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As Coisas Simples da Vida
As Coisas Simples da Vida
As Coisas Simples da Vida é um filme que parece apenas observar a vida acontecendo, mas seria um erro imaginar que isso o torna um filme pequeno. Edward Yang transforma acontecimentos aparentemente banais em matéria-prima para uma reflexão profunda sobre família, tempo, amadurecimento e sobre tudo aquilo que percebemos apenas quando já passou. O título original, Yi Yi, sugere algo que acontece um elemento de cada vez, como se cada pessoa enxergasse apenas um fragmento do mundo. É exatamente essa ideia que sustenta toda a narrativa.
A história acompanha três gerações de uma família de classe média em Taipei durante um período de mudanças inesperadas. O casamento de um parente, o coma da avó, as dificuldades financeiras da empresa de N.J., o reencontro com um antigo amor e as descobertas sentimentais dos filhos parecem acontecimentos independentes, mas Yang costura tudo com uma naturalidade impressionante. Não existem grandes reviravoltas nem momentos concebidos para arrancar lágrimas fáceis. O diretor prefere confiar que o espectador encontrará emoção justamente naquilo que reconhece como parte da própria existência.
Edward Yang filma a cidade como um organismo vivo. Taipei nunca aparece como simples cenário. Os prédios de vidro, os reflexos das janelas, corredores, elevadores e ruas movimentadas criam uma sensação constante de distância entre as pessoas. É um recurso visual elegante que nunca soa como exibicionismo estético. A câmera frequentemente observa os personagens através de superfícies transparentes ou reflexivas, sugerindo que todos enxergam apenas parte da realidade. Essa ideia conversa diretamente com uma das imagens mais bonitas do filme, quando o pequeno Yang-Yang fotografa a parte de trás da cabeça das pessoas para mostrar aquilo que elas nunca conseguem ver sozinhas. É uma metáfora simples, quase infantil, mas de enorme força poética.
O elenco trabalha exatamente na frequência pedida pelo diretor. Wu Nien-jen interpreta N.J. com uma discrição rara. Seu personagem atravessa uma crise de meia-idade sem explosões dramáticas. O conflito acontece em pequenos olhares, silêncios prolongados e conversas interrompidas. Quando reencontra Sherry durante a viagem ao Japão, o filme evita transformar esse reencontro em um romance tardio convencional. O interesse de Yang está menos na possibilidade de um novo amor do que na pergunta inevitável sobre quem nos tornamos e quem poderíamos ter sido.
Também impressiona como o diretor distribui a atenção entre todos os integrantes da família. Ting-Ting enfrenta as primeiras dores do amadurecimento, descobrindo que crescer significa carregar culpas que nem sempre são nossas. Já Yang-Yang acaba funcionando como a consciência silenciosa da narrativa. Seu olhar curioso, quase filosófico, encontra perguntas que os adultos já deixaram de fazer. O emocionante discurso final do menino resume toda a proposta do filme sem parecer artificial. É um encerramento que amplia o significado de tudo o que foi visto até então.
O ritmo certamente representa o maior desafio da obra. Com quase três horas de duração, Edward Yang exige disponibilidade do espectador. Algumas sequências se estendem além do esperado e quem procura uma narrativa guiada por acontecimentos constantes talvez sinta a progressão lenta. Ainda assim, essa escolha faz parte da identidade do filme. O tempo dilatado permite observar mudanças quase imperceptíveis nos personagens, algo que dificilmente seria alcançado em uma montagem mais acelerada.
Outro mérito está na maneira como Yang evita julgamentos morais. Ninguém é tratado como herói ou vilão. Todos carregam pequenas contradições, desejos interrompidos e arrependimentos silenciosos. A vida segue seu curso sem oferecer respostas definitivas. Essa honestidade faz com que a família Jian pareça menos um grupo de personagens e mais pessoas que poderiam morar ao lado de qualquer um de nós.
Dentro da filmografia de Edward Yang, As Coisas Simples da Vida representa uma espécie de síntese de suas principais preocupações artísticas. O diretor já havia investigado as transformações sociais de Taiwan em obras anteriores, mas aqui alcança um equilíbrio raro entre intimidade familiar e observação social. Seu cinema nunca reduz indivíduos a símbolos, embora cada enquadramento pareça cuidadosamente pensado para sugerir algo maior do que aquilo que está sendo mostrado.
Talvez seja justamente por isso que o filme permaneça tão atual. As tecnologias mudaram, Taipei mudou e o mundo mudou, mas continuam reconhecíveis o medo de desperdiçar oportunidades, a dificuldade de comunicação entre gerações, a sensação de que sempre existe uma vida alternativa que poderíamos ter vivido e a esperança de encontrar algum sentido nas pequenas experiências do cotidiano.
Poucos filmes conseguem tratar de temas tão universais sem recorrer a discursos grandiosos. Edward Yang encontra grandeza onde quase ninguém costuma procurar. Nos corredores de um hospital, numa conversa interrompida, numa fotografia tirada por uma criança ou num reencontro marcado mais pelo silêncio do que pelas palavras. As Coisas Simples da Vida não pretende ensinar como viver. Apenas convida o espectador a olhar com mais atenção para aquilo que normalmente passa despercebido. E, quando termina, deixa a sensação de que talvez seja justamente nesses detalhes aparentemente insignificantes que a vida acontece de verdade.
As Coisas Simples da Vida (Yi Yi, 2001 / Taiwan, Japão)
Direção: Edward Yang
Roteiro: Edward Yang
Com: Wu Nien-jen, Elaine Jin, Issey Ogata, Kelly Lee, Jonathan Chang, Chen Hsi-sheng
Duração: 173 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
As Coisas Simples da Vida
2026-10-16T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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