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O Segredo de Marrowbone
O Segredo de Marrowbone
O Segredo de Marrowbone (2017) é um daqueles filmes que te prendem pela textura da atmosfera antes de te conquistar pela lógica de cada acontecimento. Dirigido por Sergio G. Sánchez, nome já conhecido por roteiros como O Orfanato (2007) e O Impossível (2012), o longa parte de uma premissa carregada de potencial dramático e gótico: quatro irmãos refugiados em uma mansão antiga no interior dos Estados Unidos dos anos 60, tentando esconder da pequena comunidade que sua mãe morreu para que não sejam separados por assistentes sociais. O mote parece simples, mas é exatamente esse contraste entre a fragilidade emocional e os elementos de terror que o filme explora com intensidade e, ao mesmo tempo, frustração.
O elenco merece todo o destaque. George MacKay, no papel de Jack, carrega o longa com uma vulnerabilidade que se mistura à tensão crescente, como se cada fôlego dele fosse uma aposta emocional. Há uma autenticidade crua em sua interpretação que dá consistência aos laços que unem os irmãos, laços esses que formam o coração narrativo do filme. Anya Taylor-Joy, embora subutilizada em termos de profundidade dramática, oferece um refresco de luminosidade romântica num mundo narrativamente frio, funcionando como contraponto ao clima opressor que domina a propriedade onde se passam os eventos principais. Esses desempenhos tornam palpável a luta interna entre devoção familiar e medo do desconhecido.
O que faz O Segredo de Marrowbone funcionar, sobretudo nos primeiros 40 a 60 minutos, é o trabalho de construção de atmosfera. Sánchez manipula luz, som e espaço com uma habilidade clara: o casarão, seus corredores, espelhos e janelas rachadas tornam-se quase personagens à parte, evocando um gótico que é tanto sobre o ambiente físico quanto sobre os recantos mais escuros da mente humana. O uso do som como ponte entre presença e ameaça é particularmente eficaz, criando uma tensão que não depende de sustos baratos.
Contudo, a força do filme encontra seu principal obstáculo na maneira como Sánchez resolve o enigma central. A narrativa acumula mistério com paciência quase poética, sugerindo horrores internos e externos ao mesmo tempo, para então se render a um plot twist que, embora surpreendente, dilui a plausibilidade cuidadosamente construída. É como se o roteiro, ao buscar um “momento surpresa”, traiu parte da própria lógica emocional que sustentava o drama. Essa decisão narrativa, mais do que ser apenas inesperada, rompe a conexão que o público vinha estabelecendo com as motivações dos personagens. Uma escolha que pode parecer artificial para quem valoriza coerência psicológica.
Essa é, talvez, a divisão mais clara entre amor e decepção com o filme. Há um um conto gótico sobre família, trauma e memória, mas há um híbrido incerto entre horror e melodrama, sem se comprometer verdadeiramente com nenhum dos gêneros. E essa ambiguidade é o que torna a obra tão interessante de analisar. Mesmo quando tropeça no terceiro ato, ela provoca reflexão sobre como lembranças, medo e amor podem coexistir de maneira perturbadora num mesmo espaço narrativo.
O filme, enfim, é uma experiência que vale a pena para quem gosta de cinema que não se revela de imediato, que aposta mais na construção de sentimentos do que em respostas fáceis. Sua contribuição não está em redefinir o gênero, mas em oferecer um olhar sensível e às vezes doloroso sobre o que significa proteger, esquecer e enfrentar fantasmas, sejam eles literais ou fragmentos de um passado que não quer desaparecer.
O Segredo de Marrowbone (The Secret of Marrowbone, 2017 / Espanha, Reino Unido)
Direção: Sergio G. Sánchez
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Com: George MacKay, Anya Taylor-Joy, Mia Goth, Charlie Heaton
Duração: 110 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Segredo de Marrowbone
2026-01-23T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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