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Becoming Led Zeppelin
Becoming Led Zeppelin
Quando o documentário autorizado sobre o Led Zeppelin foi anunciado, surgiu em mim uma tensão entre reverência e investigação. O risco de transformar uma das bandas mais importantes da história do rock em uma peça de museu é enorme. Becoming Led Zeppelin entende esse perigo, mas escolhe deliberadamente outro caminho. Em vez de tentar desmontar o mito, o filme de Bernard MacMahon prefere observar como esse mito nasceu. E, curiosamente, é justamente nessa limitação assumida que o documentário encontra sua força e também suas maiores fragilidades.
Existe algo de fascinante em Becoming Led Zeppelin justamente porque ele não tenta vender a ideia de decadência, destruição ou autossabotagem que normalmente domina documentários sobre bandas lendárias. O filme não quer ser um filme de bastidores. Ele quer mostrar o instante raro em que quatro músicos perceberam que estavam criando algo muito maior do que eles próprios. E isso muda o tom da narrativa.
O que mais impressiona não é necessariamente a quantidade de material raro, embora exista muito disso, mas a maneira como MacMahon organiza a evolução musical da banda quase como uma história de ficção sobre descoberta de identidade. O filme transforma ensaios, viagens, gravações e pequenos shows em capítulos de uma construção artística. Aos poucos, entende-se que o documentário está menos interessado em fatos e mais interessado em sensação. A sensação de ouvir aqueles riffs pela primeira vez. A sensação de perceber que uma banda encontrou sua linguagem definitiva.
A montagem trabalha constantemente para criar esse estado de encantamento. Há uma cadência hipnótica na forma como apresentações ao vivo surgem no meio dos depoimentos. Em muitos documentários musicais, os trechos de show funcionam apenas como ilustração. Aqui, eles são a própria narrativa. Quando “Whole Lotta Love” explode nas caixas de som, o filme praticamente abandona a função jornalística e vira experiência física. É impossível não perceber o cuidado obsessivo com a restauração sonora. E faz sentido. O Led Zeppelin nunca foi uma banda de sutileza minimalista. Era excesso, peso, volume e impacto corporal.
O momento mais forte do documentário talvez seja justamente o mais simples. Quando os integrantes sobreviventes escutam uma antiga gravação de John Bonham falando sobre a banda, o filme abandona qualquer tentativa de espetáculo e encontra algo genuinamente humano. Não há sentimentalismo manipulado na cena. O que existe é o peso do tempo. Aqueles homens já não são os deuses do rock dos anos 1970. São sobreviventes olhando para um fantasma coletivo. E a maneira silenciosa como o filme registra isso vale mais do que qualquer narração grandiosa.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar as limitações do projeto. O fato de ser um documentário autorizado claramente estabelece fronteiras invisíveis. O filme evita os conflitos, os abusos, as controvérsias e os lados mais destrutivos da trajetória da banda. Isso me soou um pouco frustrante. Há momentos em que Becoming Led Zeppelin parece um álbum de fotografias luxuoso demais para permitir rachaduras reais. A ausência dos aspectos mais turbulentos da banda cria um curioso vazio dramático. O filme vibra intensamente enquanto acompanha o nascimento do grupo, mas termina antes de enfrentar qualquer consequência da fama gigantesca que ajudou a construir.
Ainda assim, reduzir o documentário a uma propaganda seria injusto. Existe um cuidado cinematográfico muito acima da média nesse projeto. MacMahon não filma entrevistas como se estivesse produzindo conteúdo descartável. Existe composição visual, ritmo, textura. Os rostos envelhecidos de Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones são tratados quase como paisagens históricas. O diretor entende que esses homens carregam décadas de mitologia cultural no olhar. Não é necessário exagerar. Basta observá-los.
Também chama atenção como o filme desmonta parcialmente uma visão simplista do Led Zeppelin como puro hedonismo rock’n’roll. O documentário enfatiza bastante o profissionalismo técnico dos integrantes. Jimmy Page surge quase como um arquiteto sonoro obcecado por precisão. John Paul Jones aparece como um músico absurdamente sofisticado, cuja importância muitas vezes foi subestimada pelo imaginário popular. Robert Plant ainda possui um magnetismo natural impressionante, mesmo sentado apenas diante de uma câmera. E Bonham, mesmo através de arquivos, continua parecendo uma força impossível de domesticar.
Talvez o maior mérito de Becoming Led Zeppelin seja lembrar algo que frequentemente se perde quando falamos sobre bandas clássicas. Antes de serem monumentos culturais, eles eram músicos tentando descobrir até onde podiam levar o próprio som. O filme recupera essa dimensão experimental. Recupera o risco. Recupera a sensação de juventude criativa.
No fim, o documentário não é definitivo. Nem quer ser. Ele é parcial, seletivo e claramente apaixonado por seus personagens. Mas existe sinceridade nessa paixão. E, em tempos em que tantos documentários musicais parecem montados apenas para alimentar algoritmos, há algo revigorante em assistir a um filme que simplesmente acredita na força de uma banda tocando ao vivo diante de uma plateia.
Becoming Led Zeppelin funciona melhor quando para de tentar explicar o fenômeno Led Zeppelin e simplesmente permite que a música ocupe a tela. Porque talvez nunca tenha existido explicação racional mesmo. Talvez aquele encontro entre Page, Plant, Jones e Bonham tenha sido apenas um desses acidentes raríssimos da cultura pop em que talento, sincronicidade, ambição e química explodem juntos de maneira inevitável.
Becoming Led Zeppelin (2025 / Reino Unido, Estados Unidos)
Direção: Bernard MacMahon
Roteiro: Bernard MacMahon, Allison McGourty
Com: Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones, John Bonham
Duração: 122 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Becoming Led Zeppelin
2026-08-17T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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