Home
Álvaro Morte
Benedetta Porcaroli
critica
Dora Romano
Michael Mohan
Simona Tabasco
Sydney Sweeney
terror
Imaculada
Imaculada
Imaculada entende perfeitamente o tipo de filme que deseja ser. Em um período em que o terror religioso voltou a ocupar espaço nos cinemas, muitas produções parecem excessivamente preocupadas em parecer elevadas, transformando simbolismos católicos em metáforas tão calculadas que acabam esterilizando o próprio horror. O longa dirigido por Michael Mohan segue um caminho diferente. Ele não abandona o discurso sobre repressão, misoginia institucional e exploração do corpo feminino, mas também nunca esquece que um filme de terror precisa provocar desconforto físico, tensão e até certa repulsa.
A história acompanha Cecilia, interpretada por Sydney Sweeney, uma jovem noviça americana enviada para um convento isolado na Itália. Desde os primeiros minutos, o filme constrói um ambiente de estranhamento bastante eficiente. Não há exatamente sutileza aqui. Os corredores silenciosos, as paredes antigas, os rostos cansados das freiras e a sensação permanente de vigilância deixam claro que aquele espaço está contaminado por algo profundamente doente. Mesmo assim, Mohan demonstra habilidade visual ao transformar o convento em uma prisão espiritual sufocante. A fotografia explora tons frios e sombras densas, enquanto a arquitetura religiosa funciona quase como um mecanismo de opressão psicológica.
O roteiro de Andrew Lobel é previsível em termos narrativos. Em vários momentos, é possível antecipar parte das revelações antes que elas aconteçam. O próprio filme flerta constantemente com referências muito evidentes do horror europeu, especialmente o cinema italiano dos anos 1970. Há ecos visuais de Suspiria, principalmente na maneira como o espaço físico parece possuir vida própria. Mas Imaculada funciona justamente porque entende que previsibilidade não destrói necessariamente um filme de terror. O importante aqui é a maneira como a tensão é sustentada.
E isso acontece principalmente graças à atuação de Sydney Sweeney. Existe um preconceito recorrente em Hollywood em torno da atriz, como se sua popularidade viesse apenas da imagem construída em séries como Euphoria. Imaculada talvez seja um dos primeiros trabalhos em que ela consegue transformar completamente essa percepção. Sua Cecilia começa quase infantilizada, movida por uma devoção sincera, quase ingênua. Aos poucos, porém, o filme desmonta a personagem diante do espectador. O mais interessante é como Sweeney evita exageros melodramáticos. Ela trabalha muito através do olhar, do desconforto corporal e da fragilidade física crescente.
Há uma cena específica que resume perfeitamente o impacto da performance. Próximo ao clímax, Cecilia já não parece uma pessoa, mas um organismo esmagado por culpa, medo e violência institucional. O filme abandona temporariamente qualquer pretensão de sutileza e mergulha em um horror corporal brutal. Nesse momento, Sweeney entrega um dos gritos mais desesperados do terror recente. Não é um grito bonito, cinematográfico ou estilizado. Parece genuinamente animalesco. A sequência inteira funciona porque a atriz compreende que o horror daquele universo nasce da transformação do corpo feminino em objeto de manipulação religiosa.
O diretor Michael Mohan talvez não seja sofisticado em termos filosóficos, e isso aparece quando o filme tenta aprofundar certas discussões sobre fé e fanatismo. Em alguns momentos, o roteiro simplifica demais seus antagonistas, tornando algumas figuras religiosas quase caricaturas do mal institucionalizado. O longa também recorre a sustos convencionais, especialmente na primeira metade. São eficientes, mas pouco memoráveis. Existe uma dependência muito clara das regras modernas do terror comercial.
Ainda assim, o filme ganha força justamente quando abandona a obrigação de parecer elegante. Conforme a narrativa avança, Imaculada se torna mais grotesco, mais violento e até mais estranho. O terceiro ato abraça completamente o horror físico e transforma o convento em um verdadeiro laboratório de perversão espiritual. É nesse ponto que o longa encontra personalidade própria.
Também chama atenção como o filme utiliza símbolos católicos sem cair apenas na provocação vazia. Crucifixos, imagens sacras e elementos litúrgicos aparecem constantemente associados a dor, culpa e submissão corporal. Mas o longa nunca parece interessado apenas em atacar religião. O alvo principal é a instrumentalização da fé como mecanismo de controle. Existe uma diferença importante aí, e Michael Mohan parece consciente disso.
O elenco de apoio também contribui bastante para o clima paranoico. Álvaro Morte trabalha muito bem a ambiguidade de seu personagem, alternando acolhimento e ameaça com certa naturalidade perturbadora. Simona Tabasco ajuda a ampliar a sensação de estranhamento dentro do convento, enquanto as demais freiras funcionam quase como extensões silenciosas daquela instituição apodrecida.
Talvez Imaculada não alcance a profundidade psicológica dos grandes clássicos do terror religioso. Ele não possui a complexidade emocional de O Bebê de Rosemary nem a atmosfera transcendental de A Profecia. Mas também seria injusto exigir isso. O filme parece mais interessado em provocar desconforto imediato do que em construir uma reflexão filosófica duradoura. E, dentro dessa proposta, funciona muito bem.
O mais curioso é perceber como Imaculada cresce justamente quando aceita ser um filme de horror moderno. Existe sangue, blasfêmia, sofrimento físico e uma violência quase sacramental no clímax final. E tudo isso culmina em uma imagem final brutal, desesperada e profundamente niilista. Uma conclusão que possui coragem suficiente para permanecer na memória.
Imaculada não é um marco definitivo do terror contemporâneo, mas é um exemplo raro de produção que entende a importância da atmosfera, da fisicalidade e do desconforto visual dentro do gênero. E, acima de tudo, confirma que Sydney Sweeney possui presença dramática muito maior do que parte da indústria ainda parece disposta a admitir.
Imaculada (Immaculate, 2024 / Estados Unidos, Itália)
Direção: Michael Mohan
Roteiro: Andrew Lobel
Com: Sydney Sweeney, Álvaro Morte, Benedetta Porcaroli, Dora Romano, Simona Tabasco
Duração: 89 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Imaculada
2026-08-21T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Álvaro Morte|Benedetta Porcaroli|critica|Dora Romano|Michael Mohan|Simona Tabasco|Sydney Sweeney|terror|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
O Segredo de Marrowbone (2017) é um daqueles filmes que te prendem pela textura da atmosfera antes de te conquistar pela lógica de cada aco...
-
A Incrível História da Ilha das Rosas (2020) é uma pérola cinematográfica, uma comédia italiana que explora as fronteiras da liberdade, ind...
-
Garota Infernal não é um filme fácil de classificar. A princípio parece um típico horror adolescente vestido com maquiagem de comédia gr...
-
O cinema francês sempre teve um talento especial para rir de si mesmo e dos outros. Desde as comédias pastelão de Louis de Funès até os jo...
-
Foi-se o tempo em que as pessoas vestiam as suas melhores roupas e iam apreciar um bom filme em uma sala escura e silenciosa chamada Cinema...
-
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme . Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida p...
-
Ver Nonnas , de Stephen Chbosky , é como cruzar a porta de um restaurante pequeno, com paredes cheias de fotos de família e o cheiro de mol...
-
Assistindo Eiffel (2021), é inevitável sentir um gesto de frustração que acompanha o espectador desde os primeiros cortes. O filme , dirigi...
-
O que mais me chama atenção em Karate Kid: Lendas é como ele tenta jogar em dois tabuleiros ao mesmo tempo, mas raramente consegue equilibr...
-
É fascinante revisitar O Quinto Poder (1962) hoje, não apenas como peça de cinema, mas como um artefato quase profético. É só trocar ondas ...





