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Muito Além do Cidadão Kane

Muito Além do Cidadão Kane - filme

Há filmes que continuam voltando à conversa pública porque as questões que levantaram ainda não foram resolvidas. Muito Além do Cidadão Kane, documentário britânico dirigido por Simon Hartog em 1993, pertence claramente à esta categoria. À primeira vista, o filme parece ser simplesmente uma investigação sobre a Rede Globo, Roberto Marinho e a influência da televisão brasileira na política. Mas reduzir a obra a isso é perder seu aspecto mais interessante. O que Hartog procura discutir é algo maior: o poder de quem controla os meios pelos quais uma sociedade recebe informação, entretenimento e interpretações sobre a própria realidade.

O título já anuncia a provocação. A referência a Cidadão Kane, de Orson Welles, estabelece uma comparação entre Charles Foster Kane, o magnata da imprensa criado pelo cinema, e Roberto Marinho, empresário que construiu um dos maiores grupos de comunicação do Brasil. A analogia é deliberadamente provocativa porque, nos dois casos, comunicação e poder econômico aparecem profundamente ligados à influência política.

Muito Além do Cidadão Kane - filme
Hartog
constrói o documentário principalmente através de entrevistas, imagens de arquivo e material televisivo. Não existe uma preocupação estética particularmente sofisticada. A força está na montagem, que organiza depoimentos e acontecimentos históricos para sustentar uma determinada interpretação sobre a atuação da Globo e sua relação com o poder. Entre os entrevistados estão figuras como Chico Buarque, Leonel Brizola, Dias Gomes, Walter Clark, Armando Nogueira, Washington Olivetto e Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, as testemunhas não são personagens como a gente costuma imaginar, mas dão diferentes pontos de vista para a investigação.

E aqui está uma das principais virtudes do filme. A televisão deixa de ser apenas o assunto e passa a funcionar como personagem. Hartog procura mostrar como uma emissora pode influenciar a percepção coletiva dos acontecimentos ao selecionar notícias, imagens e interpretações. O documentário concentra boa parte de sua investigação na relação entre a Rede Globo e acontecimentos políticos importantes, incluindo a ditadura militar, a eleição de 1982 no Rio de Janeiro, o movimento das Diretas Já e a eleição presidencial de 1989. O objetivo é mostrar que a influência da televisão não se restringia ao entretenimento, alcançando também o debate político e a formação da opinião pública.

É nesse ponto que Muito Além do Cidadão Kane continua provocador. Produzido em 1993, o filme pertence a uma época em que a televisão aberta tinha uma centralidade muito maior na vida dos brasileiros. Não existiam redes sociais, YouTube ou a atual fragmentação da informação. A tecnologia mudou, mas o problema não desapareceu. Se antes o poder estava concentrado em grandes emissoras, hoje ele também está distribuído entre plataformas digitais, redes sociais, influenciadores e sistemas de recomendação. A disputa pelo controle da atenção continua existindo e a pergunta fundamental permanece atual: quem controla os canais pelos quais uma sociedade recebe suas histórias?

Muito Além do Cidadão Kane - filme
Mas o documentário também tem limitações. Sua posição crítica em relação à Globo é evidente, e a estrutura narrativa trabalha claramente para sustentar essa tese. Isso dá ao filme força política, mas reduz o espaço para argumentos contrários. Em alguns momentos, a montagem parece mais interessada em convencer o espectador do que em permitir que ele chegue sozinho às conclusões. Isso não significa que Muito Além do Cidadão Kane seja simplesmente propaganda. Um documentário não precisa ser neutro para ser relevante. O problema aparece quando a argumentação se torna tão direcionada que algumas questões deixam de ser investigadas com a mesma profundidade.

Essa característica, aliás, produz uma contradição cinematográfica bastante interessante. O filme questiona a maneira como a televisão seleciona e organiza a realidade para produzir determinados sentidos, mas ele próprio seleciona e organiza imagens, depoimentos e acontecimentos para construir sua própria tese. É justamente aí que Simon Hartog demonstra sua principal qualidade como diretor. O trabalho está na organização do material. Uma declaração é colocada ao lado de determinada imagem, um acontecimento histórico é recuperado através de arquivos televisivos, uma fala ganha outro significado quando confrontada com outra. A montagem é o argumento. Aos poucos, a televisão deixa de parecer apenas uma empresa de comunicação e passa a ser apresentada como uma estrutura capaz de participar da construção da realidade política brasileira.

Muito Além do Cidadão Kane é inevitavelmente um documento de sua época. Sua linguagem jornalística, suas imagens televisivas e sua estrutura pertencem aos anos 1990. Mas o assunto continua desconfortavelmente atual. Não considero o documentário uma obra definitiva sobre a Rede Globo, nem acho que todas as suas conclusões devam ser aceitas sem questionamento. Seu viés é evidente e algumas de suas estratégias argumentativas podem ser contestadas. Mas isso não diminui sua importância como documento cinematográfico e político.


Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane, 1993 / Reino Unido)
Direção: Simon Hartog
Roteiro: Simon Hartog
Com: Leonel Brizola, Chico Buarque, Walter Clark, Dias Gomes, Luiz Inácio Lula da Silva, Antônio Carlos Magalhães, Armando Nogueira, Washington Olivetto, Gabriel Priolli, Roberto Marinho
Duração: 93 min.

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