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Correndo Atrás
Correndo Atrás
Quando resolvi me debruçar sobre este filme, fui disposto a encontrar um filme brasileiro que pudesse equilibrar leveza de comédia com a densidade de uma experiência humana honesta. Correndo Atrás, de Jeferson De, tinha isso em potencial: um filme que fala de futebol, mas também de identidades, de trajetórias negras e do sonho econômico em um país desigual. O que me provocou não foi o acerto pleno, mas justamente os pontos de tensão: onde o filme acerta e onde ele tropeça.
Logo de início, fui fisgado pelo visual. A paleta de cores em tons terrosos, ocres e filtros quentes, incendeia a tela com uma brasilidade visual e há um cuidado tamanho com a pele negra, luzes e contrastes que não posso ignorar. Certos enquadramentos, como o diálogo ao anoitecer entre Ventania e Glanderson no campo de terra, ficam impregnados na memória, não pela dramaticidade forçada, mas pela composição silenciosa que fala por si. Esse equilíbrio entre imagem e silêncio era uma promessa que, infelizmente, nem sempre encontra eco no roteiro.
Ventania (Aílton Graça) é o personagem que carrega o filme com uma força própria. Ele vive na malandragem carioca, não como clichê, mas como sobrevivência. Mesmo nos momentos mais rasos, sua presença domina os quadros: seu carisma, sua fisicalidade, sua voz cansada de quem carrega débitos literais e simbólicos. Ele comanda muitos planos, ainda que lhe faltem contextos mais robustos. Já Glanderson (Juan Paiva), jovem com apenas três dedos no pé direito, mas dotado de talento, é o eixo da trama, um sonho a ser moldado. A relação entre eles, empresário e protegido, poderia ser terreno fértil para tensão moral e emocional e, às vezes rende, mas com frequência é empurrada pela convenção da trama de superação.
Esse é o primeiro grande desafio do filme: o roteiro parece acorrentado a fórmulas seguras. Poderia explorar nuances dos personagens secundários, como o histórico de Ventania como ex-jogador, sua relação com a ex-mulher, seus vínculos no bairro. Muitos desses elementos servem apenas como floreios episódicos: aparecem, cumprem função e desaparecem. As participações de Lázaro Ramos, Tonico Pereira ou Juliana Alves aparecem e somem, sem estrutura significativa que justifique suas presenças. O “golpe em São Paulo”, que poderia ser um momento de virada sincera, é tratado com pressa, quase como se soubéssemos o desfecho, sem suspense ou textura dramática.
O humor também sofre com essa previsibilidade. Piadas repetem fórmulas de comédia leve, diálogos buscam risadas fáceis e, às vezes, soam como uma fórmula. Quando o filme tenta inserir a tensão de ameaças, negociações ou conflitos, o equilíbrio falha e vira caricatura. Isso enfraquece o arco da narrativa. Se o público não consegue duvidar do destino dos personagens, a tensão se resolve antes de atingir picos verdadeiros. O final, um momento de quase humor involuntário, reforça essa sensação de que o filme quis abraçar muito, mas apertou pouco.
Mas não deixo de ver mérito nas intenções. A representatividade negra está no centro, não como discurso panfletário, mas como condição de existência. Que o elenco principal seja majoritariamente negro não é detalhe: é escolha estética, política e simbólica. Que Ventania e Glanderson sejam personagens capazes, falhos, luminosos e humanos é um alento. E há momentos em que o filme consegue romper o ruído previsível: uma expressão sutil, um silêncio de tensão, uma imagem que respira.
Para mim, o instante mais marcante não é o grande plot, mas quando Ventania, com o cansaço acumulado da vida, caminha entre o público em um estádio modesto; ele olha para Glanderson jogando no campo, a torcida modesta, e há um silêncio coletivo. A câmera fixa, quase sem cortes, desliza no rosto dele: ali reside a promessa do sonho, a fadiga da espera, o desejo de ascensão. Nesse momento, a proposta visual e emocional conversam e vemos mais do que se ouve. Esse é o tipo de cena que dá alento ao filme, e que me faz pensar que, apesar dos tropeços narrativos, há ali um autor com algo a dizer.
Mas é justamente por esses tropeços que sinto que Correndo Atrás nunca chega a cumprir sua ambição. A estrutura dramática é funcional, mas não reluz. A estética muitas vezes supera o texto. Há muita promessa, mas o jogo se perde quando as engrenagens narrativas não se conectam com intensidade. Se o roteiro fosse mais arriscado, talvez o filme tivesse provocado mais.
Ainda assim, recomendo assistir, principalmente para apreciar o quanto o cinema nacional pode e deve ousar em cores e identidades. E para lembrar que, no fundo, estamos todos correndo atrás: de sonhos, reconhecimento e possibilidades.
Correndo Atrás (Correndo Atrás, 2018 / Brasil)
Direção: Jeferson De
Roteiro: Jeferson De e Hélio de la Peña
Com: Aílton Graça, Juan Paiva, Juliana Alves, Hélio de la Peña, Lázaro Ramos, Tonico Pereira
Duração: 90 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Correndo Atrás
2025-11-28T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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