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Rashomon - Às Portas do Inferno
Rashomon - Às Portas do Inferno
Existe um momento em que o cinema deixa de apenas contar histórias e passa a investigar o próprio ato de narrar. Rashomon é um desses raros casos. O filme de Akira Kurosawa não revolucionou apenas o cinema japonês. Ele alterou profundamente a maneira como o audiovisual passou a lidar com memória, verdade e ponto de vista. O mais impressionante é perceber que isso acontece em apenas 88 minutos, sem grandiosidade épica, sem efeitos espetaculares e praticamente sustentado por diálogos, expressões faciais e pela manipulação do olhar do espectador.
A premissa parte de uma situação aparentemente direta e simples: um samurai é encontrado morto em meio à floresta, enquanto sua esposa surge marcada pela violência sofrida. Um bandido é acusado pelo crime. O caso vai sendo reconstruído através de diferentes depoimentos. O problema é que cada relato contradiz completamente o anterior. O filme transforma uma investigação criminal em algo muito mais desconfortável: uma investigação sobre a fragilidade da verdade humana.
Hoje esta estrutura de narradores não confiáveis parece familiar porque o cinema, a televisão e até videogames absorveram o chamado Efeito Rashomon como linguagem comum. Em 1950, porém, aquilo era uma ruptura radical. Kurosawa não quis apenas esconder a verdade do espectador. Ele sugeriu algo mais perturbador: talvez a verdade objetiva sequer exista quando o orgulho, o medo e a vaidade entram em cena.
O que torna o filme tão poderoso é que cada versão dos fatos revela menos sobre o crime e mais sobre quem está narrando. O bandido interpretado por Toshiro Mifune transforma a história numa aventura selvagem e viril. A esposa se coloca como vítima emocional de uma humilhação insuportável. O samurai morto, através de uma médium, descreve uma tragédia quase teatral. O lenhador parece inicialmente o observador neutro, mas aos poucos também revela suas próprias omissões. Todos manipulam a narrativa para preservar algum resquício de dignidade.
É impressionante como Kurosawa consegue diferenciar visualmente cada depoimento sem abandonar o mesmo espaço físico. A floresta muda de personalidade dependendo de quem conta a história. Em certos momentos ela parece sedutora, quase romântica. Em outros, se torna opressiva e ameaçadora. A fotografia de Kazuo Miyagawa continua moderna até hoje justamente porque não busca apenas beleza estética. A câmera atravessando a mata, encarando diretamente o sol entre as árvores, produz uma sensação física de instabilidade. Parece que a própria natureza está distorcendo os acontecimentos.
Existe uma sequência particularmente extraordinária envolvendo o duelo final entre o bandido e o samurai. Em uma das versões, a luta é heroica, elegante e quase mítica. Em outra, é patética, desajeitada e desesperada. Os homens tropeçam, sentem medo e parecem amadores tentando sobreviver. É talvez o momento mais brilhante do filme porque Kurosawa desfaz toda ideia romantizada de honra. O heroísmo depende apenas de quem está contando a história.
As atuações ajudam muito nessa sensação de deslocamento psicológico. Toshiro Mifune domina o filme com uma performance animalesca, cheia de risadas agressivas, movimentos impulsivos e uma energia quase imprevisível. Existe algo de teatral na composição, mas nunca artificial. O ator parece representar a brutalidade humana em estado puro. Já Machiko Kyo entrega talvez o trabalho emocionalmente mais complexo do longa. Sua personagem muda completamente dependendo da versão narrada. Em certos momentos ela é frágil. Em outros, manipuladora. Em outros ainda, alguém esmagado pela violência social masculina. A atriz consegue alterar pequenos gestos, postura e olhar para criar versões quase incompatíveis da mesma mulher.
Talvez o aspecto mais fascinante de Rashomon seja sua modernidade moral. O filme não oferece conforto, nem entrega respostas. Não existe um detetive brilhante revelando a solução final. Kurosawa parece muito mais interessado em expor a incapacidade humana de encarar a própria verdade. O filme sugere que mentimos não apenas para os outros, mas principalmente para nós mesmos.
Ao mesmo tempo, existe uma dimensão humanista muito forte escondida sob o cinismo da narrativa. A chuva incessante sob o portão destruído de Rashomon nos traz um ambiente quase apocalíptico. Os personagens falam como se a humanidade estivesse condenada pela mentira e pelo egoísmo. Porém o desfecho introduz um gesto inesperado de compaixão que muda completamente a atmosfera do filme. Kurosawa parece dizer que talvez a verdade absoluta seja inalcançável, mas ainda existe espaço para bondade.
Nem tudo envelhece perfeitamente. Algumas interpretações podem soar exageradas para públicos contemporâneos acostumados a um naturalismo maior. Há momentos em que a teatralidade aproxima o filme mais do palco do que do realismo cinematográfico moderno. A própria representação da violência sexual também pode gerar desconforto pela maneira ambígua como é encenada. Ainda assim, essas questões acabam funcionando mais como marcas de contexto histórico do que propriamente falhas destrutivas.
O mais impressionante é perceber como o filme continua assustadoramente atual num mundo dominado por versões conflitantes da realidade. Redes sociais, manipulação política, narrativas fabricadas, disputas ideológicas. O “Efeito Rashomon” virou praticamente uma definição do século XXI. Poucos filmes conseguem permanecer tão vivos décadas depois justamente porque falam de algo essencialmente humano.
Quando terminou Rashomon, tive a sensação de que Kurosawa não estava apenas questionando um crime específico, mas toda a relação entre memória, verdade e identidade. E essa é a conclusão mais desconfortável do filme. A verdade não é só difícil de encontrar. Ela pode ser algo que ninguém realmente queira enxergar.
Rashomon - Às Portas do Inferno (Rashômon, 1951 / Japão)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Ryūnosuke Akutagawa
Com: Toshirō Mifune, Machiko Kyō, Takashi Shimura, Masayuki Mori, Minoru Chiaki
Duração: 88 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Rashomon - Às Portas do Inferno
2026-08-28T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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