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Um Tiro na Noite
Um Tiro na Noite
Poucos filmes capturam tão bem a sensação de paranoia política e obsessão técnica quanto Blow Out, lançado no Brasil como Um Tiro na Noite. Assistir hoje é quase como ouvir um eco distorcido dos anos 70 estadunidenses, ainda contaminados pelo trauma de escândalos como Watergate. Mas o que Brian De Palma faz aqui não é apenas revisitar esse clima. Ele o transforma em linguagem cinematográfica.
A premissa é engenhosa e, ao mesmo tempo, profundamente simbólica. Um técnico de som grava, por acaso, um possível assassinato disfarçado de acidente. O detalhe importa: não é um fotógrafo, como em Blow Up - Depois Daquele Beijo (1966), mas alguém que trabalha com o invisível. O som, esse elemento frequentemente negligenciado pelo público, torna-se prova, obsessão e maldição. É uma escolha que diz muito sobre o próprio cinema de De Palma, sempre fascinado por mediações da realidade.
John Travolta entrega aqui uma das atuações mais interessantes da carreira, justamente porque evita o carisma fácil que o consagrou no fim dos anos 70. Seu Jack é um homem metódico, quase frio, mas progressivamente consumido por uma necessidade quase doentia de encontrar a verdade. Há uma fisicalidade curiosa na forma como ele manipula fitas, rebobina áudios, monta evidências. Não é um herói tradicional. É alguém que acredita que, se organizar os fragmentos certos, o mundo fará sentido. E o filme, com uma certa crueldade, insiste em provar o contrário.
Ao lado dele, Nancy Allen funciona mais como vetor emocional do que como personagem plenamente desenvolvido. Há momentos em que sua fragilidade parece intencional, quase uma peça dentro do mecanismo narrativo. Isso soa como limitação, e em parte é, mas também reforça a ideia de manipulação constante que atravessa o filme. Já John Lithgow surge como uma presença inquietante. Seu assassino é metódico, silencioso, e carrega uma banalidade perturbadora que antecipa figuras dos thrillers modernos.
Formalmente, o filme é um laboratório de linguagem. De Palma exibe seu repertório sem pudor. Telas divididas, movimentos circulares de câmera, jogos de profundidade. Em mãos menos habilidosas, isso soaria exibicionista. Aqui, há momentos em que realmente beira o excesso, especialmente nas sequências mais longas de perseguição, que parecem querer impressionar mais do que envolver. Ainda assim, quando funciona, é hipnótico.
Um dos grandes momentos do filme, e talvez o que melhor sintetiza sua força, é a sequência em que Jack reconstrói o crime combinando som e imagem. É cinema puro. A cena transforma o espectador em cúmplice da investigação, exigindo atenção ativa. Não estamos apenas assistindo, estamos montando o filme junto com ele. Uma inteligência narrativa que diferencia Um Tiro na Noite de qualquer thriller convencional.
E então chega o desfecho. Sem suavizar, sem oferecer conforto. A cena final, com fogos de artifício explodindo ao fundo enquanto a tragédia se consuma, é de uma ironia devastadora. O espetáculo cobre o horror. O som perfeito finalmente encontrado por Jack não serve para revelar a verdade, mas para alimentar mais uma ficção. É difícil pensar em um comentário mais ácido sobre o próprio cinema.
Se há um problema, talvez esteja no equilíbrio entre homenagem e identidade. As referências a Alfred Hitchcock e ao cinema europeu são tão explícitas que, em certos momentos, ameaçam engolir a originalidade da obra. Mas, paradoxalmente, é nesse excesso que o filme encontra sua personalidade. Ele não esconde suas influências, ele as escancara.
Dentro da filmografia de De Palma, este é um ponto alto justamente por condensar suas obsessões. Voyeurismo, paranoia, técnica e espetáculo se encontram aqui de forma quase definitiva. Não é um filme confortável, nem perfeitamente equilibrado, mas é vivo, inquieto e, acima de tudo, profundamente cinematográfico.
No fim, Um Tiro na Noite é menos sobre descobrir a verdade e mais sobre o quanto estamos dispostos a moldá-la. E talvez seja por isso que continua tão atual.
Um Tiro na Noite (Blow Out, 1981 / Estados Unidos)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma
Com: John Travolta, Nancy Allen, John Lithgow, Dennis Franz
Duração: 108 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Um Tiro na Noite
2026-07-03T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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