Elton John: Never Too Late
Elton John: Never Too Late é um documentário que não apenas se propõe a recontar a trajetória de um dos maiores ícones da música pop, mas também a apresentar uma rara vulnerabilidade do artista, revelando suas angústias e seus triunfos. Lançado em 2024 e dirigido por R.J. Cutler e David Furnish, o filme acompanha o que poderia ser considerado a culminância de uma carreira monumental, celebrando um capítulo final de despedida. O que se observa é uma obra que traz à tona as complexidades de Elton John, ao mesmo tempo que satisfaz os fãs de longa data e educa uma nova geração sobre sua importância.
Ao longo dos 102 minutos de filme, somos levados em uma viagem nostálgica fresca que vai da infância de Elton, em um lar conflituoso, até seus primeiros passos nos palcos, onde rapidamente se transforma em uma superestrela do rock. Cutler e Furnish empregam uma narrativa temporal, equilibrando momentos de grande euforia, como seus icônicos concertos ao vivo, a uma honestidade que explora a tristeza e os desafios que acompanharam sua ascensão. O tom amigável do documentário, fundamentado em uma conversa intimista que Elton parece ter consigo mesmo, é apenas reforçado pelas imagens de seus shows e do arquivo visual que resgata momentos chave de sua carreira.
Uma das partes mais emocionantes e marcantes do filme culmina no concerto de despedida no Dodger Stadium, um local carregado de simbolismo, não apenas pelo seu papel crucial na carreira de Elton John durante os anos 70, mas porque ali ele buscou encerrar um ciclo pessoal e profissional. É uma cena repleta de emoção, onde Elton é acompanhado por sua família — um momento que, mais do que um desfecho artístico, se torna um testemunho de suas lutas pessoais e conquistas. O discurso sincero que ele faz, sobre amor e sobre os fantasmas do passado que carregou, ecoa uma mensagem essencial: nunca é tarde demais para encontrar felicidade e amor.
No que diz respeito à direção, R.J. Cutler e David Furnish demonstram uma sensibilidade notável ao capturar a essência de Elton. A escolha de intercalar entrevistas com imagens da sua trajetória, alternando entre o passado e o presente, proporciona uma experiência interativa que cativa não apenas os admiradores, mas também aqueles que estão conhecendo sua história pela primeira vez. O uso de música como fio condutor é também um elemento potente, funcionando como uma trilha sonora emocional que liga os momentos de triunfo às suas lutas pessoais e reafirma o que Elton sempre foi: não apenas um excelente performer, mas um contador de histórias por meio de suas canções.
Em termos de produção, o filme se destaca pela qualidade visual e pela narrativa coesa, mas peca pela falta de uma perspectiva mais crítica e aprofundada sobre a figura pública que Elton John representa. A entrega emocional é inegável, mas ao mesmo tempo, a falta de um olhar mais pluridimensional resulta em um retrato que, em certos momentos, pode parecer um pouco idealizado demais. O documentário parece estar mais interessado em criar um "bom sentimento" do que em explorar as complexidades mais sombrias que moldaram o artista. A mim, me marcou a aparição de John Lennon, principalmente pela sua presença e pelo momento em que acontece.
O filme tem um tom de homenagem oficial que parece superficial em alguns pontos. Em comparação com obras mais ousadas e reveladoras, o documentário se inibe diante de embates mais complexos relacionados às suas relações amorosas e ao vício em drogas, temas que são abordados, mas sem o peso que poderiam ter sido visualizados através de diferentes perspectivas. E a ausência de vozes contrastantes para elucidar algumas de suas decisões e consequências, especialmente durante a fase mais sombria de sua vida, levanta questões sobre o controle que o artista deve impor sobre sua narrativa.
Em resumo, Elton John: Never Too Late é uma jornada cheia de emoção e reflexão, revelando a dualidade da vida de Elton John: tanto o exuberante quanto o vulnerável. É uma obra que vale a pena assistir, especialmente para aqueles que apreciam a música como uma forma de arte que excede o mero entretenimento. O filme, por suas nuances e falhas, sugere que a viagem de Elton está longe de terminar; talvez o melhor ainda esteja por vir, mesmo após as cortinas do palco se fecharem. Ele nos lembra, com serenidade e honestidade, que, de fato, nunca é tarde demais para abraçar a vida e suas realidades complexas.
Elton John: Never Too Late (Elton John: Never Too Late, 2024 / EUA)
Direção: R.J. Cutler, David Furnish
Com: Elton John
Duração: 102 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Elton John: Never Too Late
2025-02-28T08:30:00-03:00
Ari Cabral
critica|documentario|Elton John|musical|oscar 2025|R.J. Cutler|
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