Home
Bill Condon
critica
drama
Helen Mirren
Ian McKellen
Jim Carter
Jóhannes Haukur Jóhannesson
livro
Russell Tovey
suspense
A Grande Mentira
A Grande Mentira
A Grande Mentira, dirigido por Bill Condon, é uma daquelas propostas cinematográficas que começa com a promessa cativante do encontro de dois veteranos do palco cinematográfico e às vezes termina revelando que sua ambição narrativa foi maior que sua execução. Ao colocar frente a frente Ian McKellen e Helen Mirren, o filme imediatamente atrai atenções: são dois intérpretes capazes de imprimir densidade emocional e nuances até às palavras mais modestas.
McKellen interpreta Roy Courtnay, um vigarista meticuloso com hábito de aplicar golpes em pessoas vulneráveis. Quando ele cruza o caminho de Betty McLeish, uma viúva rica e reservada, a estrutura narrativa se instala como um jogo de gato e rato cuidadosamente coreografado, mas um jogo que nem sempre consegue sustentar sua própria lógica interna. O roteiro, adaptado do romance homônimo de Nicholas Searle, flerta com a ideia de suspense psicológico e traição, mas muitas vezes se perde em reviravoltas que soam mais artificiais que impactantes.
O primeiro ato é promissor: há uma construção de tensão que se apoia na química entre os protagonistas e na promessa de uma revelação que justificará cada detalhe aparente de coincidência ou engano. Mirren, com sua presença serena e olhar que combina vulnerabilidade e discernimento, cria uma Betty que nunca é mera vítima. Há registros nos diálogos e na interpretação de uma mulher que sabe como proteger seus próprios limites, mesmo quando se mostra gentil demais.
McKellen, por sua vez, imprime a Roy uma ambiguidade deliciosa: ele é charmoso, experiente, mas não suficientemente enigmático para tornar sua trajetória verdadeiramente imprevisível. Enquanto os grandes momentos de suspense deveriam crescer a partir de escolhas ambíguas e olhares silenciosos, o roteiro muitas vezes opta por colocá-los em situações narrativas que exigem explicações forçadas ou flashbacks expositivos. Esses elementos narrativos, que deveriam iluminar forças psicológicas ocultas, não raro, interrompem a imersão ao invés de aprofundá-la.
Mesmo quando o diretor tenta dar textura visual à trama por meio de jogos de câmera que enfatizam rostos, silêncios ou pequenas reações, esses dispositivos parecem focar mais na importância da reviravolta no enredo do que na própria construção da tensão dramática. Em vez de um crescendo orgânico, muitas vezes temos apenas uma série de saltos que não dialogam entre si.
E aí está o dilema de A Grande Mentira. Ele é um filme que, na superfície, parece sempre estar prestes a revelar algo maior, uma verdade oculta sobre seus personagens ou sobre as próprias mentiras que contam, mas quando chega o momento da verdade, a virada narrativa acaba soando desconexa com o resto da experiência. O espectador atento percebe que os furos no enredo e as decisões convenientes dos personagens não se encaixam organicamente, e isso enfraquece o impacto que a direção e as performances tentam criar.
A esse respeito, não há como ignorar o mérito do elenco principal: Mirren e McKellen elevam cenas que poderiam parecer banais. Suas interações funcionam como o verdadeiro eixo emocional do filme, porque ambas as atuações conseguem transmitir mais profundidade do que o texto em si oferece. Quando Betty confronta seus próprios segredos ou quando Roy hesita, há um lampejo de humanidade e contradição que justifica, por si só, assistir ao longa.
Mas a insuficiência do roteiro impede que essa energia se transforme numa experiência satisfatória de suspense dramático. À medida que a trama se desenrola, deixa-se ao espectador a sensação de que tudo foi conduzido não tanto para surpreender de fato, mas para cumprir um contrato com a ideia de que plot twists sempre levam a algo maior. Não leva, e o que resta é uma reflexão sobre como duas performances brilhantes podem carregar um filme que, por vezes, se esforça demais para justificar suas próprias reviravoltas.
A Grande Mentira (The Good Liar, 2019 / Estados Unidos)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Jeffrey Hatcher
Com: Helen Mirren, Ian McKellen, Russell Tovey, Jim Carter, Jóhannes Haukur Jóhannesson
Duração: 109 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
A Grande Mentira
2026-04-01T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Bill Condon|critica|drama|Helen Mirren|Ian McKellen|Jim Carter|Jóhannes Haukur Jóhannesson|livro|Russell Tovey|suspense|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Poucos filmes carregam o peso histórico de Acossado sem estarem aprisionados pelo próprio prestígio. O primeiro longa de Jean-Luc Godard ...
-
Imaculada entende perfeitamente o tipo de filme que deseja ser. Em um período em que o terror religioso voltou a ocupar espaço nos cinemas...
-
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme . Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida p...
-
Predador: Terras Selvagens é um daqueles filmes que poderiam facilmente ter dado errado. A ideia de transformar a criatura mais icônica da...
-
É um frescor ver um filme original em uma indústria cinematográfica que parece cada vez mais obcecada por universos compartilhados, franqui...
-
Poucos diretores contemporâneos parecem tão fascinados pela luta do ser humano contra ambientes extremos quanto Baltasar Kormákur . Ao longo...
-
Há filmes que parecem deslocados dentro da carreira de seus próprios criadores. Que Droga de Vida é exatamente esse tipo de obra. Quando s...
-
Em Alexandria (Ágora), Alejandro Amenábar empreende um mergulho ambicioso no século IV, colocando no centro uma figura rara: Hipátia , pol...
-
Poucos filmes conseguem capturar tão bem a essência da palavra aventura quanto Os Caçadores da Arca Perdida . Mais de quatro décadas depoi...
-
Existem filmes sobre guerra e existem filmes que usam a guerra apenas como ponto de partida para discutir algo muito maior. Apocalypse No...





