Fragmentos de memória, sentimentos, sensações. São elementos abstratos difíceis de serem filmados. Talvez esse seja o maior mérito do filme de Charlotte Wels, transportar para tela o impalpável, nos colocando no lugar de Sophie e suas recordações do pai.
Aftersun
Fragmentos de memória, sentimentos, sensações. São elementos abstratos difíceis de serem filmados. Talvez esse seja o maior mérito do filme de Charlotte Wels, transportar para tela o impalpável, nos colocando no lugar de Sophie e suas recordações do pai.
Aftersun é sobre a relação de um pai e uma filha. Um pai não exatamente ausente, mas que se distanciou após a separação. De uma filha que está em processo de crescimento. E de um verão em que passaram juntos. É sobre esse processo de recordar e as sensações desse mergulho no passado.
A proposta do roteiro não-linear é seguir essas memórias misturando técnicas, em especial a montagem também fragmentada e imagens em câmera minidv gravadas pelas personagens. O jogo entre o momento presente, as memórias e os registros da câmera provocam um efeito especial de sensações e sentimentos que nos aproximam ainda mais da protagonista.
O ritmo estabelecido na boate da cena inicial e o abrir e fechar dos olhos que buscam essas imagens remetem também a essa composição que o cinema é capaz de proporcionar. Tal qual o russo Vertov com sua técnica de Kinoglaz, Charlotte Wels buscar esse olhar da câmera em comunhão com olhar de sua protagonista que vasculha sua memória a procura da imagem do pai.
Há também uma sensação de nostalgia e reflexão sobre a vida, em especial na frase repetida “onde você de onze anos imaginava estar hoje?” Uma reflexão comum de comparação entre a expectativa do que queremos ser “quando crescer” e o que nos tornamos de fato. Algo já explorado em alguns filmes, mas que aqui ganha uma camada a mais no embate temporal que mistura as expectativas e realidade de pai e filha.
Entre o real e o simbólico, a fotografia também não dá representações diversas como o reflexo da menina com a câmera na televisão ou o reflexo do pai no tampo da mesa. A construção das cenas e a arte jogam com as expectativas trazendo camadas como as cenas da piscina que ganham maior significado quando vemos a cena no mar, por exemplo.
O fato é que Aftersun é uma experiência fílmica rica em diversos aspectos. Sensações e sentimentos dosados em uma narrativa inventiva com uma linguagem cinematográfica admirável daquelas obras que te arrebatam desde a primeira exibição.
Aftersun (2022 / Reino Unido)
Direção: Charlotte Wells
Roteiro: Charlotte Wells
Com: Paul Mescal, Frankie Corio, Ruby Thompson, Celia Rowlson-Hall
Duração: 102 min
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Aftersun
2023-01-11T10:47:00-03:00
Amanda Aouad
charlotte wels|cinema|cinema europeu|critica|oscar2023|
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