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Memórias de um Assassino

Memórias de um Assassino - filme

Memórias de um Assassino
surge como uma obra que transcende o gênero policial para se tornar um estudo sobre a condição humana diante de um mal invisível. Bong Joon-ho, bem antes de sua consagração internacional com Parasita, já demonstrava aqui a habilidade singular de manipular tom e textura narrativa, equilibrando humor ácido e uma tensão sufocante sem jamais perder o foco no cerne emocional da história.

O filme se passa na Coreia do Sul dos anos 1980, num ambiente provinciano onde o policial Park Doo-man, interpretado com notável verve por Song Kang-ho, e sua equipe lidam com uma série de assassinatos brutais que variam de mulheres violentadas a corpos encontrados em lugares isolados. Desde a primeira cena, há uma sensação de desconforto: a câmera, muitas vezes imóvel, observa o desdobrar dos eventos como se fosse um terceiro personagem silencioso, quase cúmplice do público nesta investigação sem respostas fáceis.

Memórias de um Assassino - filme
O que imediatamente se destaca no trabalho de Bong é a escolha de não transformar o assassino em uma figura monstruosa ou caricata. Pelo contrário, a narrativa constrói um clima de ameaça invisível, onde o medo não está necessariamente no que é visto, mas no que permanece oculto nas sombras e nas falhas do sistema. A polícia local, simbolizada por homens que parecem mais perdidos do que eficazes, opera com métodos que variam da superstição ao abuso de força, mostrando o fracasso institucional não apenas em capturar um criminoso, mas em proteger a própria comunidade.

As atuações são um dos pilares do filme. Song Kang-ho entrega uma performance que mistura bravata e vulnerabilidade. É um personagem afogado em si mesmo, cuja confiança exterior frequentemente se desfaz em pânico e frustração conforme a investigação se arrasta sem soluções. Em contraste, o detetive Seo-Tae-yoon (Kim Sang-kyung) entra como uma espécie de âncora racional, acreditando que métodos corretos e lógica científica podem finalmente iluminar a verdade. Mas essa oposição entre instinto e lógica, tão explorada ao longo da narrativa, revela-se menos uma dicotomia e mais um espelho de nossas próprias expectativas falíveis.

O clima em Memórias de um Assassino não depende de grandes trilhas sonoras ou cortes estilizados. Pelo contrário, Bong emprega sons ambientes e silêncio para permitir que o espectador sinta o peso de cada descoberta frustrada, cada pista que desanda em nada, cada noite chuvosa que apenas adiciona mais denso sofrimento à investigação.

Memórias de um Assassino - filme
Há, evidentemente, momentos de humor ácido, muitas vezes surgindo não para aliviar a tensão, mas para sublinhar o absurdo das circunstâncias. Uma sequência memorável envolve a busca por pistas baseadas em teorias tão malucas quanto procurar pelos genitais de homens num banho público, o que abre um sorriso estranho no espectador justamente por ser uma expressão terrivelmente humana de desespero diante do desconhecido.

Mas talvez o momento mais marcante seja o final, tão hesitante em esclarecer quanto a própria investigação dentro da história. Park retorna ao cenário de um crime passado e, na descrição do assassino por uma jovem, sente-se diante de uma banalidade aterradora: a ideia de que a verdade pode ser ordinária e invisível. Uma cena final que é um lembrete perturbador de que alguns traumas não se resolvem, apenas nos seguem.

A resolução do filme pode deixar a desejar, especialmente àqueles acostumados aos mecanismos tradicionais de um filme conclusivo. E algumas escolhas narrativas, em particular a forma como certos personagens secundários são desenvolvidos, podem parecer um tanto soltas ou subutilizadas diante da robustez temática do filme.

Ainda assim, Memórias de um Assassino merece seu status não apenas pelo domínio técnico, pela direção firme, pelas escolhas de luz e som que ampliam cada nuance emocional, mas também por sua coragem em colocar o espectador cara a cara com a imperfeição humana. Não é um filme sobre respostas claras, e sim sobre como lidamos com as perguntas que nunca se resolvem totalmente.


Memórias de um Assassino (Salinui chueok, 2003 / Coreia do Sul)
Direção: Bong Joon-ho
Roteiro: Bong Joon-ho, Shim Sung-bo
Com: Song Kang-ho, Kim Sang-kyung, Kim Roi-ha, Song Jae-ho, Byeon Hee-bong
Duração: 131 min.

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