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Matilda
Matilda
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A primeira vez que o vi entendi que Matilda não era só esperta: ela era resistente, inventiva, a nossa voz contra o mundo que prefere ignorar o potencial infantil.
A direção de Danny DeVito é um acerto de tom. Ele não infantiliza ninguém, nem aquela menina brilhante, nem aqueles pais petulantes, nem a tirânica Trunchbull. O humor é escuro e há crueldade ali, tem crianças giradas pelos cabelos, castigos impiedosos, mas tudo narrado com um brilho que diz: “há exagero, mas também há verdade”. É um equilíbrio raro: uma comédia sombria infantil que respeita a inteligência das crianças e sabe que elas percebem abusos. É um filme que confia na audiência mirim, e no adulto junto com ela.
Mara Wilson acena com ingenuidade e uma coragem discreta; ela não exagera, mas ainda assim comanda a cena. Miss Honey (Embeth Davidtz) representa o que Matilda precisa: não uma salvadora grandiosa, mas uma cúmplice que enxerga potencial e oferece afeto. Esse vínculo deles, tão simples quanto um bom diálogo e um sorriso, é o coração silencioso da história.
Pam Ferris encontra na diretora Trunchbull uma maneira de ser assustadora e caricata ao mesmo tempo, uma vilã para incomodar sonhos, mas com uma ponta de humor perverso que faz rir e gelar ao mesmo tempo. Essa transformação num corte de bolo é tão marcante que, dali em diante, o bolo nunca mais será só um bolo.
Estou falando do famoso momento “aceita um pedacinho do meu bolo?”, que é pura síntese de crueldade infantil enfrentada com bravura e astúcia que traz aquele riso que guarda uma ponta de tensão. Esse instante resume o filme: parece leve, mas pesa; é doce e, ao mesmo tempo, tem algo de amargo muito verdadeiro.
Mas nem tudo é impecável. O tom por vezes se apoia demais no contraste e pode parecer exagerado para alguns. A família idiota, o pai grotesco, a mãe apática. Ainda que a direção abrace o absurdo, falta às vezes um pouco mais de profundidade interna para os adultos que acompanham a história. Acredito que, talvez, fosse essa caricatura deliberada, quase cartunesca, que permite ao filme lidar com temas pesados sem cair no melodrama.
O charme de Matilda está nessa mistura estranha de fantasia realista. Tudo parece possível porque a imaginação transforma o banal com humor exagerado e de crença firme de que inteligência e bondade transformam realidades. Uma alegria estranha que se impõe sem ser piegas.
Hoje, ao revisitar, descubro que ele é tanto para quem cresceu assistindo quanto para quem observa pela primeira vez. Há uma força atemporal ali, um convite silencioso para abrir a mente e recusar o silêncio. E, mesmo com seus exageros, permanece uma comédia sombria infantil que age por respeito, não por dó. É disso que precisam as crianças. E os adultos também.
Matilda (Matilda, 1996 / Estados Unidos)
Direção: Danny DeVito
Roteiro: Nicholas Kazan, Robin Swicord
Com: Mara Wilson, Danny DeVito, Rhea Perlman, Embeth Davidtz, Pam Ferris
Duração: 93 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Matilda
2025-10-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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