Home
cinema europeu
critica
drama
Emma Mackey
Martin Bourboulon
Pierre Deladonchamps
Romain Duris
romance
Eiffel
Eiffel
Assistindo Eiffel (2021), é inevitável sentir um gesto de frustração que acompanha o espectador desde os primeiros cortes. O filme, dirigido por Martin Bourboulon, tinha nas mãos uma das grandes narrativas arquitetônicas da história: a construção da Torre Eiffel, um símbolo que ultrapassa fronteiras, e, ainda assim, escolheu transformá-la em um romance diluído. Uma escolha criativa que acaba por orientar toda a experiência.
No coração dessa adaptação está a tentativa de humanizar um gênio da engenharia, Gustave Eiffel, através da reintrodução de um amor de juventude, Adrienne Bourgès. A premissa sugerida em sinopses e trailers promete explorar a vida interior do protagonista e sua motivação emocional. No entanto, o que se recebe é um melodrama que parece indeciso entre celebrar a magnitude técnica de uma obra colossal e tocar as cordas sentimentais do público, costurando uma fusão entre fatos históricos e ficção romântica em uma narrativa irregular.
Quando a construção da torre aparece nas telas, há momentos de genuína fascinação. Cenas dos trabalhadores manobrando vigas de ferro, o jogo de luz sobre a estrutura crescente e a tensão palpável das limitações técnicas transmitem, ainda que brevemente, o porquê de Eiffel ter impulsionado seu projeto contra todas as resistências. Nesses fragmentos, nota-se que o filme poderia, sim, ter sido uma obra de engenharia cinematográfica tanto quanto a própria Torre é uma obra de engenharia mecânica.
E é nesse contraste que reside o principal problema do longa: a insistência em priorizar um arco amoroso sobre a força narrativa do próprio monumento. Esta opção narrativa rouba à história seu epicentro dramático. Enquanto Gustave Eiffel surge como um personagem competente e obstinado em uma construção sólida da atuação de Romain Duris, Adrienne (interpretada por Emma Mackey) oscila entre o brilho de um ícone de cinema de época e a fragilidade de um papel subdesenvolvido, sem conseguir criar uma química marcante com o protagonista que justifique narrativamente sua centralidade.
A direção de Bourboulon parece relutar em aprofundar questões que poderiam enriquecer o filme. Em vez de tensionar mais o conflito entre visão e resistência pública, entre arte e pragmatismo, o roteiro recai frequentemente em flashbacks amorosos que fluem sem carga dramática relevante. Esse uso episódico tira o ritmo e dilui potencial emocional, fazendo com que o espectador espere, sem satisfação, uma síntese mais poderosa entre o homem e seu legado.
No entanto, há virtudes claras: a fotografia captura a luz de Paris com elegância e sensibilidade, lembrando que esta cidade, mais do que cenário, é personagem de qualquer narrativa que a celebre. Os figurinos, a ambientação e o design de produção situam bem o espectador no final do século XIX, proporcionando um deleite visual que justifica, por si só, parte do investimento estético do longa.
O que falta, porém, é intensidade emocional e uma linha narrativa que entrelace de forma mais convincente a vida pessoal do engenheiro e a obra que o imortalizou. Ao finalizar, Eiffel parece mais uma homenagem afetiva ao ícone parisiense do que um estudo profundo do homem, da sua época ou das revoluções técnicas e sociais que seu trabalho implicou. O filme é um romance de época suave, nada mais que isso.
Eiffel (Eiffel, 2021 / França)
Direção: Martin Bourboulon
Roteiro: Caroline Bongrand
Com: Romain Duris, Emma Mackey, Pierre Deladonchamps
Duração: 108 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Eiffel
2026-05-04T08:30:00-03:00
Ari Cabral
cinema europeu|critica|drama|Emma Mackey|Martin Bourboulon|Pierre Deladonchamps|Romain Duris|romance|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Assistir a Mar de Fogo (2004) é como revisitar uma expedição. Não tanto no sentido épico-clássico de sobrevivência, mas numa jornada de exp...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Poucos filmes conseguiram me incomodar tanto — e isso, acredite, é um elogio — quanto Instinto Materno (Pozitia Copilului, 2013), dirigido...
-
Assistir A Escolhida (2020) é como caminhar sobre uma ponte tensa que separa passado e presente, dor e espetáculo, intenção e execução ambí...





