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O Profeta
O Profeta
Existem vários filmes que apostam na prisão como cenário principal de suas narrativas e conflitos. Alguns apostam na brutalidade, outros preferem explorar a corrupção do sistema e alguns que transformam seus personagens em heróis improváveis. O Profeta encontra um caminho muito mais desconfortável. Jacques Audiard não quer despertar admiração nem indignação imediata. Seu interesse está em acompanhar a lenta fabricação de um criminoso. O que torna o filme tão inquietante é perceber que Malik El Djebena não entra na cadeia como um líder nato ou um gênio estratégico. Ele chega assustado, analfabeto, praticamente invisível e sem qualquer perspectiva. A prisão não destrói sua inocência porque ela já era limitada pelas circunstâncias de uma vida marcada pelo abandono. O que ela faz é oferecer uma nova educação, construída sobre violência, cálculo e sobrevivência.
Essa transformação é conduzida sem atalhos. Audiard demonstra enorme paciência para registrar pequenas mudanças de comportamento, postura e olhar. Malik aprende observando. Aprende ouvindo. Aprende errando. Cada escolha deixa marcas permanentes. Quando finalmente assume uma posição de poder, não parece um personagem diferente daquele jovem tímido do início. Continua silencioso, mas agora compreende perfeitamente como manipular as relações ao seu redor. Essa evolução acontece de forma tão orgânica que o espectador quase não percebe quando o aprendiz se torna o homem mais perigoso da história.
Grande parte desse resultado nasce da interpretação extraordinária de Tahar Rahim. Seu trabalho impressiona justamente pela economia. Em vez de recorrer a explosões emocionais ou discursos marcantes, Rahim constrói Malik através das reações. O medo aparece no jeito de caminhar. A inteligência surge na rapidez com que observa uma conversa. A ambição nunca é anunciada verbalmente. Ela simplesmente cresce dentro do personagem até dominar completamente sua personalidade. É uma atuação que exige atenção constante porque muitos dos seus melhores momentos acontecem em absoluto silêncio.
Niels Arestrup entrega outro desempenho memorável como César Luciani. Em qualquer outro filme, ele seria apenas o chefão da prisão. Aqui existe algo muito mais interessante acontecendo. César governa pela intimidação, mas também pela experiência. Seu poder parece inabalável porque ninguém imagina um futuro diferente daquele presente. Conforme Malik amadurece, o filme transforma essa relação numa disputa entre gerações. O velho criminoso acredita conhecer todas as regras do jogo. O jovem percebe que o mundo está mudando e entende como aproveitar essas mudanças antes de todos os outros. O conflito deixa de ser apenas físico e passa a representar a substituição de uma ordem antiga por outra completamente nova.
Audiard demonstra um domínio impressionante da direção. A câmera permanece quase sempre próxima dos personagens, tornando os corredores da prisão sufocantes sem recorrer a grandes movimentos ou efeitos visuais chamativos. A sensação é de confinamento permanente. Mesmo quando Malik conquista pequenas liberdades temporárias, existe sempre a impressão de que ele continua preso a um sistema muito maior do que os próprios muros da penitenciária.
Entre as muitas cenas inesquecíveis, uma continua sendo a mais devastadora. O assassinato que Malik é obrigado a cometer logo no início do filme estabelece toda a lógica moral da narrativa. Não existe glamour, eficiência ou heroísmo. O ato é confuso, desesperado e profundamente traumático. Audiard filma a violência como algo sujo, improvisado e doloroso. A sequência não serve apenas para chocar. Ela marca o instante exato em que um jovem percebe que jamais conseguirá voltar à pessoa que era antes daquele momento.
Outro aspecto fascinante é a maneira como o diretor mistura realismo e pequenas sugestões quase sobrenaturais. Algumas aparições e visões poderiam parecer deslocadas em outro contexto, mas aqui funcionam como manifestações da culpa, da memória e das cicatrizes psicológicas carregadas por Malik. São momentos discretos, usados com cuidado, que acrescentam uma camada simbólica sem comprometer o realismo predominante.
Também chama atenção a leitura social presente ao longo de toda a narrativa. A prisão funciona como uma miniatura da sociedade francesa, dividida entre grupos étnicos, interesses econômicos e disputas de poder. Corsos, árabes e outras facções convivem em alianças temporárias que mudam conforme as oportunidades surgem. Audiard nunca transforma essas tensões em discursos explícitos. Elas aparecem naturalmente através das relações entre os personagens, tornando o comentário político muito mais eficaz.
Ainda assim, existe um ponto que pode afastar, talvez seja justamente o ritmo. Com mais de duas horas e meia de duração, o filme prefere acumular experiências em vez de acelerar acontecimentos. Algumas passagens poderiam ser mais enxutas sem comprometer o desenvolvimento dramático. Em determinados momentos, Audiard insiste em situações cuja função narrativa já foi plenamente estabelecida. Ainda assim, essa escolha também contribui para transmitir a sensação de passagem do tempo e para tornar convincente a transformação de Malik.
Passados tantos anos, O Profeta ainda é um dos grandes filmes do cinema francês contemporâneo porque não reduz sua história a um simples drama criminal. É um estudo sobre identidade, adaptação e sobrevivência. Um filme que questiona se alguém nasce destinado ao crime ou se determinadas estruturas sociais acabam moldando esse destino. Jacques Audiard evita respostas fáceis. Seu protagonista não é tratado como vítima nem como herói. Apenas como alguém que aprendeu a jogar um jogo brutal melhor do que todos os outros.
O Profeta (Un prophète, 2010 / França, Itália)
Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain
Com: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Reda Kateb, Hichem Yacoubi, Gilles Cohen, Jean-Philippe Ricci
Duração: 155 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Profeta
2026-10-19T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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