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A Caça
A Caça
O que realmente fica depois de assistir A Caça é uma sensação de oportunidade parcialmente desperdiçada. O filme dirigido por Louis Lagayette parte de uma premissa poderosa, dessas que praticamente já vêm carregadas de tensão antes mesmo da primeira cena. Um grupo de refugiados atravessando o Mediterrâneo, sobrevivendo ao colapso de um barco e sendo resgatado por uma elite europeia que, na verdade, os enxerga como presas. É o tipo de ideia que dialoga diretamente com o nosso tempo, com crises migratórias reais e com a crescente desumanização de certos corpos.
O problema é que transformar uma boa ideia em um bom filme exige mais do que intenção.
Lagayette claramente tenta construir um contraste visual e moral entre o paraíso natural da ilha e o inferno ético que se instala ali. Em alguns momentos, a fotografia realmente consegue capturar isso. Há uma ironia visual interessante em ver paisagens quase turísticas servindo de cenário para uma barbárie organizada. Mas o impacto dessas imagens se dilui porque o filme parece indeciso sobre como desenvolver sua própria tensão.
A montagem não ajuda. O ritmo oscila de forma estranha, como se o filme não soubesse quando acelerar ou quando respirar. Isso afeta diretamente a construção do suspense, que deveria ser o motor principal da narrativa. Em vez de uma progressão crescente de perigo, o que se vê são picos isolados de violência, muitas vezes mais explícitos do que realmente eficazes.
No centro da história, a protagonista interpretada por Lily Banda carrega um peso dramático importante. Existe ali uma tentativa de construir uma personagem resiliente, alguém que não é apenas vítima, mas agente dentro daquele caos. Em alguns momentos, especialmente nas interações mais íntimas, há uma humanidade que se impõe. A relação com a criança, por exemplo, funciona como um lembrete do que está em jogo além da sobrevivência física.
Mas essa construção é inconsistente. A personagem parece oscilar entre uma figura treinada para reagir e alguém que toma decisões questionáveis demais para sustentar a credibilidade da trama. Isso não seria necessariamente um problema se o filme abraçasse essa ambiguidade como parte de sua proposta. Mas aqui soa mais como falha de escrita do que escolha narrativa.
Os antagonistas, por sua vez, representam um conceito forte, mas acabam caindo em um lugar previsível. A ideia de uma elite que transforma vidas humanas em entretenimento poderia render um estudo perturbador sobre poder e moralidade. No entanto, os personagens raramente ultrapassam o nível de caricatura. Falta complexidade, falta nuance. Eles são mais símbolos do que pessoas, o que limita o impacto emocional.
Talvez o momento que melhor sintetize o filme seja justamente aquele em que a promessa de resgate se revela uma armadilha. É uma virada que deveria redefinir completamente a experiência do espectador. E, por alguns minutos, funciona. Existe ali um choque genuíno, uma sensação de traição que ecoa além da tela. Mas o que vem depois não sustenta essa força inicial.
Ainda assim, é impossível ignorar o que o filme tenta dizer. Mesmo com suas falhas, A Caça aponta para um desconforto real. A ideia de que o horror não precisa de monstros, apenas de estruturas sociais que permitem que certas vidas sejam descartáveis, é poderosa. Quando o filme se aproxima dessa reflexão, ele encontra relevância. Quando se afasta, se torna apenas mais um exercício irregular dentro de um subgênero já bastante explorado.
No fim das contas, A Caça é um filme que quer ser mais do que um thriller de sobrevivência. Ele quer ser um comentário sobre o mundo contemporâneo. E talvez seja justamente essa ambição que expõe suas limitações. Porque entre o que o filme pretende ser e o que ele efetivamente entrega, existe um espaço onde a tensão se perde, os personagens se esvaziam e a crítica social, embora presente, nunca atinge todo o seu potencial.
A Caça (The Hunted, 2024 / Bélgica, França, Reino Unido, Grécia)
Direção: Louis Lagayette
Roteiro: Louis Lagayette, Jérôme Genevray
Com: Lily Banda, Alec Newman, Kostis Kallivretakis, Vassilis Koukalani, Mylène Jampanoï
Duração: 94 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
A Caça
2026-07-01T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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