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Mar de Fogo
Mar de Fogo
Assistir a Mar de Fogo (2004) é como revisitar uma expedição. Não tanto no sentido épico-clássico de sobrevivência, mas numa jornada de expectativas, contradições e charme nostálgico. Estamos diante de um longa, dirigido por Joe Johnston, que aposta no exotismo do deserto, na aventura de longa distância e na mística de um grande cavalo, com Viggo Mortensen no papel do seu cavaleiro Frank Hopkins, e Omar Sharif como o sheik árabe que o convida para a corrida lendária. O problema é que a ambição do filme de ser uma espécie de fábula grandiosa de superação, companheirismo e exotismo se choca com a fragilidade de seu roteiro e com um empenho de encher telas mais do que corações.
Há certamente méritos visuais. O deserto árabe trazido à tela tem seu fascínio. A vastidão das areias, o calor escaldante, a dureza de uma travessia de milhares de quilômetros montado num mustangue, tudo isso imprime uma visão de mundo dura, mas sugestiva, com imagens capazes de remeter a clássicos do gênero de deserto e aventura, como O Regresso do Corcel Negro (1983). As sequências de corrida e resistência do cavalo e do cavaleiro funcionam como espetáculo: há momentos em que sentimos o pó, o cansaço, o peso da areia e da jornada. Mortensen, às vezes, parece confortável no lombo de Hidalgo, transmitindo uma mistura de determinação e fragilidade que dá humanidade a Hopkins. Sharif aparece como presença serena e paternal, lembrando seus papéis antigos, oferecendo dignidade a um Oriente muitas vezes reduzido a estereótipos em Hollywood.
Mas é justamente aí que o filme se quebra. O roteiro de John Fusco aposta tanto na grandiloquência da história real dramatizada, na corrida lendária, nos conflitos culturais, no romance previsível, que acaba escorregando em clichês da Árabia exótica e da superação americana. A trama tenta dar densidade histórica e social às narrativas de conflito de identidade racial, defesa da raça mustangue como símbolo de mestiçagem, confronto de culturas entre Ocidente, nativo americano e Oriente, mas o enredo falha em sustentar essas ambições com consistência. A tal corrida lendária, o Mar de Fogo, é algo que historiadores duvidam que tenha existido, a suposta biografia de Hopkins é contestável e o desfecho, previsível, entrega uma fábula redentora. Esse tipo de abordagem de fantasia, pintada como baseada em fatos, exige do diretor e do roteirista uma sensibilidade para dramatizar sem cair na pieguice ou no estetismo fácil. Infelizmente, aqui o esteticismo vence.
Há ainda desequilíbrios de ritmo. O filme, com quase duas horas e meia, por vezes se arrasta, especialmente em trechos de ação que parecem feitos mais para encher a tela do que para construir tensão real. A tal sequência que envolve resgate da filha do sheik desloca-se do tema central do filme: a corrida, os desertos, o cavalo, a prova de resistência. E isso quebra o ritmo da narrativa de aventura, prejudicando a imersão. Ao invés de fortalecer o drama, esses momentos parecem deslocados, superficiais, evidenciando a impossibilidade de conciliar tantos objetivos num só filme, sem perder coesão.
Mesmo assim, Mar de Fogo conserva um tipo de encanto que hoje parece ser sincero. A relação entre cavalo e cavaleiro, o peso da jornada, o deserto como personagem, a nostalgia de um cinema de aventura antiquado. Tudo isso fala mais ao coração do que à crítica fria. Se você assistir sem esperar uma obra-prima, mas sim uma aventura sincera, com falhas mas com alma, pode encontrar ecos interessantes de fábulas clássicas de superação, de filmes em que um cavalo é um companheiro, de jornadas pelo desconhecido.
O filme acerta quando lembra que a narrativa de superação nem sempre precisa ser sofisticada: às vezes basta a força de um cavalo, a determinação de um homem, o vento do deserto e a liberdade de galopar contra tudo. Falha quando tenta transformar essa simplicidade em grande épico. No balanço final, Mar de Fogo não é um clássico, mas sobrevive como um filme de fôlego, meio grandioso, meio modesto, com algo melancólico e algo de esperança. Vale para os que amam cavalos, jornadas, desertos, e a ideia romântica de que, às vezes, o companheirismo pode atravessar continentes.
Mar de Fogo (Hidalgo, 2004 / EUA, Marrocos)
Direção: Joe Johnston
Roteiro: John Fusco
Com: Viggo Mortensen, Zuleikha Robinson, Omar Sharif, Louise Lombard, Adam Alexi-Malle, Saïd Taghmaoui, Silas Carson, Harsh Nayyar, J.K. Simmons
Duração: 136 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Mar de Fogo
2026-01-07T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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