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Tempo de Matar

Tempo de Matar - filme

Quando revisito Tempo de Matar mais de trinta anos depois, o que mais me impressiona não é apenas a força da história, mas como ela continua a incomodar nesse intervalo de décadas. Joel Schumacher não faz um filme confortável. Ele empurra você para dentro de uma pequena cidade do Mississippi onde o racismo é tão palpável que parece um personagem invisível, mas influente, na sala de audiência. A narrativa começa já no choque do crime brutal contra uma menina de 10 anos e, a partir daí, cada tomada, cada mudança de cena se transforma num espelho das contradições daquele sul americano imaginado por John Grisham em seu livro.

A força do filme está, antes de tudo, nas atuações. Samuel L. Jackson como Carl Lee Hailey é visceral. Ele não apenas interpreta um pai enfurecido, ele personifica uma ferida histórica. A química entre sua dor e o silêncio desconfortável dos habitantes brancos ao redor é o que carrega a narrativa além do peso literal do enredo. Quando Jackson entra em cena, Schumacher não precisa de grandes artifícios visuais, sua presença já impõe o clima.

Tempo de Matar - filme
Do outro lado, Matthew McConaughey oferece seu primeiro grande desempenho dramático, um papel que revela nuances difíceis de equilibrar: por um lado, ele é o advogado idealista, por outro, é o privilegiado branco que precisa provar ao júri algo que deveria ser óbvio. Sua jornada não é apenas jurídica, é moral, e a famosa cena final em que ele pede ao júri que fechem os olhos é um momento de cinema que mistura inspiração e desconforto, porque revela o coração do problema: a empatia racial seletiva que ainda hoje assombra nossa compreensão de justiça.

Schumacher não é conhecido por sutilezas, e isso aparece aqui. Seu estilo é direto, quase bruto, e isso funciona tanto como vantagem quanto limitação. Em muitos momentos, o filme beira o melodrama. Não por acidente, mas porque a própria história que conta já está carregada de dolorosas emoções. A direção visual, com cores terrosas e enquadramentos que destacam a opressão do ambiente sulista, funciona quase como um terceiro personagem, reforçando que o mundo de Tempo de Matar está estratificado por desigualdades que não desaparecem sequer com argumentos jurídicos brilhantes.

Tempo de Matar - filme
O roteiro de Akiva Goldsman, adaptado do livro de Grisham, tenta equilibrar suspense, drama e comentário social. Algumas passagens funcionam brilhantemente e outras, especialmente algumas reviravoltas narrativas e conveniências do enredo, soam um tanto previsíveis. Essa alternância de momentos de grande poder emocional com outros mais mecânicos é parte do que torna o filme fascinante e, ao mesmo tempo, discutível.

Se há um momento que exemplifica todo esse valor, e também as limitações, é o discurso final no tribunal. Não é apenas um show de retórica, é um convite à introspecção. Schumacher consegue, ali, fazer o público sentir tanto quanto pensar. Não é uma cena perfeita e se apoia demais na manipulação emocional, mas é um exemplo claro de como cinema e crítica social podem dialogar de forma intensa.

O valor desse filme não está em oferecer respostas fáceis, mas em colocar diante de nós perguntas incômodas: até que ponto a lei pode ser justa num sistema historicamente injusto? E o que acontece quando alguém decide tomar a justiça em suas próprias mãos? Mesmo hoje, essas indagações continuam relevantes porque a sociedade continua lutando com as mesmas feridas. Tempo de Matar não é perfeito, mas é um marco no cinema jurídico por sua coragem em confrontar essas questões de frente, e por fazer isso com performances tão fortes que dificilmente saem da memória.


Tempo de Matar (A Time to Kill, 1996 / Estados Unidos)
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Akiva Goldsman
Com: Matthew McConaughey, Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Kevin Spacey, Donald Sutherland, Ashley Judd
Duração: 149 min.

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