29/08/2010

À procura da felicidade

Will SmithThe American Dream: conceito que prega que os Estados Unidos é a terra das oportunidades. Qualquer pessoa, independente de classe, cor ou credo com perseverança e trabalhando duro pode alcançar o sucesso e subir na vida. Milhares de filmes, até mesmo desenho animado, já propagaram essa idéia e fizeram o resto do mundo sonhar em viver na América. Por que, então, o filme do diretor italiano Gabriele Muccino tocou tão fundo a todos, a ponto de À Procura da Felicidade figurar como a maior nota no IMDB de todos os tempos? Primeiro porque, por mais surrada que seja, a idéia de correr atrás dos seus sonhos e realizá-los é um ânimo a mais para nossa labuta diária. Segundo porque o roteiro de Steven Conrad não é uma idéia original, mas baseada na vida de Chris Gardner, um homem que conseguiu virar uma lenda no mercado de ações.

Chris Gardner era um homem sem sorte que apostou todas as suas economias em um invento estranho, um scanner médico de última geração. Comprou todas as unidades de uma fábrica e tentou revendê-las de porta em porta, ou melhor, de consultório em consultório. Como ele mesmo define, um scanner vendido paga as contas do mês. Nessa corda bamba, onde os médicos insistem em considerar o objeto um luxo, Chris tem que cuidar de seu filho Christopher e de sua mulher Linda, que está cansada de tantas incertezas. É quando Chris começa a observar os executivos da bolsa de valores e define aquilo como felicidade. Começa, então, sua luta para se tornar um deles e uma sucessão de azares que faz sua mulher o abandonar, ser despejado várias vezes e até ter que dormir um dia em um banheiro de uma estação de metrô.

Will SmithE o mais interessante é que não fica exagerado demais, a sucessão de acontecimentos é crível, não apenas porque sabemos que é baseado em uma história real. Inclusive, com uma pesquisa no Google é possível perceber que Steven Conrad floreou um pouco a trajetória de Chris, exagerando em alguns momentos e omitindo alguns outros detalhes para fazer do personagem o herói perfeito. Totalmente incompreendido pela mulher que o abandona em um momento decisivo, Chris passa noites em claro estudando, faz jornada dupla e ainda tem tempo para levar o filho para passear nos fins de semana. Com um estágio não remunerado na Dean Witter, Chris tem que passar pela seleção que após seis meses contratará um candidato entre 20 estagiários.

Will Smith, indicado ao Oscar por esse papel, consegue uma interpretação emocionante desse pai dedicado e homem obstinado. Nos envolvemos com o sonho de Chris e torcemos para que ele consiga, principalmente pelos entraves que encontra pelo caminho, desde a mulher, passando pelos locatários das casas, até o instrutor que o faz de boy muitas vezes. O pequeno Jaden Smith, seu filho com a atriz Jada Pinkett, já demonstra o talento que se comprova em Karatê Kid. Sua atuação é bastante natural, sem afetações típicas de crianças nessa idade. Claro que atuar com o próprio pai deve ter ajudado. Thandie Newton está bem também como Linda, a ex-esposa de Chris, mas sua personagem é uma das mais injustiçadas no roteiro.

À Procura da FelicidadeBuscando exagerar na identificação com o protagonista, o roteiro fecha o enquadramento neste e nos torna um pouco cegos. Não há a oportunidade de entender a personagem Linda e seus dramas com aquele marido sonhador, ela é quase uma vilã que abandonou o barco. Assim também é como acabamos sendo levados a ver os cobradores de Chris, que não compreendem que ele está falido. Mas, não nos é mostrado o drama dessas pessoas, o taxista que levou calote também deve ter contas a pagar, assim como o dono da casa onde a família mora, sem falar no amigo que lhe deve 14 dólares. Outra coisa estranha é a capacidade que Chris tem de sempre se bater com os transeuntes que roubaram um scanner seu.

Mas, nada disso tira o mérito e o brilho da história, nem do filme. Muito bem dirigido, com fotografia bem cuidada sempre privilegiando o drama do protagonista, À Procura da Felicidade é daqueles dramas envolventes que nos passam a idéia de que a vida tem um sentido maior e que devemos buscar os nossos sonhos. O próprio protagonista em uma cena diz a seu filho que nunca deixe ninguém dizer o que ele não pode fazer. Nem mesmo ele. Se temos um sonho devemos buscá-lo. É essa certeza que nos impulsiona a viver. Por isso, o filme nos toca tão profundamente. Quem não tem um sonho guardado em algum lugar dentro de si?

Uma curiosidade, o verdadeiro Chris Gardner aparece no filme. Na cena final, ele cruza com Will Smith e seu filho. O ator ainda olha para trás sorrindo e acompanhando os passos do empresário, dando a dica para platéia.


6 opiniões:

Cristiano Contreiras disse...

Um belo, tocante e intenso filme mesmo. Engraçado que quando vi me perguntava se teria a mesma perseverança do personagem de Will Smith. Mas, serve como bom aprendizado e reflexão posterior.

Bom seu texto, Amanda. Um dos maiores e melhores seus.

Beijo

29 de agosto de 2010 22:48
Reinaldo Glioche disse...

Acho um filme um tanto esquemático e manipulador. Reconheço a força da história e é impossível não se emocionar com ela.Mas não considero um filme digno de nota não.O que mostra que o pessoal que vota no IMDB não se importa muito com essas coisas...
bjs

30 de agosto de 2010 10:01
thicarvalho disse...

Amanda acredito que o sucesso do filem se deve a grande atuação de Will Smith. Simplesmente emocionante e tocante a forma como ele interpreta o personagem. Além disto, a direção de Muccino é especial. Consegue tirar o máximo desta bela, e verídica, história de vida. Sem dúvidas, um filme inspirador. Abraços.

30 de agosto de 2010 14:33
pseudo-autor disse...

O filme é bom, a atuação do Smith idem (e sem dúvida merecedora da indicação ao Oscar). Tirando o fato de que, para mim, aquele emprego no mercado de ações está longe de qualquer tipo de felicidade, vale uma locação tranquilo. E a trilha sonora é soberba!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

30 de agosto de 2010 15:50
Amanda Aouad disse...

Obrigada, Cris, eu também não sei se teria a perseverança dele...

Reinaldo, é feito para emocionar, sim, tem razão. Mas, exatamente por isso é tão bem sucedido, porque por mais que a gente veja os esquemas se emociona no final. Mas, claro que não é o melhor filme de todos os tempos.

Sim Thiago, ele está muito bem e nos cativa.

Pseudo-autor, pois é. Também acho que o emprego é dos mais miseráveis, vide filmes como Wall Street. Mas, o filme nos envolve.


bjs

30 de agosto de 2010 16:44
@Raspante disse...

Gostei bastante deste filme quando o vi, mas preciso rever já que não me lembro de muitas coisas, mais uma é certo: a interpretação de Will Smith é uma das melhores de sua carreira! xD

30 de agosto de 2010 16:53

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