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Romeu + Julieta
Romeu + Julieta
Quando o diretor australiano Baz Luhrmann decidiu filmar sua versão de Romeu e Julieta, ele não estava interessado em fazer apenas mais uma adaptação da peça de William Shakespeare. O que ele queria era algo mais radical. A ideia era pegar uma das histórias mais famosas da literatura e colocá-la dentro de um universo que parece ter sido filtrado pela cultura pop dos anos 1990. O resultado foi Romeu + Julieta, um filme que até hoje divide opiniões e continua sendo uma das adaptações de Shakespeare mais ousadas já feitas no cinema.
Logo nos primeiros minutos, Luhrmann deixa claro que seu projeto não pretende ser discreto. A abertura simula um telejornal que anuncia a rivalidade entre Montéquios e Capuletos, seguida por um prólogo declamado na televisão. É uma forma curiosa de transformar a linguagem teatral em linguagem midiática. A tragédia renascentista vira notícia de última hora. A partir daí, o filme mergulha numa estética frenética que mistura slow motion, cortes rápidos, música pop e um uso constante de símbolos religiosos e publicidade urbana. A fictícia Verona Beach parece uma mistura de Miami, Los Angeles e um parque temático pós-moderno.
Essa estética maximalista é a marca registrada de Luhrmann. Em vez de suavizar o texto de Shakespeare para torná-lo mais acessível, ele faz o contrário. O diretor mantém boa parte do diálogo original, mas o coloca em situações absurdamente modernas. Personagens falam sobre espadas enquanto empunham pistolas cujo modelo se chama “Sword”. O efeito é curioso. Às vezes funciona como comentário irônico sobre a permanência das paixões humanas ao longo dos séculos. Em outras ocasiões, soa como um truque visual que chama mais atenção que o próprio drama.
Essa contradição aparece também nas atuações. Leonardo DiCaprio interpreta Romeu com um misto de vulnerabilidade juvenil e intensidade romântica que combina bem com o espírito da história. É um personagem impulsivo, quase infantil em suas emoções. DiCaprio ainda não era o ator tecnicamente refinado que se tornaria anos depois, mas sua presença carismática ajuda a sustentar a dimensão trágica do protagonista.
Já Claire Danes talvez seja a grande surpresa do filme. Sua Julieta não é apenas uma adolescente apaixonada. Danes sugere uma consciência precoce do risco que está correndo. Pequenos gestos revelam isso. Um olhar prolongado, um leve aceno durante a cena do casamento. São detalhes discretos que contrastam com o espetáculo visual ao redor.
Entre os coadjuvantes, dois personagens roubam várias cenas. Harold Perrineau transforma Mercútio numa figura explosiva e teatral, quase um mestre de cerimônias da tragédia. Sua interpretação mistura humor, sensualidade e desespero. Quando ele finalmente cai em combate, o filme muda de tom. A morte de Mercútio é o ponto em que a exuberância estética deixa de ser diversão e passa a carregar peso dramático.
Do outro lado está o Tybalt de John Leguizamo. Vestido como um pistoleiro latino estilizado, ele representa a violência ritualizada das famílias rivais. Cada gesto do personagem parece coreografado, como se a própria agressividade fosse uma performance. A rivalidade entre ele e os Montéquios ganha intensidade justamente porque o filme transforma o conflito em espetáculo.
O momento mais lembrado do filme talvez seja o primeiro encontro entre Romeu e Julieta. Em vez de um simples diálogo em um baile, Luhrmann cria uma cena em que os dois se observam através de um aquário. A imagem é quase literal. Dois jovens separados por um vidro, isolados do mundo ao redor. É um dos raros instantes em que a extravagância visual realmente reforça o tema da história.
Nem tudo funciona com a mesma força. O ritmo acelerado do início pode tornar o texto difícil de acompanhar, principalmente para quem não está familiarizado com Shakespeare. Em vários momentos, o estilo parece competir com o conteúdo. O filme às vezes parece mais interessado em ser um espetáculo visual do que em explorar as emoções da tragédia.
Mesmo assim, há uma sequência final que resume o potencial do projeto. No túmulo iluminado por velas e cruzes de neon, Romeu encontra Julieta aparentemente morta. Quando ele percebe tarde demais que ela ainda está viva, o desespero que atravessa o rosto de DiCaprio transforma a cena em algo profundamente humano. O exagero estético desaparece por alguns instantes. O que resta é apenas a tragédia de dois jovens que se amaram no momento errado.
O filme teve reconhecimento em premiações, vencendo o Urso de Prata de Melhor Ator e o Prêmio Alfred Bauer de Melhor Diretor no Festival de Berlim e recebendo uma indicação ao Oscar de Melhor Direção de Arte.
Quase trinta anos depois, ainda é difícil encontrar outra adaptação de Shakespeare que tenha tentado algo parecido. Alguns veem o filme como um excesso estilístico. Outros enxergam nele uma forma engenhosa de apresentar Shakespeare a uma nova geração. Acredito que as duas coisas sejam verdadeiras ao mesmo tempo. O cinema de Baz Luhrmann sempre viveu nesse limite entre o exagero e o arrebatamento. E, nesse caso específico, essa mistura caótica acaba sendo parte do charme.
Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, 1996 / Estados Unidos, Austrália)
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce
Com: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, Harold Perrineau, John Leguizamo, Pete Postlethwaite, Paul Sorvino, Miriam Margolyes
Duração: 120 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Romeu + Julieta
2026-05-22T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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