06/11/2009
Grandes Cenas: O grande ditador
Grandes cenas marcam por motivos diversos. Algumas possuem um técnica espetacular, outras uma atuação soberba, há ainda aquelas em que o clímax da emoção tornam-na inesquecível. E há finalmente, aquelas que simbolizam algo maior. Em todas as listas de melhores cenas da história do cinema encontramos uma citação ao Grande Ditador e à cena em que Chaplin brinca com o mundo. Até paródia em abertura de novela já foi feita pela Rede Globo. A cena foi uma grande sacada que sintetizou uma crítica não apenas a Hitler, mas a todos os ditadores que já passaram pelo planeta. O descaso com o mundo, com as pessoas que nele vivem, como se tudo fosse um grande brinquedo, um deboche de um ego inflado.
O grande ditador foi o único grande filme de Charles Chaplin após o cinema adquirir o som (Tempos Modernos tem apenas algumas falas). Ele era o gênio dos gestos. As palavras parecem ter tornado sua arte menor, ele não se adaptou muito, uma pena. Ironicamente, apesar da famosa cena do discurso final, o grande momento do filme não possui uma única palavra.
Para quem não conhece, o filme conta a história paralela de duas figuras muito parecidas fisicamente: um barbeiro judeu e um ditador intolerante. A alusão a Hitler é clara, tanto na constituição física, quanto no gesto de saudação e na perseguição aos judeus. Na cena em questão, o ditador acaba de confirmar que a última fronteira está perto de ser conquistada. Ele já se imagina Imperador do mundo. Em uma euforia sonhadora, pendura-se na cortina e se imagina no topo. Pede, então, para ficar sozinho e começa sua "brincadeira".
Ele desce, escorregando pela cortina, a câmera o acompanha. Já no chão, põe as mãos na cintura e se aproxima do globo terrestre. A câmera se afasta um pouco e enquadra o ditador atrás do globo, observando-o. Ele então se aproxima e a câmera se aproxima junto dando uma sensação de dimensão maior do pequeno homem. Ele pega o globo em suas mãos e diz quase em êxtase que é imperador do mundo. Começa então, a brincar com o globo tal qual uma bola de criança. A câmera se afasta um pouco para enquadrá-lo junto ao objeto sendo arremessado ao alto. Por vezes, a esfera vai a uma grande altura e a câmera a acompanha, tirando o ditador do quadro.
A preocupação do olhar é com esse mundo que está sendo arremessado (administrado) com leviandade. Será que ele corre o risco de cair? A música é doce, porém triste. O efeito que quer passar ao espectador não é o da felicidade do homem inconsequente, mas a angústia e frustração daqueles que são dominados por ele. É com esse povo que o espectador se identifica. E é nisso que está a genialidade da cena.
Em determinado momento, ele deita sobre a mesa, e, sem nunca parar de arremessar o globo, agora ele pode tocá-lo também com os pés e com as nádegas. A simbologia é ainda maior. Apesar das caras e bocas de Charles Chaplin, essa cena não é uma clássica de humor. Não é a risada, mas a preocupação que impera. Há um close nos dois, depois um novo corte para plano inteiro. O balé do homem e da bola é bem conduzido. Ele chega a pular em cima da mesa, até que o mundo não suporta tanta pressão e estoura. O ditador se assusta e chora como uma criança que perdeu seu brinquedo.
Só para constar, a última cena do filme, que sintetiza tudo que Chaplin queria passar ao mundo.






































4 opiniões:
Sensacional Amanda. Parabéns pelo post. Chaplin sem dúvida foi o maior artista que o cinema já viu. Hoje vemos muitos filmes sobra a guerra, mas ele o fez durante este cruel período, o que demonstra toda coragem e ousadia deste grande diretor. As duas cenas são fantásticas, mas o discurso final é de emocionar. Parabéns pela escolha. Grande filme !!!!
7 de novembro de 2009 11:21Qum quiser saber um pouco mais sobre ba história de chaplin, no meu blog tem uma série de textos sobre ele. www.cinemaniac2008.blogspot.com
Abraços
Grande homenagem ao Gênio da comédia, ou tragicomédia, como afirmam muitos.
7 de novembro de 2009 21:34Charles chaplin foi um artista que ultrapassou o objetivo de fazer rir, criando grandes obras de arte.
Algumas vezes, penso em escolher seu melhor filme, só para descobrir que é impossível. Quando se assiste os filmes de Chaplin, todos os comediantes que o imitam, passam a ser grandes idiotas, tamanha discrepância.
O Garoto, Tempos Modernos e o citado O Grande Ditador, são obras primas, mas Charles Chaplin era um gênio até com curtas ou filmes sérios, infelizmente o mundo não acompanhava o seu ecletismo.
ABS
Nunca esqueço O Garoto!
8 de novembro de 2009 02:02Jânio e Thiago, com certeza, Chaplin é um gênio que merece sempre ser homenageado.
8 de novembro de 2009 16:55Cristiano, O Garoto também me marcou, apesar de gostar mais de Tempos Modernos.
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