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O Poder e a Lei

O Poder e a Lei - filme

O Poder e a Lei
(2011) é um filme que se equilibra entre dois impulsos quase opostos: o de ser um thriller jurídico eficiente e o de construir um retrato mais ambíguo de moralidade. Dirigido por Brad Furman, o longa não tenta reinventar o gênero, mas sabe exatamente quais engrenagens acionar para mantê-lo em movimento.

A primeira delas é, sem dúvida, a presença de Matthew McConaughey. Há algo de quase magnético na forma como ele encarna Mickey Haller. Não é o típico advogado idealista, tampouco um vilão. Ele opera numa zona cinzenta que o ator explora com naturalidade, apoiando-se muito mais em gestos e ritmo de fala do que em grandes explosões dramáticas. É aquele tipo de atuação que parece fácil, mas que depende de um controle preciso de carisma. Em muitos momentos, você percebe que o filme se sustenta menos pela complexidade do roteiro e mais pela capacidade de McConaughey de nos convencer de que aquele homem pode manipular qualquer situação.

O Poder e a Lei - filme
Isso fica especialmente evidente em uma cena-chave no tribunal, quando Haller conduz uma estratégia que beira o teatro. Ali, o filme revela sua natureza: não estamos diante de um estudo rigoroso do sistema judicial, mas de um espetáculo sobre persuasão. A justiça, aqui, é quase um jogo de linguagem. E esse é, ao mesmo tempo, um dos grandes méritos e limitações do longa.

O roteiro, adaptado da obra de Michael Connelly, constrói uma trama que começa como um caso aparentemente simples e se desdobra em algo mais complexo, conectando passado e presente. Essa estrutura funciona bem no nível do suspense, mas às vezes se apoia demais em coincidências e revelações convenientes. Há momentos em que o filme parece acelerar para chegar à próxima virada, em vez de permitir que ela amadureça.

O Poder e a Lei - filme
Ainda assim, o elenco de apoio ajuda a dar densidade ao conjunto. Marisa Tomei traz uma energia leve e segura, funcionando como contraponto emocional ao protagonista, enquanto Ryan Phillippe constrói um antagonista que joga com a ambiguidade, ainda que sem grande profundidade psicológica. William H. Macy, como o investigador, adiciona uma camada de humanidade que o filme às vezes negligencia no seu protagonista.

Visualmente, Furman aposta em uma Los Angeles ensolarada, mas moralmente turva. Essa escolha dialoga com o noir clássico, só que invertendo sua estética tradicional. Em vez de sombras e becos escuros, temos luz e amplitude. O efeito é interessante porque sugere que a corrupção e o jogo de interesses não estão escondidos. Eles operam à vista de todos.

Talvez o aspecto mais interessante de O Poder e a Lei seja justamente sua recusa em oferecer conforto moral. Em momento algum, Mickey Haller se transforma em um herói redentor. Ele continua sendo um profissional que atua entre a ética e a conveniência, como alguém que entende o sistema e sabe explorá-lo. Não há uma jornada clássica de redenção, e isso é o que dá ao filme uma identidade própria dentro do gênero.

No fim das contas, o longa funciona melhor quando abraça seu lado de entretenimento inteligente e menos quando tenta sugerir uma profundidade que não desenvolve totalmente. Ainda assim, é um exemplo sólido de como um drama jurídico pode se manter relevante apostando mais em personagem e ritmo do que em grandes pretensões.


O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer, 2011 / Estados Unidos)
Direção: Brad Furman
Roteiro: John Romano
Com: Matthew McConaughey, Marisa Tomei, Ryan Phillippe, William H. Macy, Josh Lucas, John Leguizamo, Michael Peña, Bryan Cranston
Duração: 119 min.

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