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Casablanca
Casablanca
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme. Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida por Michael Curtiz não é apenas reencontrar um clássico, mas perceber como um produto conseguiu se transformar em um modelo quase definitivo de narrativa romântica com peso histórico.
A história é simples, quase despretensiosa. Rick Blaine, interpretado por Humphrey Bogart, é um americano cínico que administra um café em Casablanca, ponto de passagem para refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. A rotina muda quando Ilsa Lund, vivida por Ingrid Bergman, entra em cena acompanhada de Victor Laszlo, um líder da resistência. O reencontro reabre uma ferida mal cicatrizada e coloca Rick diante de uma escolha impossível.
O que poderia ser apenas mais um triângulo amoroso ganha força porque o filme nunca trata o romance isoladamente. O amor aqui é sempre atravessado por contexto político, por urgência histórica. Essa é a engrenagem que mantém o filme vivo. Não se trata apenas de quem fica com quem, mas de quem abre mão de quem e por quê.
A direção de Curtiz é um caso interessante. Não há exibicionismo formal. Nada chama atenção de maneira ostensiva. E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem. Ele constrói um espaço claustrofóbico e vibrante dentro do Rick’s Café, onde diferentes nacionalidades, interesses e tensões coexistem. É um microcosmo da guerra. A mise-en-scène trabalha sempre a favor do drama, nunca da vaidade estética.
As atuações são outro ponto decisivo. Bogart, que até então era mais associado a papéis duros e cínicos, encontra aqui um equilíbrio raro entre dureza e vulnerabilidade. Seu Rick não é um herói clássico, mas um homem ferido que aprende, aos poucos, a se posicionar. Bergman, por sua vez, constrói uma personagem que parece sempre à beira de uma decisão que nunca é totalmente dela. Isso pode soar como limitação, mas acaba reforçando o conflito central. Já Claude Rains, como o capitão Renault, rouba cenas com uma ambiguidade deliciosa, transitando entre oportunismo e humanidade.
Um dos momentos mais emblemáticos do filme acontece quando “As Time Goes By” volta a tocar. Não é só nostalgia. É uma estratégia narrativa poderosa. A música funciona como gatilho emocional, trazendo à tona um passado que o filme revela aos poucos. É nesse tipo de escolha que o roteiro mostra sua inteligência. Ele sugere mais do que explica.
O final é frequentemente lembrado, mas nem sempre compreendido em sua dimensão completa. Quando Rick decide abrir mão de Ilsa e colocá-la no avião com Laszlo, não está apenas fazendo um gesto romântico. Ele está redefinindo quem é. O homem que dizia não se envolver com nada escolhe, finalmente, um lado. A famosa ideia de que “os problemas de três pessoas não são nada diante do mundo” pode soar simplista hoje, mas dentro daquele contexto, ganha peso. É menos sobre patriotismo e mais sobre amadurecimento moral.
Vista com olhos contemporâneos, a relação entre Rick e Ilsa pode parecer comprimida, quase simbólica demais. Falta, em certos momentos, uma sensação mais concreta de intimidade. Laszlo, por sua vez, funciona mais como ideia do que como personagem. Ele representa a causa, mas raramente ganha densidade emocional. Ainda assim, essas limitações parecem pequenas diante do todo.
Como curiosidade, o roteiro foi sendo escrito e alterado durante as filmagens, e os atores muitas vezes não sabiam como a história terminaria. Isso, que poderia ser um desastre, acabou gerando uma espontaneidade emocional difícil de reproduzir. Bergman, por exemplo, interpretou várias cenas sem saber com quem sua personagem ficaria, o que adiciona uma camada de dúvida genuína ao desempenho. Ainda assim, é considerado um dos melhores roteiros de todos os tempos. E o que mais impressiona é como o filme continua funcionando hoje. Muito disso vem da sua capacidade de equilibrar elementos. Ele é ao mesmo tempo romance, drama político, entretenimento e reflexão moral. Sem excesso de explicações, algo que envelhece mal em muitos filmes clássicos, aqui, todo o subtexto continua ativo.
Casablanca permanece relevante porque fala de escolhas difíceis em tempos difíceis. E isso nunca deixa de ser atual. Em um mundo que continua lidando com deslocamentos, conflitos e dilemas éticos, a história de Rick e Ilsa ainda encontra eco. Vale a pena assistir não apenas como obrigação cinéfila, mas como experiência emocional genuína. Poucos filmes conseguem ser tão acessíveis e, ao mesmo tempo, tão densos.
Casablanca (Casablanca, 1942 / Estados Unidos)
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch
Com: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Peter Lorre
Duração: 102 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Casablanca
2026-08-05T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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