Home
cinema brasileiro
critica
drama
Festival
filme brasileiro
guto parente
Marcus Curvelo
nataly rocha
panorama2026
Tavinho Teixeira
Morte e Vida Madalena
Morte e Vida Madalena
Bastidores de um set de cinema caótico é uma metáfora para o caos interno vivido por sua protagonista. Essa poderia ser o resumo de Morte e Vida Madalena, novo filme de Guto Parente. Grávida de oito meses, Mada acaba de perder seu pai, um produtor de cinema independente e resolve dar continuidade ao projeto de filme que ele tinha, mesmo sem dinheiro. Mas o que ela enfrenta vai muito além das limitações práticas de uma produção precária.
Antes mesmo da filmagem, o diretor some, o protagonista passa dos limites e a falta de dinheiro incomoda a produção. Paralelo a isso, os fantasmas do passado de Madalena a atormentam entre visões e lembranças, tornando tudo ainda mais instigante e cênico.
Ainda que seja carregado de drama, a chave da obra é a da comédia. Irônico, abusando das referências e da metalinguagem, Guto Parente ri da própria desgraça, ao mesmo tempo em que homenageia o cinema independente, experimental e criativo. Não por acaso, o filme dentro do filme é uma ficção científica rudimentar.
A entrega dos atores é um dos destaques da obra. A começar por Noá Bonoba que incorpora Madalena com intensidade, sustentando as múltiplas camadas da personagem. Marcus Curvelo, apesar do pouco tempo de tela, imprime ao diretor fujão a ironia necessária. Já Tavinho Teixeira confere veracidade a Oswaldo. Destaque ainda para Nataly Rocha cuja personagem aparenta ser a mais “normal” na trama, sendo nosso olhar incrédulo por diversas vezes.
Desde seu primeiro filme Estrada para Ythaca, Guto Parente demonstra seu fascínio pelo cinema independente da América Latina, que Glauber tanto propagou. Aqui não é diferente, questões políticas e estéticas pulsam em tela. Não apenas do cinema, como da cultura em geral. O próprio título evoca Morte e Vida Severina, reforçando a dimensão simbólica da obra ao associar arte, sobrevivência e resistência.
A direção não teme extrapolar limites, assumindo uma mise-en-scène fragmentada, por vezes caótica, que espelha tanto o processo criativo quanto o estado emocional da protagonista. Parente aposta em uma encenação que flerta com o improviso e tensiona constantemente as fronteiras entre ficção e realidade.
Morte e Vida Madalena se afirma, assim, como uma homenagem apaixonada ao fazer cinematográfico. Um experimento lúdico e, sobretudo, um posicionamento político. Ao tratar o ato de criar como gesto de sobrevivência, o filme sugere que fazer cinema é como existir e insistir, mesmo quando tudo parece ruir.
Filme visto no XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Morte e Vida Madalena (2026 / Brasil)
Direção: Guto Parente
Roteiro: Guto Parente
Com: Noá Bonoba, Marcus Curvelo, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira
Duração: 85 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Morte e Vida Madalena
2026-03-28T12:45:00-03:00
Amanda Aouad
cinema brasileiro|critica|drama|Festival|filme brasileiro|guto parente|Marcus Curvelo|nataly rocha|panorama2026|Tavinho Teixeira|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistir a Mar de Fogo (2004) é como revisitar uma expedição. Não tanto no sentido épico-clássico de sobrevivência, mas numa jornada de exp...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Poucos filmes conseguiram me incomodar tanto — e isso, acredite, é um elogio — quanto Instinto Materno (Pozitia Copilului, 2013), dirigido...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Assistir A Escolhida (2020) é como caminhar sobre uma ponte tensa que separa passado e presente, dor e espetáculo, intenção e execução ambí...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...





