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Doce País
Doce País
Quando se exibe à luz do deserto australiano, Doce País (2017) não se oferece com brandura: é um filme que empalidece qualquer romantização do western clássico. A obra de Warwick Thornton assume logo de cara seu tom impassível e cortante, e convida o espectador não a admirar, mas a sentir o peso de uma terra arrebatada e de um povo que, apesar de habitar aquele território há milênios, é transformado em sombra. Um povo dominado pela lógica branca da lei e da “civilização”.
A narrativa gira em torno de Sam Kelly (Hamilton Morris), um aborígene que trabalha como criado para o reverendo Fred Smith (Sam Neill). Há certa paz aparente nessa relação desigual, até que surge Harry March (Ewen Leslie), um veterano de guerra perturbado que, embriagado pela arrogância de sua posse sobre tudo e todos, maltrata Sam e sua mulher, Lizzie (Natassia Gorey Furber). Em defesa própria, ele mata March, mas naquele contexto o gesto não basta como justificativa. A partir daí, inicia-se uma caçada implacável liderada pelo sargento Fletcher (Bryan Brown), e o filme descamba para um confronto brutal entre a “justiça” branca institucional e o direito de sobrevivência indígena.
O que impressiona é como Thornton faz pouco uso de diálogos expansivos; em vez disso, privilegia o silêncio, os espaços, o calor sufocante e a aridez dos ambientes. Em muitos momentos, a câmera se detém em objetos, como uma panela fervendo, um relógio caído e ossos secos. Cada fragmento material carrega história e tensões não verbalizadas. Essa economia narrativa exige do espectador uma presença ativa: você observa as cicatrizes no rosto de Sam, o suor dos perseguidos, a impassividade da paisagem, e tudo isso murmura o que não pode ser verbalizado naquele mundo.
A estética do filme funciona como punhal. Em cenas amplas, o deserto parece engolir os personagens: uma bela metáfora para a opressão silenciosa e radical. Em enquadramentos mais estreitos, paredes, janelas e portas comprimem os corpos, sugerindo que, em solo “colonizado”, não há verdadeiros espaços livres para aqueles considerados “outros”. A alternância entre panorâmicas e planos fechados cria uma oscilação tensa entre vastidão e claustrofobia, entre o direito ancestral e a ocupação violenta.
Hamilton Morris entrega uma performance de contenção impressionante. São poucos gestos, mas um interior que pulsa sob a pele. Sua esposa Lizzie, então, comunica muito pelo olhar: uma presença silenciosa, sempre alerta. Contrapondo-se a eles, Bryan Brown incorpora Fletcher com frieza calculista: ele é o braço endurecido da ordem colonial, disposto a subjugar por lei ou por força. Sam Neill, embora com participação menor, atua como ponte moral. É o homem branco que tenta temperar a violência de seu grupo, mas cujas boas intenções não anulam o sistema opressor que ele representa.
Entre os momentos memoráveis, é impossível esquecer a virada narrativa no último terço, quando Doce País deixa de ser apenas caça e fuga para se converter numa reflexão incômoda sobre a Lei. Quando o aparato jurídico entra em cena, com o juiz Taylor (Matt Day), vemos que nada ali é neutro. A balança da justiça racial já está viciada, e Sam sabe disso. O ponto culminante não é um duelo cinematográfico: é um judiciário que fala em “propriedade”, “vandalismo”, “autodefesa”, mas que calcula tudo sob uma lente distorcida de poder. Quando o veredicto é anunciado, um silêncio pesado se instala, e a tela parece pulsar com o grito contido dos marginalizados.
Apesar disso, a narrativa possui uma lentidão deliberada que por vezes pende à monotonia: há instantes em que o filme poderia se beneficiar de menor dilatação. Também alguns saltos de montagem e inserções visuais, embora funcionem poeticamente, correm o risco de dispersar o ritmo. Em poucas cenas, a articulação simbólica parece forçada, como se Thornton quisesse garantir que o significado não escapasse de quem assiste. Há momentos em que o filme parece flertar com o exercício artístico em detrimento da contundência narrativa, especialmente para quem espera um western clássico.
Mesmo assim, esses deslizes são menores frente ao impacto global da obra. Doce País nos sugere que não basta contar uma história de racismo: é preciso que ela respire, que o espectador sinta o calor queimando a pele dos indígenas e perceba que aquela terra “amada” pertence muito mais a quem foi usurpada do que a quem a reivindica. A beleza poética, então, não encanta: rasga, denuncia, expõe a ferida aberta da colonização.
Em última instância, Doce País é um filme que resiste à complacência. Ele não promete conforto, não oferece catarse fácil. Ele cobra memória, reexamina o mito da civilização e devolve ao espectador um espelho incômodo. Ao fim, fica uma pergunta pungente: que chance tem este país? E a resposta que o filme nos instiga não é consoladora, mas absolutamente necessária.
Doce País (Sweet Country, 2017 / Austrália)
Direção: Warwick Thornton
Roteiro: Steven McGregor, David Tranter
Com: Hamilton Morris, Bryan Brown, Sam Neill, Natassia Gorey Furber
Duração: 113 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Doce País
2025-11-14T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Bryan Brown|cinema oceanico|critica|drama|faroeste|Hamilton Morris|Natassia Gorey Furber|protagonismo negro|Sam Neill|Warwick Thornton|
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