Home
critica
drama
Elle Fanning
Inga Ibsdotter Lilleas
Joachim Trier
oscar 2026
Renate Reinsve
Stellan Skargard
Valor Sentimental
Valor Sentimental
Valor Sentimental é um filme sobre relações familiares, em especial a relação entre pai e filha. Curiosamente, porém, esse tema demora um pouco a se instalar em cena. A escolha de Joachim Trier é trabalhar primeiro a raiz do problema, no cerne da estrutura familiar. Em uma proposta que lembra, em parte, Aqui, de Robert Zemeckis, acompanhamos uma casa e o passar do tempo ao seu redor. Vemos uma família em suas várias fases, sempre pelo ponto de vista de Nora.
É curioso notar que, apesar de serem lembranças marcadas pela tristeza e por um convívio constantemente atravessado por brigas, essa é a única referência de família que a protagonista possui. Atriz de teatro, incapaz de manter um relacionamento estável, Nora sofre crises de pânico antes de entrar em cena, revelando toda a sua insegurança diante da vida, já que perdeu suas raízes e referências no dia em que seu pai saiu de casa. Esse mesmo pai retorna agora, após o enterro da mãe, com um roteiro nas mãos, propondo que Nora seja a protagonista do novo longa-metragem que está preparando.
Renate Reinsve defende com precisão essa mulher fragmentada. A sequência da crise de pânico antes do palco é particularmente intensa. Estamos ali com ela, no camarim e na coxia, compartilhando a expectativa diante daquela tensão. Queremos que ela suba ao palco, mas, ao mesmo tempo, sentimos vontade de fugir com ela. Uma sensação que constrói um temor constante diante de qualquer novo desafio imposto pela vida.
O contraste com a personagem de Elle Fanning é extremamente rico. A atriz de Hollywood chega ao país cercada pela atenção da mídia, mas se emociona com o filme independente realizado por Gustav Borg anos antes e também demonstra admiração pela intensidade de um espetáculo teatral. Surge, então, uma reflexão sobre a relação entre filmes comerciais e obras de arte. Comparação que parece nunca perder relevância, ainda que ambos os campos possam ter seus méritos.
O reencontro entre pai e filha nunca é completo. Ele permanece suspenso, entre falas interrompidas, tentativas frustradas e constantes fugas. Ao contrário de Nora, sua irmã Agnes consegue interagir melhor com o pai, embora esse também não seja um relacionamento familiar ideal. Casada e com um filho, Agnes conseguiu seguir em frente, enquanto Nora permanece presa às dores de traumas passados.
Nesse dilema psicológico, a casa retorna em diversos momentos como símbolo. O lar como espaço de retorno, ainda que seja impossível trazer o tempo de volta. Um lugar de possível catarse, de confronto e discussão. Mais do que paredes e jardim, a casa abriga lembranças, dores e esperanças. Soma-se a isso o roteiro do filme que Gustav pretende dirigir. Uma obra que aborda dores profundas e o suicídio, trazendo revelações sobre seu próprio passado e nos aproximando ainda mais daquela família.
No ato final, a direção de Trier se mistura à de Gustav, trazendo momentos intensos e criativos, especialmente na elaboração de um plano-sequência que acompanhamos desde o planejamento até sua execução. É a cereja do bolo de uma obra marcada pela dor, mas também pela criatividade em sua construção. Valor Sentimental faz jus ao título. Um filme que não teme tocar em temas sensíveis e que nos envolve em sentimentos múltiplos, levando-nos a reconhecer, de alguma forma, nosso próprio desejo de pertencimento.
Valor Sentimental (2026 / Noruega)
Direção: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt
Com: Elle Fanning, Renate Reinsve, Stellan Skargard, Inga Ibsdotter Lilleas
Duração: 133 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Valor Sentimental
2026-03-09T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
critica|drama|Elle Fanning|Inga Ibsdotter Lilleas|Joachim Trier|oscar 2026|Renate Reinsve|Stellan Skargard|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Imaculada entende perfeitamente o tipo de filme que deseja ser. Em um período em que o terror religioso voltou a ocupar espaço nos cinemas...
-
Poucos filmes carregam o peso histórico de Acossado sem estarem aprisionados pelo próprio prestígio. O primeiro longa de Jean-Luc Godard ...
-
Mais um Semana no Cinema , e provavelmente a última. A nossa página no Facebook já vem fazendo o trabalho de trazer as notícias que são des...
-
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme . Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida p...
-
Predador: Terras Selvagens é um daqueles filmes que poderiam facilmente ter dado errado. A ideia de transformar a criatura mais icônica da...
-
É um frescor ver um filme original em uma indústria cinematográfica que parece cada vez mais obcecada por universos compartilhados, franqui...
-
Poucos diretores contemporâneos parecem tão fascinados pela luta do ser humano contra ambientes extremos quanto Baltasar Kormákur . Ao longo...
-
Existe algo curioso em Jack Ryan: Guerra Fantasma . O filme tenta se apresentar como um grande evento de espionagem internacional, mas sua ...
-
Quando se fala em cinema italiano do pós-guerra, poucos filmes permanecem tão vivos quanto Ladrões de Bicicleta . O longa de Vittorio De S...
-
Em Alexandria (Ágora), Alejandro Amenábar empreende um mergulho ambicioso no século IV, colocando no centro uma figura rara: Hipátia , pol...





