O Lutador
Poucos filmes conseguem atravessar a barreira do drama para se tornar confissão. O Lutador (The Wrestler, 2008), de Darren Aronofsky, é um desses raros casos em que o cinema não apenas representa, mas desnuda. Não há truques de roteiro, reviravoltas artificiais ou metáforas difíceis de decifrar: o que vemos é um homem despido de glória, agarrado a uma vida que já lhe escapou, tentando manter-se de pé num ringue vazio que ecoa como uma arena emocional. E nesse centro, Mickey Rourke não interpreta; ele se oferece, de corpo e alma, como sacrifício.
Aronofsky, até então conhecido por estilizações intensas como Réquiem para um Sonho e Fonte da Vida, surpreende ao optar aqui por uma abordagem quase documental. A câmera na mão segue Randy "The Ram" Robinson em planos médios e closes persistentes, como um cão fiel atrás de um dono cambaleante. A linguagem visual aproxima o espectador da carne exposta do personagem. E há muito de carne aqui: suor, sangue, cicatrizes, e principalmente, a carne que já não tem mais brilho, mas carrega memória.
O roteiro de Robert D. Siegel é econômico e direto, como os diálogos secos de um homem que já gritou demais e agora apenas murmura. Randy, ex-glória da luta livre dos anos 1980, vive hoje em um mundo que não o quer mais, dormindo em trailers, revezando entre prateleiras de supermercado e ringues clandestinos, onde corpos se estatelam sobre mesas quebradas como um espetáculo decadente de resistência. O texto evita dramatizações óbvias, e o peso do enredo recai sobre silêncios e gestos: o olhar de Randy diante de um fã nostálgico, o desconforto de sua filha ao vê-lo reaparecer, a recusa de Cassidy (Marisa Tomei) em atravessar as linhas que ela mesma impôs. Cada um desses momentos é um golpe mais duro do que qualquer cadeira de ferro.
Rourke, aqui, é mais do que o protagonista: ele é o filme. A escolha do ator, mais do que inspirada, é metalinguística. Como Randy, Rourke conheceu o sucesso nos anos 80, caiu no ostracismo, teve o rosto deformado (literal e simbolicamente) e viu sua carreira ser quase apagada. Em O Lutador, ele não está apenas atuando: ele está se reconciliando com a própria história. Seus silêncios são densos, suas falas carregadas de uma verdade que escapa aos manuais de interpretação. A cena em que se desculpa com a filha (Evan Rachel Wood) é talvez o momento mais emocionalmente devastador do filme, não por ser grandioso, mas por ser cru. É ali que se revela o verdadeiro protagonista: a vergonha.
Marisa Tomei, por sua vez, também entrega uma atuação de grande intensidade. Como Cassidy, stripper que já não se encaixa no palco que a juventude exige, ela espelha Randy, dois corpos, duas performances, duas figuras em fim de carreira. Tomei transita entre a sedução ensaiada e a fragilidade contida com grande sutileza. Sua dança, despida de fetiche, é uma coreografia de sobrevivência.
A montagem aposta em cortes secos, quase abruptos, como se o próprio filme tivesse medo de permanecer tempo demais em cenas desconfortáveis. A fotografia, sem filtros estéticos ou polimentos, reforça o realismo do enredo, com locações suburbanas, iluminação natural e tons pálidos que evocam um mundo cansado. Há uma estética de decadência, mas jamais de deboche: Aronofsky olha para Randy com empatia, mas sem piedade.
Se há um momento que resume toda a carga simbólica do filme, é a sequência final, no ringue, quando Randy, contra todas as recomendações médicas, decide encarar mais um último voo do carneiro. O público grita seu nome, mas sabemos, e ele também sabe, que aquilo não é mais vitória, é ritual. Randy não luta mais contra um oponente; luta contra o tempo, contra o esquecimento, contra a própria irrelevância. A câmera sobe com ele, mas não mostra o impacto. Aronofsky corta para o preto. E no escuro, ficamos apenas com o som do coração, o dele e, talvez, o nosso.
Por mais que o filme conquiste pela sinceridade e intensidade emocional, não escapa de pequenas limitações. Alguns personagens secundários não têm o mesmo desenvolvimento que os protagonistas, e há certa previsibilidade na trajetória de queda e redenção de Randy. O arco com a filha, embora comovente, resolve-se de forma apressada e poderia ter tido mais nuances. Ainda assim, são pontos menores diante da força dramática do conjunto.
O Lutador é cinema de verdade: sem disfarces, sem vaidade, sem maquiagem. Um estudo de personagem que toca fundo porque parte da verdade, não só do personagem, mas do ator, do diretor, de todos nós. Em tempos de narrativas grandiosas e heróis imbatíveis, há algo profundamente humano, e doloroso, em ver alguém caindo, tentando se levantar, e caindo de novo. Talvez porque, no fundo, todos sejamos um pouco como Randy: ex-campeões em alguma arena invisível, lutando para continuar sendo lembrados.
O Lutador (The Wrestler, 2008 / Estados Unidos)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Robert D. Siegel
Com: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
Duração: 109 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Lutador
2025-07-21T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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