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O Jogo do Predador
O Jogo do Predador
Poucos diretores contemporâneos parecem tão fascinados pela luta do ser humano contra ambientes extremos quanto Baltasar Kormákur. Ao longo da carreira, o cineasta islandês transformou montanhas, mares revoltos e regiões inóspitas em personagens tão importantes quanto seus protagonistas. Em O Jogo do Predador, lançado pela Netflix sob o título original Apex, ele retorna a esse território familiar e entrega um thriller de sobrevivência que funciona melhor quando abraça sua natureza física e visceral do que quando tenta aprofundar seus conflitos psicológicos.
A abertura já demonstra aquilo que o diretor faz de melhor. Em meio às formações rochosas da Noruega, Sasha, interpretada por Charlize Theron, e seu marido Tommy, vivido por Eric Bana, desafiam alturas vertiginosas em uma sequência que produz um desconforto quase imediato. Não é apenas uma introdução espetacular. É também a maneira encontrada pelo roteiro para estabelecer quem é essa mulher. Sasha não busca aventura como passatempo. Ela parece precisar dela para existir.
Quando a tragédia interrompe esse equilíbrio, o filme encontra seu motor dramático. Consumida pelo luto, Sasha continua perseguindo experiências radicais, como se a proximidade constante do perigo fosse uma forma de manter viva uma parte de si mesma que desapareceu junto com o marido. É uma motivação simples, mas eficiente. Não há grande complexidade psicológica aqui, porém Charlize Theron consegue preencher muitas lacunas apenas com sua presença em cena.
A atriz sustenta praticamente todo o filme. Sua interpretação evita transformar Sasha em uma heroína invencível, embora o roteiro por vezes flerte com essa tentação. Existe desgaste físico, medo e exaustão em seu desempenho. Theron convence tanto nos momentos de ação quanto nos raros instantes de silêncio. O espectador acredita que aquela mulher realmente passou anos enfrentando montanhas, rios e penhascos.
Quando a narrativa se desloca para a Austrália, O Jogo do Predador assume definitivamente sua identidade de thriller de perseguição. A natureza deixa de ser apenas um cenário bonito e passa a funcionar como uma armadilha permanente. Florestas densas, rios turbulentos, cavernas e paredões rochosos criam obstáculos constantes para a protagonista. Kormákur filma esses ambientes com a experiência de quem entende que a geografia pode ser uma poderosa ferramenta dramática. Em diversos momentos, a paisagem gera mais tensão do que qualquer diálogo.
É nesse contexto que surge Ben, personagem interpretado por Taron Egerton. O ator demonstra conforto em papéis ambíguos e utiliza bem seu carisma para tornar o personagem inicialmente confiável. O filme encontra suas melhores cenas justamente na dinâmica entre os dois protagonistas, mas a cordialidade pode esconder uma ameaça e a ajuda pode ser apenas o primeiro passo de uma armadilha. Existe uma sensação permanente de incerteza.
O grande mérito da construção de Ben está em evitar a caricatura durante boa parte da projeção. Egerton compreende que monstros verdadeiramente inquietantes costumam parecer pessoas normais. Sua atuação trabalha pequenos gestos, olhares e mudanças sutis de comportamento. Isso torna o jogo psicológico mais interessante do que seria caso o personagem fosse apresentado imediatamente como um vilão convencional.
O problema é que O Jogo do Predador nem sempre confia na própria premissa. Há momentos em que o filme parece querer ser um estudo sobre trauma e sobrevivência. Em outros, assume sem pudor a forma de uma aventura de perseguição. Nenhuma dessas abordagens é ruim isoladamente, mas a transição entre elas nem sempre acontece com naturalidade. Algumas situações parecem existir apenas para conduzir Sasha ao próximo obstáculo físico.
Também existe uma oportunidade parcialmente desperdiçada na exploração do ambiente australiano. A fauna hostil e as características únicas daquele território poderiam gerar desafios ainda mais memoráveis. O filme prefere concentrar quase toda a tensão no conflito humano, o que reduz um pouco a sensação de imprevisibilidade que a premissa prometia.
Ainda assim, seria injusto ignorar o quanto a direção consegue manter o ritmo. Com pouco mais de noventa minutos, a narrativa raramente perde energia. Kormákur demonstra domínio absoluto na condução de sequências de perigo. O espectador sente a altura das montanhas, a força da correnteza e a vulnerabilidade dos personagens diante de espaços gigantescos. É um cinema que aposta na experiência física.
O momento mais marcante do filme talvez aconteça justamente quando Sasha percebe que a natureza, até então sua grande paixão, deixou de ser apenas um desafio esportivo e se tornou o único recurso disponível para permanecer viva. Nesse instante, a aventura radical que definia sua identidade transforma-se em ferramenta de sobrevivência. É uma inversão simples, mas simbolicamente poderosa.
O Jogo do Predador não inova o thriller de sobrevivência. Sua estrutura lembra diversas histórias anteriores de caça humana e perseguição em ambientes selvagens. No entanto, o longa encontra valor na combinação entre a competência técnica de Baltasar Kormákur, o carisma de Charlize Theron e a presença inquietante de Taron Egerton. O resultado talvez não alcance a profundidade emocional que parece buscar em alguns momentos, mas entrega tensão consistente, belas paisagens e uma protagonista forte o suficiente para conduzir a jornada do início ao fim.
Em uma época em que muitos suspenses dependem exclusivamente de reviravoltas mirabolantes, O Jogo do Predador encontra sua força em algo mais simples: colocar uma personagem diante de seus limites físicos e emocionais e observar até onde ela é capaz de ir para sobreviver.
O Jogo do Predador (Apex, 2026 / Canadá, Austrália, Estados Unidos, Islândia)
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: Jeremy Robbins
Com: Charlize Theron, Taron Egerton, Eric Bana, Caitlin Stasey
Duração: 95 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Jogo do Predador
2026-09-09T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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