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Novocaine: À Prova de Dor
Novocaine: À Prova de Dor
Quando penso no impacto de Novocaine: À Prova de Dor no panorama dos filmes de ação e comédia recente, o que mais me chama atenção é a audácia. Não em suas jogadas narrativas, mas na forma como a premissa central se recusa a ser um mero truque de marketing. A ideia de um protagonista que literalmente não sente dor é tão simples quanto perturbadora, e é exatamente isso que torna o filme de Dan Berk e Robert Olsen um desconforto deliciosamente construído: você se pega sentindo cada pancada que ele não sente, rindo de um golpe e, no segundo seguinte, engolindo o efeito grotesco daquela violência hiper-estilizada.
Jack Quaid, que carrega o filme nas costas, entrega uma atuação que é ao mesmo tempo vulnerável e cômica. Ele não interpreta um herói tradicional, mas um homem comum cuja limitação física, a tal insensibilidade, se torna uma lente através da qual vemos tanto o absurdo quanto a potencial grandiosidade de um personagem de ação. Não é apenas a habilidade física que o define, mas o jeito intrinsecamente humano com que Quaid explora essa vantagem. Há momentos em que ele é engraçado porque é bobo, outras vezes porque ele simplesmente não tem outra escolha senão continuar avançando.
O roteiro de Lars Jacobson acerta ao evitar transformar Nate em um tipo pseudo-super-herói invencível. Ao contrário, ele luta com aquilo que o torna especial. Há uma sequência marcante, no meio do terceiro ato, em que o uso exagerado dos golpes não é apenas comédia física, mas um comentário sobre o custo humano da violência no cinema. Ver Nate atravessar uma série de confrontos em que a coreografia se torna quase cartunesca, mas o impacto ainda parece real, são momentos em que o filme transcende seu próprio gênero.
Amber Midthunder, como Sherry, oferece um contraponto interessante ao protagonista. Sua presença vai além de mero interesse romântico: ela é o motivo pelo qual a jornada de Nate ganha uma urgência emocional que, sem ela, poderia parecer vazia ou só grotesca. Sherry não é apenas resgatada, ela desafia Nate a ser mais do que um sujeito que absorve golpes. Isso adiciona um nível de profundidade que equilibra a brutalidade física com uma forma suave de conexão humana.
No entanto, por mais criativo e espirituoso que Novocaine seja em sua proposta, ele não escapa de tropeços. O enredo, em determinados pontos, desliza para um território que se torna genérico como comédia de ação: conflitos que deveriam ser tensos ficam repetitivos e o ritmo por vezes oscila. Há sequências em que a repetição de piadas físicas perde impacto antes que o clímax realmente justifique o caminho até ali.
Mesmo assim, o filme encontra seu equilíbrio quando abraça a loucura da própria concepção. A cena em que Nate, no auge de seu caos, literalmente ignora o perigo enquanto todos ao seu redor se comprimem com medo, é ao mesmo tempo escancaradamente cômica e, de alguma forma, estranhamente empática. Isso não é algo que muitos filmes de ação tentam: fazer rir e refletir sobre o sentido e o peso daquilo que vemos na tela.
O que Novocaine nos deixa, então, é uma experiência hilária e brutal, que não é feita para quem tem estômago fraco, mas também é uma meditação sutil sobre a maneira como tratamos a dor, o risco e o heroísmo em filmes. Não é um clássico do gênero, mas é uma obra que, pelo menos em alguns momentos, sabe exatamente o que quer ser: uma comédia de ação que não teme se machucar para entreter.
Novocaine: À Prova de Dor (Novocaine, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Dan Berk, Robert Olsen
Roteiro: Lars Jacobson
Com: Jack Quaid, Amber Midthunder, Ray Nicholson, Jacob Batalon, Betty Gabriel
Duração: 110 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Novocaine: À Prova de Dor
2026-04-20T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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