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Lev Yashin - O Aranha Negra
Lev Yashin - O Aranha Negra
O filme Lev Yashin – O Aranha Negra funciona melhor quando aceita que está lidando com uma figura maior do que a própria narrativa. É um daqueles casos em que o personagem histórico já chega pronto, carregado de simbolismo, e o cinema precisa correr atrás para não ficar pequeno.
A história acompanha a transformação de um jovem operário inseguro em um ícone do futebol mundial. O início é especialmente interessante porque insiste no fracasso. Yashin não surge como gênio imediato, mas como alguém que falha diante de uma torcida impaciente e de um sistema político que não tolera erros. Essa escolha narrativa dá ao filme um primeiro ato mais humano do que o esperado. Ao mostrar suas falhas em campo e a pressão institucional, o longa cria uma tensão real entre talento e expectativa.
Mas à medida que a história avança, o filme começa a seguir uma cartilha mais previsível. A ascensão vem com trilha sonora crescente, montagem de treinos e partidas decisivas que, embora bem executadas, raramente surpreendem. É o tipo de biografia que prefere reforçar o mito em vez de questioná-lo.
Ainda assim, há momentos em que tudo se encaixa. Um deles é a reconstrução de uma partida em que Yashin, já consolidado, assume o controle da defesa com gestos e gritos constantes. Não é apenas sobre defender o gol, mas sobre comandar o jogo. Esse momento sintetiza bem o que o diferenciava. Ele não era um goleiro reativo, era ativo, quase um diretor em campo. Essa escolha de mise-en-scène, com a câmera acompanhando seus movimentos e sua voz ecoando, traduz visualmente algo que muitas análises históricas já destacavam.
A direção aposta em uma estética que mistura grandiosidade e contenção. Há um cuidado evidente com a reconstituição de época, especialmente na ambientação da União Soviética, com estádios, uniformes e atmosfera política. Ao mesmo tempo, o filme evita exageros estilísticos. Isso funciona em alguns momentos, mas também limita o impacto visual. Fica a sensação de que faltou ousadia para transformar o jogo em espetáculo cinematográfico.
As atuações seguem uma linha sólida, ainda que sem grandes riscos. Aleksandr Fokin, que interpreta Lev Yashin, sustenta bem a dualidade entre fragilidade e autoridade, mas raramente ultrapassa o esperado. Ele convence mais pelo físico e pela postura do que por nuances emocionais profundas. Não compromete o filme, mas impede que ele alcance um nível mais memorável.
Há um esforço claro de legitimação histórica. A produção se apoia em eventos reais e tenta reconstruir partidas e contextos com fidelidade. Isso dá credibilidade ao filme, mas também o prende a uma estrutura mais rígida. É o dilema clássico das cinebiografias. Quanto mais fiel, menos livre. E o final reforça a consagração do personagem. Com uma situação grave de câncer de estômago, Yashin recebeu no início de março de 1990, já na etapa terminal da doença, a medalha de Herói do Trabalho Socialista, a mais alta honraria da União Soviética. O seu legado está marcado como único goleiro a conquistar a Bola de Ouro e sua importância histórica no futebol mundial é algo amplamente reconhecido. Sem grandes surpresas, então, o filme escolhe encerrar com reverência, quase como um tributo.
O filme fala de algo universal. A ideia de alguém que falha repetidamente antes de se tornar lendário é sempre poderosa. E no caso de Yashin, isso ganha um peso adicional porque sua inovação mudou o próprio jogo. Ele não apenas venceu, ele redefiniu o que significava jogar naquela posição. Não é só um filme sobre futebol. Lev Yashin – O Aranha Negra é um retrato de como um sistema político transforma indivíduos em símbolos. Yashin não é apenas um atleta. Ele é uma construção coletiva, um herói moldado para representar disciplina, força e identidade nacional. O filme toca nisso, mas poderia ir mais fundo.
No fim das contas, Lev Yashin – O Aranha Negra é um filme que cumpre bem sua função de apresentar uma lenda para novas gerações, mas que raramente se arrisca a reinterpretá-la. É envolvente, respeitoso e competente, mas poderia ter sido mais ousado, mais cinematográfico, mais disposto a explorar as contradições de um homem que, dentro de campo, parecia ter mais de duas mãos, tinha cérebro.
Lev Yashin – O Aranha Negra (Лев Яшин. Вратарь моей мечты, 2019 / Rússia)
Direção: Vasiliy Chiginskiy
Roteiro: Oleg Kapanets, Vladimir Valutsky
Com: Aleksandr Fokin, Yuliya Khlynina, Aleksey Guskov
Duração: 116 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Lev Yashin - O Aranha Negra
2026-06-12T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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