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Armadilha
Armadilha
Armadilha, dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan, chegou ao público num momento em que o nome do cineasta era sinônimo tanto de expectativas elevadas quanto de frustração crítica. Aqui ele propõe um thriller que mescla o jogo de gato e rato clássico com um pano de fundo inesperado: um mega show pop onde um serial killer tenta escapar de uma armadilha montada para capturá-lo. A ideia central de transformar uma situação festiva num purgatório de tensão é, por si só, um motor narrativo potente. Mas quando observamos como essa ideia se traduz em cinema, vemos que a execução é desigual, alternando momentos de genuíno interesse com lapsos de lógica que deslocam o espectador da imersão que o gênero exige.
O ponto de partida é promissor e Shyamalan sempre se interessou por explorar dualidades humanas. Neste caso, a contradição de um pai de família que também é um assassino fugindo de suas responsabilidades e da lei. Há, em tese, potencial para um estudo de personagem que articule não só medo e surpresa, mas também complexidade moral. Pena que o roteiro falhe em aprofundar essa dualidade. A performance de Josh Hartnett, por vezes o único foco que sustenta a narrativa, oscila entre a intensidade fria de um homem que sabe demais sobre si mesmo e momentos em que falta contexto emocional para as escolhas que faz.
Enquanto Hartnett carrega nas expressões e gestos a ambiguidade necessária para um thriller psicológico, o restante do elenco sofre com falhas no material que lhes foi dado. A filha dele, colocada no centro da narrativa em meio ao tumulto, mais parece um artifício para prolongar a tensão do que um personagem com agilidade dramática.
A direção de Shyamalan, que já nos brindou com obras como O Sexto Sentido, Fragmentado e Corpo Fechado, mostra aqui um equilíbrio entre competência e hesitação. Ele orquestra algumas sequências com ritmo frenético, sobretudo no primeiro ato, onde a montagem evita que o suspense se dissipe. A câmera encontra tensão nos detalhes, como olhares furtivos, ruídos indistintos, movimentos inacabados. E isso funciona como um motor que empurra o público adiante. Porém, à medida que a trama progride, a narrativa perde foco e a proposta de claustrofobia espacial e emocional se dilui.
Um momento que exemplifica bem o potencial e as limitações do filme é a sequência no interior do estádio lotado. O espaço cinematográfico poderia ser uma armadilha visual e, por instantes, essa sensação está lá. Mas o roteiro não sustenta o interesse narrativo: a tensão deveria escalar organicamente, explorando o medo da contingência e da descoberta, e termina sendo pontuada por soluções convenientes ou decisões improváveis que fragilizam a verossimilhança.
Em outros termos, Armadilha parece preso entre duas intenções: ser um thriller sério que causa ansiedade e um entretenimento irônico, quase auto-consciente. Essa ambiguidade acaba por afastar a narrativa de uma textura emocional mais profunda. Quando o filme tenta inserir humor ou ironia, isso não se integra com a proposta de suspense e soa deslocado. Quando tenta ser incisivo, os elementos técnicos e narrativos não acompanham. Esse descompasso deixa a sensação de que havia uma boa história ali, mas que foi perdida nas decisões de ritmo e foco.
Ainda assim, é importante reconhecer que Armadilha não é um fracasso completo. Momentos isolados de tensão e a performance de Hartnett oferecem lampejos de cinema que justificam o investimento do espectador, especialmente aqueles que procuram filmes que brincam com convenções do suspense. Mesmo assim, o resultado final é uma obra que oscila entre o sugestivo e o derivativo, sem encontrar uma identidade cinematográfica que o diferencie de tantos thrillers genéricos. Consequentemente, Armadilha se torna lembrado mais pelo debate sobre as expectativas depositadas em seu diretor do que pela força de sua narrativa.
Armadilha (Trap, 2024 / EUA)
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Com: Josh Hartnett, Ariel Donoghue, Saleka Shyamalan, Alison Pill, Hayley Mills, Kid Cudi
Duração: 105 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Armadilha
2026-01-28T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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