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A Lenda de Candyman
A Lenda de Candyman
A Lenda de Candyman (2021) é um filme que se propõe, antes de tudo, a recontar o mito não como simples espetáculo de horror, mas como um espelho daquilo que o horror social nos impõe. Um trabalho ambicioso, em muitos momentos bem-sucedido, mas que nem sempre escapa dos dilemas de quem quer fazer arte envolta em causas.
Nia DaCosta assume a direção com coragem: não ignora as raízes do filme original de 1992, dirigido por Bernard Rose, mas também recusa-se a repetir seu esquema narrativo como um molde imutável. Em vez disso, ela expande o Candyman além da lenda urbana de espelho e invocação e promove uma fusão entre o sobrenatural e uma crítica concreta ao racismo estrutural, à gentrificação, à história de violência e silenciamento que molda bairros como Cabrini-Green, em Chicago. Essa ambição social é, para mim, o eixo que dá ao novo filme sua força mais visceral: não é só assustar, é fazer o espectador pensar em quem ficou de fora, quem foi esquecido, quem teve seu corpo transformado em metáfora de medo coletivo.
Yahya Abdul-Mateen II tem uma tarefa difícil: não somente reinterpretar o conflito de Anthony McCoy, artista negro em crise criativa, mas também manter presença física e simbólica frente ao monstro que ele irá, de certa forma, representar. E ele entrega momentos de intensidade, tanto nas cenas em que o artista se confronta com sua própria identidade quanto nas passagens em que precisa transitar entre o real e o mítico com credibilidade. Teyonah Parris como Brianna Cartwright oferece a perspectiva relacional que amarra o humano: seus dilemas profissionais, sua pressão pessoal, tudo isso traduz a tensão de quem vive imersa no sistema que falha em reconhecer valor, voz, arte de pessoas negras. Colman Domingo empresta gravidade narrativa, mesmo quando o roteiro o utiliza em papel que por vezes parece figura simbólica ou menor, funcional ao arco mais amplo.
Visualmente, o filme brilha nos momentos em que aposta no contraste. Luz e sombra conversam, espelhos e reflexos são usados não como truque de gênero, mas como extensão temática. A cena de abertura, com seus arranha-céus refletidos, tombados, invertidos quase como se o espaço físico estivesse sendo questionado, é exemplar: já ali o filme mostra que o horror vai além do monstro, ele está no entorno. Também há uma cena que sobressai como uma das mais fortes: a de terror psicológico, imposta quase sem mostrar muito, mas sugerindo e evocando, justamente quando os protagonistas enfrentam um espelho.
Mas nem tudo funciona de modo perfeito. De tempos em tempos, a narrativa hesita. Em vez de construir gradualmente a atmosfera de terror, o filme algumas vezes recorre a choques visuais explícitos, como violência gráfica, feridas e sangue. Causam impacto, mas menos tensão duradoura. Há momentos em que a crítica social pesa tanto que sobra teoria e falta imersão emocional: o diálogo sobre o que “dizer o nome cinco vezes” ou “say his name” aparece repetido, quase como um slogan, ao invés de emergir organicamente do arco dos personagens. O final resolve o arco de modo digno, mas deixa lacunas: algumas subtramas, como as relacionadas com mediação artística, crítica do público e a missão de Anthony, poderiam ter sido mais densas.
Apesar disso, em muitos aspectos A Lenda de Candyman merece ser visto por sua estética cuidada, pela coragem em colocar em primeiro plano artistas negros, pela forma como usa horror e sobrenatural não só para assustar, mas para expor trauma, memória e violência social. Em um momento histórico de questionamentos urgentes sobre raça, desigualdade e representação, este filme dialoga com o presente sem deixar de honrar o passado do gênero de terror, dos slashers aos profundos contos urbanos, e é nessa interseção que ele encontra seu valor mais duradouro.
A Lenda de Candyman (Candyman, 2021 / Estados Unidos, Canadá)
Direção: Nia DaCosta
Roteiro: Jordan Peele, Win Rosenfeld, Nia DaCosta
Com: Yahya Abdul-Mateen II, Teyonah Parris, Colman Domingo, Nathan Stewart-Jarrett, Vanessa Estelle Williams, Tony Todd
Duração: 91 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
A Lenda de Candyman
2025-10-27T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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