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Os Guardiões
Os Guardiões
Assistindo Os Guardiões pela primeira vez, a sensação que fica é parecida com a de encontrar uma promessa grande no trailer e descobrir um filme que descuida da materialização dessa promessa em cada cena. A premissa de um esquadrão de super-heróis soviéticos criado secretamente na Guerra Fria é, em teoria, rica em possibilidades de subtexto e mitologia alternativa. Os quatro protagonistas com habilidades distintas — um homem-urso com força brutal, um guerreiro veloz com espadas curvas, um manipulador de pedras e uma mulher que fica invisível — deveriam gerar mix de caráter e contraste narrativo. Mas o que vemos de fato é um universo narrativo tratado de forma burocrática e desencantada, como se a produção tivesse memorizado cada estereótipo de super-herói ocidental e apenas tentado reproduzi-lo com poucos recursos e menos refinamento.
Os efeitos visuais, por exemplo, não são ruins por si só e há momentos em que os visuais até conseguem transmitir uma sensação tangível de poder ou transformação, mas o uso desses recursos é inconsistente e muitas vezes desconectado da narrativa. A sequência de transformação de Arsus, o homem-urso, é um exemplo disso: a sequência de absurdos, inclusive o inexplicável reaparecimento de suas calças após cada transformação, sugere que o filme não se preocupou em convencer o espectador de que aquele universo tem regras próprias.
Nesse ponto entra o diretor Sarik Andreasyan. A direção parece focada mais em preencher o tempo de tela com cenas de ação e sequências de efeito do que em desenvolver um universo cinematográfico consistente, ou seja, uma forma de contar a história que faça sentido além de impactos visuais. A forma como as lutas são editadas, com cortes frequentes, rouba ritmo e impede que se perceba qualquer coreografia de combate que possa ser memorável ou até simplesmente fluida.
O roteiro, escrito sem a necessária profundidade, também contribui para personagens que, apesar de interessantes em conceito, se tornam pouco mais que arquétipos vazios em cena. Nenhum dos protagonistas consegue um arco dramático convincente ou motivação que vá além da necessidade superficial de combater o vilão. E isso, em um gênero onde empatia e identificação emocional importam tanto quanto os efeitos, é uma falha que perpassa todo o filme.
Falando em atuações, não há aqui performances que se destaquem de forma marcante. Algumas entregam o que o roteiro pede, mas outras simplesmente parecem incapazes de elevar o material que têm em mãos. A ausência de conexão emocional entre os personagens e o público cria uma distância que torna difícil investir nas batalhas ou nas perdas apresentadas na história.
É importante destacar que o confronto final com o vilão Kuratov, que deveria ser o clímax emocional e narrativo, ao invés de culminar em tensão verdadeira, termina em algo quase anticlimático, onde a união dos heróis lembra mais uma construção gráfica padrão do que um verdadeiro coro dramático entre personagens. A tentativa de evocar emoção pelo impacto visual falha porque não há bases dramáticas sólidas para que essa emoção exista de fato.
Ainda assim, Os Guardiões pode ser entendido como um experimento do cinema de ação russo em território de super-herói, um gênero que muitos mercados cinematográficos tentaram emular depois do sucesso global de franquias como as da Marvel e DC. Em alguns instantes isolados, a ideia de um grupo diverso de heróis que reflete diferentes aspectos culturais da extinta União Soviética é uma pista interessante, mesmo que explorada de forma superficial.
Em suma, o filme falha em construir um mundo crível e emocionalmente envolvente, tropeça em diálogos pouco inspirados e se apoia demais em efeitos que raramente se traduzem em espetáculo coerente e uniforme. O resultado é um longa-metragem que atende à curiosidade de quem gosta de universos de super-heróis estrangeiros, mas que de maneira nenhuma se sustenta como um produto impactante e memorável.
Os Guardiões (Zashchitniki, 2017 / Rússia)
Direção: Sarik Andreasyan
Roteiro: Sarik Andreasyan
Com: Anton Pampushnyy, Sanzhar Madiyev, Sebastien Sisak, Alina Lanina
Duração: 89 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Os Guardiões
2026-05-11T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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