!
Não são judeus.
São arianos puros.
Eu sou católica.
Sou católica devota.

Comandante Hoess:
Não é comunista?
É religiosa?

Sofia:
Sim, senhor.
Eu creio em Cristo.

Comandante Hoess:
Então, crê em Cristo... o redentor?

Sofia:
Sim!

Comandante Hoess:
E Ele não disse... "Que sofram as criancinhas... para que possam vir a Mim"?
Poderá ficar com um de seus filhos.

Sofia:
Perdão?

Comandante Hoess:
Poderá ficar só com um de seus filhos.
Um terá de morrer.

Sofia:
Diz que terei de escolher?

Comandante Hoess:
É polaca, não uma judia.
Isso lhe dá um certo privilégio, o da escolha.

Sofia:
Eu não posso escolher!
Eu não posso escolher!

Comandante Hoess:
Quieta.

Sofia:
Não posso escolher!

Comandante Hoess:
Escolha! Ou mandarei ambos para lá!
Faça a escolha!


Sofia:
Não me faça escolher!
Não posso!

Comandante Hoess:
Mandarei ambos para lá.
Cale- se! Basta!
Eu disse para se calar.
Faça a escolha.


Sofia:
Não me faça escolher!
Eu não posso!

Comandante Hoess:
Mandarei ambos para lá.

Sofia:
Não posso escolher!

Comandante Hoess:
Leve as duas crianças embora! Mexa-se!

Sofia:
Leve minha filhinha!
Leve meu bebê!
Leve minha garotinha!

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sexta-feira, 12 de março de 2010

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Leonardo Di Caprio, um rebelde com causa

Leonardo DiCaprio Hoje estreia A Ilha do Medo, o esperado novo longa de Martin Scorsese que traz a volta do diretor ao suspense psicológico. A confirmação da parceria com Leonardo DiCaprio que começou em Gangues de Nova Iorque, faz pensar sobre a carreira deste ator tão estigmatizado com o personagem Jack de Titanic. E pensar que em seu primeiro trabalho (O despertar de um homem), Robert de Niro havia profetizado que ele seria um dos melhores atores do mundo. Tal qual Brad Pitt, ele escolheu papéis e tentou fugir da imagem de galã. Porém, diferente do Sr. Jolie, o rapaz parece carregar uma cruz de ídolo adolescente. O que não deixa de ser uma injustiça, já que talento ele já demonstrou ter.

Assim, resolvi resgatar aqui suas principais interpretações, não necessariamente os melhores filmes, em ordem cronológica. Apenas para mostrar que nem sempre de galã (aliás, acho que Jack e Romeu foram os únicos) vive Leonardo DiCaprio.

Filmes de Leonardo DiCaprio

Gilbert Grape - Aprendiz de sonhador - O astro do filme é outro, também pouco convencional que começou como galã de uma série de televisão e transformou-se em estrela dos filmes de Tim Burton. Estou falando, claro de Johnny Depp. Ele é Gilbert Grape. Mas, quis lembrar este filme como uma forma de mostrar que Leonardo DiCaprio, antes de ser um galã adolescente, já era um menino prodígio. Como o autista Arnie, ele imprime uma emoção incrível, chamando a atenção e marcando seu nome no cinema. Ganhou sua primeira indicação ao Oscar como ator coadjuvante.

As filhas de Marvin - Aqui outro papel de garoto problemático, após o marco Diário de um adolescente. DiCaprio é Hank, filho de uma mulher que retorna à antiga casa para cuidar da irmã doente e do pai moribundo. Ao lado de duas grandes atrizes, Meryl Streep e Diane Keaton, DiCaprio consegue se destacar em sua interpretação, apesar de já chamar a atenção por seu rosto bonito, principalmente por seu papel anterior: Romeu na nova versão do clássico de Shakespeare.

Prenda-me se for capaz - Em 2002, dá a grande guinada em sua carreira. Interpretando o lendário falsário Frank Abagnale Jr. no filme de Steven Spielberg, Leonardo DiCaprio entra para o hall de grandes atores de Hollywood. Logo depois ele foi chamado por Martin Scorsese para estrelar o filme Gangues de Nova York junto a Daniel Day Lewis.

O Aviador - Apesar da estreia com o diretor ter sido badalada, seu grande papel foi mesmo Howard Hughes. Não é um dos melhores filmes de Scorsese, mas, com ele, chegou mais perto de uma estatueta do Oscar. Leonardo DiCaprio se entregou de corpo e alma ao personagem, atingindo um resultado que impressiona em todos os aspectos, menos na maquiagem. O tempo parece não ter passado para o rapaz durante toda a projeção.

Diamante de Sangue - Danny Archer é um ex-mercenário nascido no Zimbábue que se dedica a contrabandear diamantes para a Libéria. Ao ouvir dizer na cadeia que seu companheiro de cela Solomon, esconde um grande diamante, resolve fazer um trato. Segunda indicação ao Oscar, aqui DiCaprio consegue sua interpretação mais madura, com grande força de expressão dramática.

Os Infiltrados - Um policial infiltrado na máfia, um mafioso infiltrado na polícia. DiCaprio e Matt Damon fazem um jogo psicológico impressionante neste filme de Scorsese. Aqui, o astro já não é mais visto como um rosto bonito, mas sim, um dos atores preferidos de um dos melhores diretores de todos os tempos. Isso facilita a crítica, mas aumenta a cobrança. Falta a DiCaprio ainda a superação. O prêmio. O papel acima de qualquer suspeita. A torcida é para que em a Ilha do Medo ele consiga o grande feito.


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quinta-feira, 11 de março de 2010

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Onde vivem os monstros?

Max e o monstro Carol Depois de anos tentando adaptar Where The Wild Things Are, livro de Maurice Sendak publicado em 1963, Hollywood consegue levar as telas, pelas mãos de Spike Jonze, a história do pequeno Max. Engraçado, que apesar de ter se tornado uma cultuada história infantil, a narrativa parece muito mais voltada para adultos, com muitos elementos psicológicos por trás da trama.

Max é um garoto de 8 anos que ainda não passou da sua fase egocêntrica. Tudo tem que ser do jeito dele, na hora que ele quer. Assim, desentende-se com sua irmã e sua mãe, fugindo de casa e indo parar em uma ilha especial onde é o rei da situação. Os habitantes locais, monstros bem fofos e perigosos, aceitam Max como seu governante e tudo que ele quer é uma ordem. Mas, os sentimentos são sempre muito confusos.

Cartaz de Onde Vivem os MonstrosA atmosfera lembra muito outro clássico infantil: História sem Fim. Na verdade, tudo ali é metafórico. A ilha é apenas a simbologia do interior do garoto, com seus monstros internos, sentimentos contraditórios e confrontações sofridas. É uma jornada de crescimento, do fim da primeira infância, onde a criança aprende que existem os outros e têm que respeitar limites.

A direção de arte é muito bem feita e a trilha sonora é bela, trazendo sensações diversas, principalmente nas situações de embate. A atmosfera é sempre estranha, bem ao estilo de Spike Jonze, mas com uma sensibilidade peculiar. A cena do abraço coletivo também é bem legal, assim como o uivo no final. No geral, apenas acho que faltou ritmo ao filme. Há muitos momentos parados, repetitivos, como a eterna briga dos dois monstros e um terreno muito insólito na descoberta do garoto. A fábula podia ser melhor explorada também, para agradar a todos. É um bom filme, porém difícil, nem todos vão se apaixonar.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

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Um homem sério

Michael Stuhlbarg em Um Homem SérioQual o sentido da vida? Sua visão é determinista ou você acredita que suas ações movem o mundo e tudo é uma questão de causa e efeito? Se é assim, o que você fez para merecer as malezas que lhe ocorrem? São essas perguntas que movem toda a construção do filme Um homem sério e por que não dizer toda a obra de Joel Coen e Ethan Coen. Os conhecidos irmãos Coen compõem suas carreiras com muito sarcasmo, tramas e diálogos insólitos e reflexões sobre a natureza humana. Há quem ame e quem odeie.

Larry Gopnik é o típico cidadão americano. Professor de Física, casado, com dois filhos, certinho e judeu. De repente, sua vida começa a desmoronar, afinal, sua esposa quer se separar para casar com um viúvo amigo da família, seu aluno coreano quer suborná-lo, seu filho fuma maconha e briga por dinheiro com a irmã fútil que por sua vez roubou do próprio pai, seu vizinho está invadindo seu terreno e seu irmão doente está com problemas com a polícia. Para completar, ele tem algum problema de saúde não definido. Com tudo isso, Larry recorre aos seus guias espirituais para tentar entender o porquê de tudo aquilo. Mas, existem coisas que simplesmente não tem explicação e vamos sendo apresentados aos poucos a sucessão de incertezas e vulnerabilidades da vida.

Um Homem SérioMichael Stuhlbarg dá ao seu Larry uma apatia e incompreensão incríveis, a gente fica perdido junto com o personagem tentando entender o que aquele filme quer nos passar. A graça é essa, ao contrário do que quer provar o professor de Física de que tudo é lógica, a vida não segue esse rumo tão preciso e somos surpreendidos com incongruências a todo o momento. O cartaz do filme mesmo foi bastante feliz ao colocar Larry em cima do telhado olhando a vizinhança (ou melhor a vizinha). A sensação é essa, que o personagem está tentando se dissociar da realidade para tentar entendê-la. Aí vem uma força da natureza e bagunça tudo. O destino está sempre pregando uma peça em nós.

Apesar de se passar nos anos 60, a trama é bastante atual e faz uma crítica direta à sociedade americana e a crise econômica. Mesmo utilizando o judaísmo como metáfora, não se deve ver o filme como uma crítica à religião, mas sim à tradição daquela comunidade. Toda a construção do roteiro, direção e montagem é para misturar os conceitos de causa e efeito, com sequências em paralelo que nos parecem relacionadas, mas dão viradas surpreendentes, como dois acidentes de carro, sonhos de Larry ou situações de pai e filho. É um filme para ser digerido aos poucos, como tudo que seus realizadores fazem.

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terça-feira, 9 de março de 2010

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Idas e Vindas do Amor

Idas e Vindas do AmorTodos os anos temos comédias românticas explorando o Dia dos Namorados ou simples histórias de princesas. Idas e Vindas do Amor vai ainda mais além, sendo uma espécie de cópia de Simplesmente Amor, filme inglês bem simpático, que por sua vez usa a mesma fórmula de Corações Apaixonados que de todos tem o melhor roteiro por cruzar as situações aos poucos.

Histórias paralelas que podem ter uma relação ou não, caminhando para um esperado final feliz. O grande trunfo do filme de Gary Marshall é o elenco. Não é todo dia que se reúne em um mesmo projeto: Ashton Kutcher, Kathy Bates, Anne Hathaway, Jamie Foxx, Jessica Alba, Jessica Biel, Bradley Cooper, Shirley MacLaine, Patrick Dempsey, Topher Grace, Queen Latifah, Taylor Swift, Taylor Lautner, George Lopez, Eric Dane, Hector Elizondo, Jennifer Garner, Emma Roberts e Julia Roberts. O roteiro de Katherine Fugate, no entanto, não ousa muito, tornando as ligações previsíveis. A única exceção ficou por conta do desfecho do personagem de Bradley Cooper.

São dez histórias, algumas bobas, outras engraçadas, uma Sessão da Tarde divertida, diria assim. Mas, fraca diante do que poderia ser. Há cenas ótimas como a do restaurante, ou o repórter entrevistando o casal de adolescentes, mas outras ridículas como a do garoto nu com o violão ou Anne Hathaway em suas peripécias ao telefone. As situações também são um pouco inverossímeis, ou sei lá, é tradição americana passear no cemitério no Dia dos Namorados?

Ashton Kutcher e Jennifer GarnerNo elenco, "McDreamy" Patrick Dempsey continua sendo médico e mulherengo. Ashton Kutcher faz um florista abobalhado, Anne Hathaway uma atendente de disque-sexo, Jessica Alba completamente sem sentido e Júlia Roberts faz uma capitã do exército com uma personalidade pouco definida. Entre outros estereótipos, Jennifer Garner é o único respiro, com uma personagem um pouco mais trabalhada, ainda assim, nada de grande destaque.

É aquele tipo de coisa, não se pode exigir de um filme mais do que ele possa dar. É uma comédia romântica, sem compromisso, feita para divertir casais apaixonados. E cumpre seu papel, apesar de não trazer nenhuma novidade para o gênero.

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segunda-feira, 8 de março de 2010

12

Quebra de tabu em noite de Oscar, viva ao dia da mulher

Kathryn Bigelow no Oscar 2010 Já passava da meia-noite no Kodak Theatre, quando Barbra Streisand anunciou a quebra de um tabu. Coincidência ou não, em pleno dia internacional da mulher, pela primeira vez uma representante do sexo feminino vence o Oscar de melhor direção. E não foi só isso. O filme de Kathryn Bigelow levou seis estatuetas das nove que concorria, tornando-se o grande vencedor da noite. Achei justo. No geral, Guerra ao Terror se mostrou um excelente filme, com uma tensão incrível, boas interpretações, enquadramentos e jogos de câmeras fantásticos e uma narrativa que nos prende. Não que eu ache Avatar um filme ruim, que fique claro. Impressiona, é um grande feito cinematográfico, mas tinha dois filmes melhores que ele na disputa. O grande injustiçado, mais uma vez, foi Tarantino. Gênio incompreendido que ficou sem nenhuma estatueta. Bastardos só subiu ao palco representado pelo já esperado melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz. Eu daria o melhor roteiro para o filme.

No geral, a cerimônia foi morna, poucas surpresas como o melhor curta de animação para Logorama e o Oscar de filme estrangeiro para O Segredo dos seus olhos, filme Argentino que desbancou o favorito absoluto A Fita Branca. Achei ótimo vir mais um Oscar para América Latina. Nossos hermanos estão com um cinema cada vez mais consistente, que o Brasil se inspire. Steve Martin e Alec Baldwin fizeram ótimas piadas e divertiam o público, mas no geral, as apresentações foram maçantes, repetindo o "Arquivo Confidencial" no anúncio dos Oscars de melhor atriz e ator. Teve uma bela homenagem aos que já foram, com  James Taylor cantando "In my life" dos Beatles. E um especial para os filmes de Terror, pegando desde Nosferatu a... Crepúsculo (?), passando por clássicos como O Iluminado, O Exorcista, Tubarão e Sexta-Feira 13. Mas, o momento mais marcante para quem viveu os anos 80 foi a homenagem a John Hughes. Diretor, produtor e roteirista que nos presenteou com clássicos juvenis como Curtindo a vida adoidado, Garota nota 1000, O clube dos cinco, A garota de rosa Shocking.

Sandra Bullock no Oscar 2010Os quatro atores premiados, apenas confirmaram seu favoritismo. Destaque para Sandra Bulock que teve uma emoção dupla, já que no sábado ela tinha levado o Framboesa de Ouro por sua atuação em Maluca Paixão e ironizou que alguém tivesse visto o filme. A primeira reação da atriz ao ser anunciada vencedora do Oscar foi de abraçar a concorrente Meryl Streep, mas foi quase jogada por esta no palco. Mostrando-se humilde em seu discurso, Sandra perguntou se eles não tinham errado e agradeceu a todos, inclusive a sua amante Meryl Streep, fazendo uma referência ao beijo que deu na atriz quando dividiram o prêmio do Sindicato.

Mo'nique no Oscar 2010Apesar de ter vencido o prêmio do Sindicato dos Roteiristas e estar cotado entre os favoritos, só não gostei mesmo foi do Oscar de roteiro adaptado para Preciosa, o argumento é bom, mas o roteiro não tem nada demais. Gostei de ver ainda Star Trek ser lembrado pelo menos em maquiagem. E adorei Up ter vencido em melhor trilha sonora, que é mesmo emocionante, apesar de continuar não achando que ele é a melhor animação de todos os tempos. Torci pela causa perdida do Sr. Raposo. O que mais gostei na premiação de melhor filme de animação foi a apresentação. Colocaram os personagem como se estivessem dando entrevistas sobre o prêmio. Muito bom.

A vitória de Guerra ao Terror mostra que tecnologia não é tudo no cinema. Claro que o 3D está aí para encher nossos olhos e levar novos adeptos à sala de projeção, mas a arte cinematográfica é um conjunto de técnicas que não podem estar desequilibradas. Isso faz pensar sobre o futuro do meio e talvez, possar frear um pouco essa onda em terceira dimensão que invadiu os estúdios. Ainda há espaço para um bom filme em 2D. Outra lição fica para os distribuidores brasileiros, que em uma miopia incrível tinham lançado Guerra ao Terror direto no DVD e tiveram que fazer um relançamento às pressas no cinema. Prova de que prêmio pode não mudar a opinião do espectador, mas é uma boa ferramenta de marketing junto a propaganda boca-a-boca.

Ah, e coloquei apenas fotos das mulheres vencedoras da noite em homenagem ao nosso dia. Feliz Dia da Mulher para todas.

Confiram a lista completa dos vencedores:
Melhor Filme: Guerra ao Terror
Melhor Diretor: Kathryn Bigelow
Melhor Atriz: Sandra Bullock
Melhor Ator: Jeff Bridges
Ator Coadjuvante: Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)
Melhor Atriz Coadjuvante: Mo'Nique (Preciosa)
Melhor Montagem: Guerra ao Terror
Melhor roteiro original: Guerra ao Terror (Mark Boal)
Melhor Roteiro Adaptado: Preciosa (Geoffrey Fletcher e Ramona Lofton)
Melhor Fotografia: "Avatar"
Melhor animação: UP – Altas Aventuras
Melhor filme estrangeiro: O Segredo dos seus olhos
Melhor Documentário: The Cove
Melhor canção original: "The Weary Kind" (Crazy Heart)
Melhor Trilha Sonora: Up - Altas Aventuras
Melhor curta metragem animação: Logorama
Melhor curta metragem documentário: Music by Prudence
Melhor curta metragem: The New Tenants
Melhor maquiagem: Star Trek
Melhor Direção de Arte: Avatar
Melhor Figurino: A Jovem Victoria
Melhor Mixagem de Som: Guerra ao Terror
Melhor Edição de Som: Guerra ao Terror
Melhor Efeitos Visuais: Avatar

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sábado, 6 de março de 2010

3

O que esperar do Oscar

Em sua 82ª Edição, o Oscar tenta inovar, indicando dez candidatos a melhor filme, e pretende trazer de volta o glamour que o ano anterior deixou de lado devido à "crise". O esforço é grande e a briga está forte entre alguns concorrentes, mas no geral, há coisas bem previsíveis à nossa espera. Aqui vai um resumo e palpite sobre as principais categorias, por falta de espaço, não falarei de todos os canditados, confira a lista completa aqui.


Melhor Filme:

Apesar de dez concorrerem, três tem alguma chance de levar, onde dois são apostas precisas: Guerra ao Terror ou Avatar? Se Bastardos Inglórios levar, é surpresa, mas não é tão improvável quanto qualquer um dos outros sete concorrentes. De certa forma, três filmes de guerra, cada um com seu estilo próprio e com algo a acrescentar à história do cinema. Bastardos Inglórios não inova, aliás bebe na fonte dos clássicos do velho oeste, com a linguagem já registrada de Tarantino. Mas, é uma aula de cinema, por isso, merece o título. Avatar traz uma grande inovação tecnológica, uma nova forma de filmar em 3D, um jogo de imagens ímpar que conseguiu até mesmo colocar legenda nas projeções dos filmes neste formato. A história, apesar de parecida com muitas, é bem contada, tornando o filme um clássico moderno desde seu nascimento. Já Guerra ao Terror é a surpresa da tensão realista com um ritmo eletrizante na montagem. Tudo é detalhadamente calculado para que fiquemos roendo as unhas na cadeira. A briga é boa, e amanhã a gente confere.
Favorito: Avatar
Pode Ganhar: Guerra ao Terror
Torcida CinePipocaCult: Bastardos Inglórios

Melhor Diretor
O diretor é o nome principal de uma obra cinematográfica, ele é o chefe da equipe, então, seu trabalho é fundamental para o resultado deste. Nada mais natural então, que os melhores filmes apresentem também os melhores diretores do ano. Então, aqui novamente, temos os três encabeçando as apostas. James Cameron é o sonhador, que mergulha de cabeça em seu sonho e vai buscá-lo. Blockbuster assumido, revolucionou o cinema de ficção científica ao trazer o Exterminador do Futuro 2 e parece "fadado" a grandes bilheterias. Quentin Tarantino é o gênio incompreendido. Um moleque brincando de fazer cinema, tachado de violento, mas que conhece a técnica com a qual brinca de uma maneira impressionante. Qualquer cinéfilo que se preze tira o chapéu para esse homem que até hoje só teve um Oscar, com o roteiro de Pulp Fiction. Kathryn Bigelow tem uma vantagem e desvantagem ao mesmo tempo: é mulher. Vencendo, ela quebra o tabu na categoria, mas, principalmente, entra para história do cinema. Antes de Guerra ao Terror seu maior destaque foi ser esposa de James Cameron. K-19, Tempestade no Mar ou Estranhos Prazeres nunca tiveram grandes repercussões.
Favorito: Kathryn Bigelow
Pode Ganhar: James Cameron
Torcida CinePipocaCult: Kathryn Bigelow

Melhor Ator
Quando a gente pensa na categoria melhor ator e melhor atriz, sempre vem em mente grandes interpretações, de tirar o fôlego com cenas de catarse. Nem sempre é assim. Às vezes, a melhor interpretação é aquela que passa naturalidade simplesmente. Você acredita estar vendo o personagem e não um ator interpretando um personagem. Esse ano, as indicações são boas e variadas, mas dificilmente alguém tira a estatueta das mãos de Jeff Bridges. Sua interpretação como o cantor country e alcoólatra que busca uma reabilitação foi a chance de coroar, merecidamente, uma carreira sólida. Outro forte concorrente é Jeremy Renner, quase desconhecido, ele traz tanta realidade para o sargento James de Guerra ao Terror que não me surpreenderia se ele subisse ao palco no dia 07. Já George Clooney e Morgan Freeman têm seu fãs clubes próprios. O astro sedutor de Amor sem Escalas está muito bem no papel e chegou a ser cotado como favorito, mas não chega a ser uma interpretação fantástica. Já Freeman conseguiu uma caracterização excepcional do líder Mandela, mas também não brilha ao ponto de levar a estatueta.
Favorito: Jeff Bridges
Pode Ganhar: Jeremy Renner
Torcida CinePipocaCult: Jeremy Renner

Melhor Atriz
Esta categoria é sempre uma aposta difícil, já fomos surpreendidos com várias surpresas não muito agradáveis. Este ano estamos entre duas estrelas distintas: Meryl Streep e Sandra Bullock. A verdade é que nenhuma das cinco indicações teve uma interpretação de tirar o fôlego. Mas, Streep e Bullock venceram as principais premiações do ano e uma das duas deve levar a estatueta. Carey Mulligan ganhou fôlego após a vitória no BAFTA, mas um prêmio inglês para uma inglesa é compreensível. Gabourey Sidibe chegou como uma novidade na categoria, mas sua Preciosa apesar de bem defendida é pouco para analisar até que ponto ela é uma grande atriz ou não. Apesar de estar em sua décima sexta indicação, não acredito que Meryl Streep leve, finalmente, seu terceiro Oscar. Sua interpretação da cozinheira Júlia não é das melhores de sua carreira e os holofotes estão todos em Sandra Bulock, a eterna atriz de comédias românticas que teve sua grande chance como a socialite Leigh Anne Tuohy, e soube defender bem o papel, provavelmente a academia vai recompensá-la.
Favorito: Sandra Bulock
Pode Ganhar: Meryl Streep
Torcida CinePipocaCult: Meryl Streep

Melhor Ator Coadjuvante
Esta é uma categoria praticamente unânime. Não conheço uma só pessoa que não concorde que Christoph Waltz leve, merecidamente o Oscar de ator coadjuvante. Ele é a alma do filme, interpretando Hans Landa tornou Bastardos Inglórios ainda melhor de ser visto. Todas as outras interpretações ficam secundárias, apesar de ter gostado de ver Stanley Tucci em um papel diferente.
Favorito: Christoph Waltz
Pode Ganhar: Woody Harrelson
Torcida CinePipocaCult: Christoph Waltz

Melhor Atriz Coadjuvante
Outra categoria sem surpresas. A comediante Mo’Nique deve levar o prêmio em uma categoria das mais tranquilas da noite. Todas as outras concorrentes me deixam um pouco preocupada, será que não haviam melhores indicações? Anna Kendrick e Vera Farmiga estão bem em Amor sem Escalas, mas continuo sem entender o que viram tanto nesse filme. Já Penélope Cruz é uma das piores coisas de Nine, no próprio filme você encontra interpretações melhores. Maggie Gyllenhaal, por sua vez, estava esquecida em outras premiações e surgiu no Oscar como zebra da vez, uma boa atriz, mas sem muito destaque no filme.
Favorito: Mo’Nique
Pode Ganhar: ???
Torcida CinePipocaCult: Mo’Nique

Melhor Roteiro Original
O que é um melhor roteiro? Normalmente é aquele que você não percebe na tela, afinal, a função do filme é fazer com que você entre naquele universo sem ser lembrado a todo momento que está assistindo a uma obra fictícia. A economia narrativa, os pontos de virada, a preparação para o clímax, tudo tem que ser estudado com muita técnica, assim como os diálogos, uma arte a parte que poucos conseguem escrever sem ser artificial. Por isso, a classe briga tanto com diretores que insistem em querer roteirizar seus filmes. Mas, claro, há exceções. Se tem uma coisa que Tarantino já provou é que é um bom roteirista. Todos os seus filmes têm uma capacidade ímpar de contar histórias e com Bastardos Inglórios não é diferente. A forma como as histórias se cruzam, as sátiras ao nazismo, as brincadeiras com as línguas e o jeito alemão de ser. Sem dúvidas é quem merece o prêmio, mas não será nenhuma surpresa se vencer Guerra ao Terror. O filme está mais cotado e tem crescido nas apostas. É um bom roteiro também, sem dúvidas, bem dosado, com uma curva dramática crescente, mas perde em minha humilde opinião em alguns pequenos deslizes para Bastardos. Ainda assim, são dois grandes roteiros e merecem qualquer premiação. E só para não dizer que não falei dos outros, destaco aqui a obra dos irmãos Coen que trouxeram sua marca registrada em O Homem Sério.
Favorito: Bastardos Inglórios
Pode Ganhar: Guerra ao Terror
Torcida CinePipocaCult: Bastardos Inglórios

Melhor Roteiro Adaptado
Apesar de ser uma adaptação de uma outra obra qualquer (livro, teatro, HQ), o roteiro adaptado precisa passar pelo mesmo processo de um original. A comparação é sempre inevitável para os fãs do original, mas a idéia aqui é analisar como a história foi contada para um meio específico: uma projeção cinematográfica. Agora, dos cinco indicados, apenas Amor sem Escalas me parece um bom roteiro. Apesar de Preciosa ter levado o prêmio do sindicato de roteiristas, acho uma construção fraca, o forte do filme é mesmo as interpretações e o argumento. Já Distrito 9, teve uma tentativa interessante de simular uma reportagem de televisão, mas acabou se perdendo no meio. Educação, por sua vez, já comentei que não vejo grande novidades. O que me encantou em Amor sem Escalas foi a capacidade de brincar com os clichês e lugar comum, construindo uma história envolvente desde a primeira cena. Tudo ali é bem amarrado e faz completo sentido.
Favorito: Amor Sem Escalas
Pode Ganhar: Preciosa
Torcida CinePipocaCult: Amor Sem Escalas

Melhor longa em animação
Outra categoria quase certa. Apesar de ser o primeiro ano em que a categoria tem cinco indicados e que todos eles são excelentes produções, Up - Altas aventuras é a animação da vez. A Pixar em parceria com a Disney criou uma jornada diferente que foca suas emoções em relações humanas. A primeira parte do filme é esplêndida, o amor entre Carl Fredricksen e sua esposa é lindo. A entrada do pequeno Russell também é muito interessante, criando uma relação avô-neto linda. Tudo desanda ao meu ver com a entrada do vilão e seus cachorros falantes, o que era uma inovação incrível virou o maior dos clichês. Por isso eu prefiro todos os outros quatro filmes da categoria, apesar de compreender a qualidade técnica do filme e que é o favorito absoluto, tendo inclusive uma indicação na categoria principal. O Fantástico Sr. Raposo aparece como segundo colocado nas apostas, e é uma boa fábula, repleta de surpresas, gosto bastante. Fico feliz também em ver uma produção como Coraline não ser esquecida. Comemoro a volta dos clássicos Disney com A Princesa e o sapo. E vibro com a lembrança a uma produção franco-belga como O Segredo de Kells, a grande surpresa do ano para mim, adorei a experiência.
Favorito: UP - Altas Aventuras
Pode Ganhar: O Fantástico Sr. Raposo
Torcida CinePipocaCult: O Fantástico Sr. Raposo

Melhor filme estrangeiro
Uma categoria para que o resto do mundo não se sinta fora da festa, o melhor filme estrangeiro é sempre uma escolha delicada. Primeiro, porque o júri é outro, mais tradicional, antigo, depois porque as produções estrangeiras chegam sempre com maior dificuldade por aqui. Em Salvador só passou o peruano A Teta Assustada e agora está em cartaz A Fita Branca. Nem o argentino O Segredo dos seus olhos chegou por aqui. Então, fica complicado uma avaliação mais profunda. Fico apenas com as críticas e apostas de que o alemão é mesmo o franco favorito, com uma pequena ameaça do argentino. O filme de Michael Haneke é muito bom e tem ainda ao seu favor o tema: nazismo sempre é bem visto pelo júri de filme estrangeiro.
Favorito: A Fita Branca
Pode Ganhar: O Segredo dos seus olhos
Torcida CinePipocaCult: O Segredo dos seus olhos

Por último, gostaria de incluir aqui o curta-metragem em animação espanhol que, apesar de não ser o favorito na categoria, tem um roteiro e uma produção muito interessante, prendendo a nossa atenção.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

8

Por que tanto barulho por Guerra ao Terror?

Guerra ao TerrorUm filme independente foi lançado, poucos apostaram nele, quase não houve divulgação. A miopia foi tanta que os distribuidores brasileiros acharam que não valia a pena gastar cartucho com ele e lançaram diretamente no DVD. De repente, esse filme começa a ganhar a mídia, finalista de vários prêmios, vencedor de alguns, incluindo o recente BAFTA onde levou melhor filme, direção e roteiro. Chegou ainda ao Oscar com nove indicações e dividindo os holofotes com uma super produção de 500 milhões que já era esperada há anos. Parece conto de fadas, a menina pobre que conhece o príncipe e vira uma princesa, mas a verdade é que por trás de tudo isso, encontra-se um filme tenso, muito bem dirigido, com um roteiro inteligentíssimo e, por que não, inovador.

Guerra ao Terror Não é só com efeitos especiais que se inova no cinema. A forma de contar a história é essencial nesse processo e Kathryn Bigelow conseguiu aquilo que Neill Blomkamp tentou em Distrito 9, levar a linguagem do documentário para a ficção. A câmera na mão, efeitos sonoros todos intra-diegéticos, linguagem realista e ritmo narrativo real. Há elipses, claro, em documentários também, mas a construção das cenas nos dão uma sensação de documentação do dia a dia daqueles soldados. A edição, no entanto, é rápida, picotada, não deixando que a narrativa fique monótona. Não há uma grande trama, uma jornada a ser seguida. O filme conta a rotina de desarmadores de bomba no Iraque. Sem pontos de vistas privilegiados, sem vangloriar os Estados Unidos, nem mesmo o estado de guerra. Há apenas a tese defendida de que a adrenalina da batalha vicia. E quem um dia irá dizer que não há razão nisso?

A tensão é constante, porque a sensação é real. O plot point do filme é uma explosão, aos nove minutos de projeção, com a morte do que aparentava ser o protagonista. O impacto é forte. Desde então, ficamos suspensos em nossa atenção, com a eminência de outra explosão. Mesmo quando aparentemente a tensão acaba, fica uma dúvida, "será que agora tá seguro?" É assim em uma das cenas mais complexas do filme, quando James tenta desarmar várias bombas dentro de um carro. Mesmo depois dele ter achado o dispositivo, Kathryn Bigelow nos dá vários planos-detalhes que mantêm a tensão, como se algo ainda não tivesse terminado.

Aliás, o filme está repleto de planos detalhes, de big closes e câmeras subjetivas que só aumentam a tensão da situação. E mesmo com a explosão do início, a tensão consegue ser crescente. Por incrível que pareça, a tensão só cai um pouco em uma sequência de tiros, mesmo assim, a construção continua mantendo o suspense e após uma descarga forte, o clima volta a ficar o mesmo.

Anthony Mackie em Guerra ao Terror Em alguns momentos, o roteiro de Mark Boal apela para o melodrama, é uma forma, provavelmente, de humanizar um pouco mais a situação, precisamos nos afeiçoar ao personagem para sentir sua dor. É assim com o garoto iraquiano ou com um soldado mais novo que fala de sua certeza que vai morrer. Interessante perceber que ele fala da morte eminente enquanto joga um video-game de tiro. Mesmo em plena guerra, com toda aquela adrenalina, sua diversão é dar tiros na tela. Há uma bela crítica aí. Assim como na necessidade de adrenalina do sargento James, vivido muito bem por Jeremy Renner. Ele não se contenta em desarmar bombas. Ele arrisca mesmo quando seus superiores mandam parar, ele resolve pegar as luvas esquecidas no meio do teste de explosões, ele quer ficar quando todos sonham em ir embora. Seu embate com o sargento TJ (Anthony Mackie) é um ponto extra em toda a história, que a faz andar. Mesmo que não haja aqui, vilões ou mocinhos.

Por tudo isso, Guerra ao Terror está tão bem cotado, e provavelmente leva algumas estatuetas para casa. Eu torço para que seja o de direção, que ainda quebra o tabu de mulheres vencendo na categoria.

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quinta-feira, 4 de março de 2010

3

O Fantástico Sr. Raposo

George Clooney é um pai de família dividido entre suas responsabilidades e o prazer que sentia em seu antigo ofício: roubar. Meryl Streep é uma dona de casa perfeita que cobra a presença do marido em sua função. O filho deles tem problemas existenciais e quer conquistar o respeito do pai, mas vê a comparação com um primo distante afastá-lo ainda mais. Acrescentando a isso a direção de Wes Anderson e um elenco que conta ainda com Bill Murray, Anjelica Huston, entre outros, poderíamos ter um drama como tantos por aí. Mas, trata-se de um animação em stop-motion com um estilo bem peculiar e onde os protagonistas são: raposas, por isso é tão interessante. 

O Fantástico Sr. RaposoO Fantástico Sr. Raposo é baseado na fábula Raposas e Fazendeiros, de Roald Dahl, mas em uma versão bem surreal que inclui na trilha sonora músicas de Rolling Stones a Beach Boys. A atmosfera é excêntrica com um tom bem artesanal que, por vezes, parece artificial. Ainda assim, é bem construído, explorando planos e ângulos que só o formato permite.

O Sr. Raposo é um ladrão de galinhas, mas tão astuto e admirado por seu povo que não tem como não torcer por ele. No fundo, apesar de toda aquela pose, casa, emprego (ele escreve uma coluna de jornal) e uma vida civilizada, sua essência animal urge pela aventura e ele não resiste a mais uma missão. Acontece que irritar os fazendeiros Boque, Bunco e Bino pode não ser uma boa opção.

O grande mote do filme é ir de encontro a sua própria natureza, sem conformismos ou rotina, além de falar em relações humanas, principalmente de pai e filho. É engraçado a tendência que temos de personificar os animais à nossa semelhança. Mas, não deixa de ser uma boa metáfora. O Sr. Raposo diverte e faz pensar, agradando muito mais aos adultos do que às crianças em si, apesar de algumas cenas pastelão e sequências rápidas que tanto atraem o público. Há algo mais naquela família, naquela história, que uma criança provavelmente deixará passar despercebida.

Sr. Raposo e família

Após conferir os cinco indicados a melhor animação do Oscar, fico feliz em perceber que temos tão boas produções na categoria, com características diferentes e peculiares, incluindo diversos público-alvos. Vale a pena comparar todos os estilos. Em Salvador, você ainda pode conferir o longa Sr. Raposo no Circuito Sala de Arte.

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quarta-feira, 3 de março de 2010

6

Um olhar do paraíso

Cartaz de Um Olhar do ParaísoUm Olhar do Paraíso é uma adaptação do livro de Alice Sebold, Uma Vida Interrompida – Lembranças de um Anjo Assassinado lançado em 2002. O título original The Lovely Bones (Restos Angelicais) é sutil na metáfora não apenas daquela menina ingênua, como nos laços que une e separa sua família após a tragédia. Mas tudo o que o filme de Peter Jackson não é, é sutil. Não que eu ache isso ruim, tem muita coisa boa no filme, mas também tem muita coisa ruim. No equilíbrio, um filme que poderia ser maravilhoso se torna apenas mediano e a tensão das interpretações, aliada à fotografia e direção de arte acabam se destacando.

Em dezembro de 1973, Susie Salmon está voltando do colégio quando é abordada por um vizinho e é assassinada. Começa, então, narrativas paralelas, Susie em uma espécie de intermédio entre o céu e a terra, sua família corroída pela dor à procura de respostas para o que aconteceu e seu assassino deliciando-se com o ocorrido e já preparando o novo ataque. A montagem é extremamente feliz ao dar uma dimensão exata desses paralelos, principalmente na primeira parte do filme, antes da menina ser assassinada, criando uma tensão e suspense bem dosados. Mas, já aí começam os problemas, ao insistir em uma narrativa em off de Susie nos antecipando muitas coisas. Há um jogo interessante, como na primeira aparição do assassino, que apenas os espectadores mais atentos verão, mas há também a entrega muito fácil de todo o ocorrido e uma explicação excessiva quase didática do que o roteiro queria passar.

Saoirse Ronan em seu paraíso particular

O mundo intermediário, formado por elementos da vida de Susie, é belo, bem construído e grandioso, bem ao estilo do diretor. E a sobreposição de imagens é muito bem feita, dando uma dimensão exata dos sentimentos da menina que observa sua família daquele lugar estranho. A premissa desse estágio é bem parecida com Amor Além da Vida, tendo os efeitos visuais e sonoros os principais ajudantes na composição. Mas, o clichê dos filmes espiritualistas norte-americanos me incomodam um pouco. Isso, no entanto, é um comentário bem pessoal. Sei que muitos podem adorar.

Stanley Tucci em Um Olhar do Paraíso O clima de suspense e drama, no entanto, vai caindo após o crime em si, chegando a uma sequência lamentável com uma deslocada Susan Sarandon em um clipe absurdo em meio a toda aquela situação. Prefiro esquecer esses dez minutos de filme. Já Mark Wahlberg me surpreendeu em diversos momentos, conseguindo uma boa dramaticidade no sofrimento daquele pai obstinado, achei que ele nunca conseguiria passar emoção. Saoirse Ronan também está bem, trazendo verdade em seus momentos tensos. Mas, o filme é mesmo de Stanley Tucci. A indicação ao Oscar é mais do que merecida. Ele consegue dosar bem o seu perturbado George Harvey, dando total veracidade aos seus atos insanos e a frieza ao ser confrontado pela polícia e pelo pai aflito.

E como a curva dramática vai caindo em vez de subindo, o final é algo de lamentável. Vários detalhes quase destroem a história, que não irei exemplificar aqui para não perder o sentido, mas são diversos pontos apelativos, irreais ou mesmo clichês que culminam no desfecho final totalmente apático. É uma pena, pois tudo poderia ser grandioso e muito melhor. Ainda assim, é um bom filme, nos faz pensar e constrói sensações intensas em sua apreciação. Devo confessar que chorei, tive medo, fiquei revoltada e tensa, em diversos momentos, só isso já vale a experiência fílmica.

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terça-feira, 2 de março de 2010

3

Coraline e o mundo secreto

Coraline e a meia-porta Em tempos de tecnologia totalmente 3D, só o fato de um longa em stop-motion feito à mão se destacar já é fantástico. Henry Selick, que já tinha chamado a atenção pelo Fantástico Mundo de Jack, consegue se aprimorar na direção e roteiro de Coraline e o Mundo Secreto, criando um filme incrível. Os efeitos visuais, a trilha sonora, os detalhes, a direção de arte, o roteiro, tudo se encaixa de uma maneira muito boa. Fico lamentando não ter ido ao cinema conferir a versão em 3D, mas mesmo me contentando com a versão em DVD não pude deixar de me impressionar.

Coraline é uma fábula adaptada do livro de Neil Gaiman que lembra um pouco Alice e O labirinto do Fauno. Ao se mudar com a família para um velho casarão, Coraline começa a explorar a estranha vizinhança e conhece um garoto que lhe dá uma boneca de pano que é a sua cara. Cansada de pedir a atenção dos pais, workaholics convictos, ela descobre uma realidade paralela ao atravessar uma meia-porta (não pude deixar de lembrar de Quero ser John Malkovich) que encontra na sala. Nesta, todos os personagens estão modificados e tem a peculiaridade de terem botões em vez de olhos, mas Coraline não se preocupa, pois ali tudo que sempre sonhou acontece.

Cartaz de Coraline e o mundo secretoMesclando drama com comédia, o longa diverte e faz refletir, além de ser assustador em alguns momentos. Não apenas as crianças vão ficar tensas em alguns momentos. A magia é o que predomina em cena. Com uma direção de arte primorosa, o filme nos envolve em sensações, a começar pelo túnel que leva Coraline ao seu mundo secreto. A animação psicodélica pretende atrair as crianças, então, não reclame de ratinhos saltitantes, gato falante (olha a referência a Alice), tramóias mirabolantes e desfecho previsível. Mesmo mantendo a tradição do gênero, Coraline não chega a apelar para clichês muitos óbvios, mesmo na construção do vilão. Aliás, a progressiva revelação do perigo é muito bem realizada.

Somos tentados a acreditar em sonhos perfeitos, reclamamos de nossa realidade e não percebemos que precisamos de pouco para sermos felizes. Ainda mais em nossa infância, onde o mundo é uma descoberta. Coraline traduz isso de uma forma esplêndida e nisto reside seu sucesso. Uma bela fábula, sem dúvidas, para todas as idades. Tentei colocar o trailer no fim deste post, como faço sempre, mas se vocês preferem as surpresas não assistam. O trailer conta o filme todo. Assistam este making off, é muito melhor.

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