28/12/2009

Os dois filhos de Francisco

Dois Filhos de FranciscoRevendo ontem Dois Filhos de Francisco, confirmei o que tinha pensado no primeiro momento que o vi. O filme é muito bom enquanto os meninos são pequenos, interessante apesar de melodramático ao extremo com Zezé já grande e sem nenhum sentido em seu final. Breno Silveira conseguiu dosar bem a história de superação daquela família e Angelo Antonio incorporou de forma emocionante o sonho daquele pai simples, mas com uma fé imensa no talento de seus filhos.

Sem querer adiantar nenhum spoiler, todos já sabem o final da história, por mais que não gostem do estilo musical da dupla Zezé di Camargo e Luciano. Então, não vejo mal nenhum em declarar que o filme estaria muito bem terminando com a música É o Amor estourando nas rádios. Ali acaba bem a ficção, viria apenas a explicação em lettering sobre a continuação do sucesso e pronto. Alguém me explica porque aquele mini-documentário depois? A dupla verdadeira (não mais os atores) voltando à casa da infância, a foto em família, as cenas do show? Tudo isso poderia estar nos créditos, nos extras, jamais na continuação do longa. Ao colocar ali, o diretor quebra o ritmo, o clímax perde a força, fica a sensação na platéia de que a história já acabou e está enrolando. E, no caso de um filme, a última sensação é a que fica.

Independente disso, no entanto, a história dos dois meninos cantores é bem construída. A trajetória clássica de superação, a vida miserável, o vislumbre de sucesso, a tragédia, tudo se encaixa muito bem, emociona, envolve. Os atores são um destaque a parte, principalmente os pais Angelo Antonio e Dira Paes.

Quando Zezé cresce, perde-se um pouco da magia bem construída, o filme carrega um pouco mais no melodrama e tem sequências cansativas como quando ele conhece Zilú, as dificuldades de Luciano engravidando, casando e separando da mulher, além de algumas cenas em São Paulo antes de compor É o amor. Ainda assim, faz parte da história. E quando Francisco começa a comprar as fichas, a expectativa cresce novamente, deixando o final interessante, com exceção claro, do desfecho já comentado. A trilha sonora pode não agradar a todos, mas percam o preconceito e embarquem na trama.

DICA EXTRA
E pra finalizar, uma dica que li no Uol. Está disponível toda a Coleção Aplauso para ler e baixar na internet.  Roteiros de cinema, biografias e textos interessantes como A hora do cinema digital. Vale a pena.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

11 opiniões:

Ana Paula disse...

Amanda, às vezes um filme é só um filme, sabe? Deixar de lado, pelo menos de vez em quando, a matemática doc comparato ajuda muito nessas análises. Anyway, é só uma sincera opinião. Ninguém foi (na época) assistir a uma história de dois cantores anônimos. É um filme sobre Zezé Di Camargo & Luciano. Se eles (que desembolsaram a produção executiva) quiseram mesclar uns extras ao final do filme, bacana, é um filme deles (vamos lhes dar esse direito) e o Breno Silveira sabia o que estava fazendo. O público brasileiro é bem diferente na forma de expressar o amor pelos seus ídolos. E a opção por " quebrar a narrativa", se é que se pode considerar assim (coisa que não acho), gerou um efeito de cumplicidade deste público com seu ídolo, do tipo: " Putz, que legal, os caras ralaram muito e eles existem!". Acho que faltou da sua parte considerar o ponto de vista dos fãs da dupla sertaneja que prestigiaram este filme nos cinemas.
Às vezes pode soar pretensiosa da nossa parte (digo isso de forma geral, não me restringindo à redação do seu texto)cobrarmos fidelidade narrativa o tempo todo levando em consideração só os nossos achismos cinematográficos. Assim como muitos, me surpreendi com o filme, que tinha tudo pra ser uma jogada caça-níquel, mas não. Emocionei-me com a magia da história, como você disse. É uma obra elegante e com cara de cinema nacional, que calou a boca de muitos críticos que antevieram opiniões negativas mesmo antes da estréia.

Abraços! =*

28 de dezembro de 2009 21:49
Amanda Aouad disse...

Ok, Ana Paula, é uma visão válida, mas eu, como não fã da dupla me incomodei, não pela matemática como você falou, mas pela quebra da minha emoção. Eu estava envolvida na história e quando eles entraram com aquele mini-doc quebrou a magia, ficou chato, para mim, para minha apreciação estética. A análise do porquê isso me causou incômodo é que veio depois, utiizando, sim, todas as teorias de roteiro que já estudei e o sentimento cinéfilo e isso, pode ter parecido frio para você.
Outra coisa, eles não queriam fazer um filme apenas para fãs, tanto que ficaram decepcionados com a não indicação ao Oscar, mas no geral, é um bom filme.

28 de dezembro de 2009 22:25
Ana Paula disse...

tb acho a sua válida. Mas gostaria de fazer um adendo p/ não ser interpretada erroneamente: não sou fã da dupla, apesar disso não ser parâmetro pra julgar as emoções que são/ou não são despertadas na platéia. Muitos populares que estavam no cinema quando assisti com meu namorado se emocionaram, mesmo com esse detalhe bobo do corte que vc considerou tão " grave". Dizer que tudo entrou pelo ralo só porque apareceram Zezé Di Camargo e Luciano no final é um pouco demais... .Entre uma apreciação estética solitária e a combinação cult+massa que o filme conseguiu atingir (digo, de maneira rara sem ser panfletário), prefiro ficar com a segunda opção.
Ah, mais uma coisa: este anseio pela indicação ao Oscar que você se referiu só veio em virtude do sucesso nas bilheterias, e boa parte do público era de fãs sim. Sem estes, essa tal decepção jamais seria sentida pela dupla, já que todo mundo que ver um produto que foi bem aceito no mercado, premiado.
Determinados textos, sem que a gente perceba, ficam parecendo análises de professores diante da entrega do TCC do aluno...apesar de bonitinhos, ficam meio subjetivom, " perseguidores", como se não quisessem dar chance ao acerto da obra só por causa de um mero detalhe.
Prefiro usar o termo observações a afirmações. E o que fiz aqui foram apenas observações.

Abraço

29 de dezembro de 2009 00:16
Vinícius P. disse...

Também acho que o filme perde um pouco de sua força ao final, poderiam eliminar toda aquela longa sequência que o impacto seria bem maior.

29 de dezembro de 2009 01:34
Bruno Ribeiro disse...

Bom, eu não fui ao cinema ver Zezé de Camargo e Luciano, fui ver um filme como Cazuza, Ray ou Piaf - Um Hino ao Amor. Achei o final um ego dos cantores, nada a ver com a história, mas concordo que não chegou a destruir o filme.
abraços e feliz 2010.

29 de dezembro de 2009 10:01
Amanda Aouad disse...

Ótimo, Ana Paula, continue com suas observações, também não tive a intenção de repreendê-la, afinal, existem opiniões diversas. O debate saudável é sempre bem vindo. Agora, Bruno, eu não disse que destruiu o filme, para mim, perdeu o impacto final, mas como disse no texto, é uma boa história.
abraços

29 de dezembro de 2009 10:25
Robin disse...

Respeito a todos, mas eu achei o filme chatíssimo desde que o menino morre até o fim. Antes estava bem feito, brejeiro, com a ingenuidade do interior e do verdadeiro sertanejo. Depois virou um dramalhão, com Zezé de Camargo gritando a trilha sonora inteira, não curto, fui ver só para acompanhar minha esposa.
abraços

30 de dezembro de 2009 09:33
O Cara da Locadora disse...

Concordo com você, o filme tinha de acabar no "É o Amor", ainda mais com a voz da Maria Bethânia, como foi, rs...

Mas eu gostei muito do filme e fui um dos milhares que se emocionou no cinema...

30 de dezembro de 2009 21:06
Visitante disse...

[um desabafo]

Como diz um amigo meu: 'que gente uó!'. Achar de+ e fazer de-, eis a nossa grande prática de cidadania. Juro que não queria comentar. Nossas observações, como postou uma garota aqui, são observações. P/ onde vão?. Ou será que ficam aqui mesmo? Podem ficar tranquilos, não sou nenhum aspirante a cineasta ou crítico, academicista e afins, apenas um leitor da sétima arte e transeunte normal de sala de cinema. Não pretendo convencer ninguém de nada, nem ter razão, nem apedrejar.

Encontrei esse blog na net e conclui, ok...+ 1 blog sobre cinema.
Parabenizo a quem o escreve, todos somos livres p expor opiniões, agora com o jornalismo livre então..., mas ao invés de criticar TANTO, pq n fazr uma obra de vcs, buscar inspiração numa cinemateca e pimba!, criar algo novo... ao invés de projetar algumas verdades conclusivas sobre as obras dos outros?

Acho que o único movimento crítico de cinema que saiu do dizer p/ o fzr foi a galera da Nouvelle Vague. O pessoal começou ali com uma revista de cinema e então partiram pras realizações que tanto levamos em conta na nossa cultura de cinema. Pena que muitas vezes criamos uma bíblia dessa cultura e ficamos igual a burro de carga, com aquela tapadeira. Tudo bem, eram outros tempos, outra realidade.

Concordo com oq uma garota aqui disse sobre observações, e assim todos preferem correr para o olímpio do cinema, achando que AQUELES que já têm nome fizeram e acertaram o tempo todo. E cobramos isso de quem faz, tenta e consegue REALIZAR um projeto audiovisual num país tão injusto na área de Cinema. Parece que todo filme nacional tem que ser gerado como uma grande obra-prima... .

Rpz, e daí que Bethânia encerrou com É O AMOR"...? Ela deu mais mérito à canção por ser Bethânia? Legal, respeito os gostos de cada um (e o meu tb), mas há um lado do brasileiro que é mal assumido, que tem vergonha da musicalidade vinda da roça, da favela, do carnaval de rua, ou de onde quer que seja.

Comparar este filme com Piaf é falta de conhecimento sobre os estilos musicais do brasileiro.

Concluindo: preferimos apontar os erros do que incentivar os acertos. Deus me livre voltar noutra vida como filho de vcs (risos), e, ao meu ver, é por isso que o mundo está como está, repleto de pessoas individualistas e confortadas em suas home theaters, que preferem a contemplação a realização. Nada contra,
sou um cara hiper contemplativo. Mas a auto-análise certas horas é importante pra questionarmos pq certas coisas não dão certo, inclusive nos filmes que assistimos.

Feliz ano novo!

31 de dezembro de 2009 14:45
Cinéfilo disse...

Visitante, acho que você tem vários equívocos em sua argumentação. Primeiro, existem especialistas teóricos e especialistas práticos. O crítico de cinema tem uma função importante na teoria da arte, se você tivesse estudado essas teorias como eu fiz em quatro anos de faculdade, entenderia o que falei. A nouvelle vague, assim como o cinema novo aqui no Brasil uniram as duas coisas, ótimo, mas nem sempre precisa ser assim. Você come uma comida e sabe dizer se é boa ou não sem precisar saber cozinhar.

Sobre o rapaz que comparou os filmes, entendi que ele comparou cinebiografias de cantores, não quis comparar os estilos, até porque os quatro são completamente diferentes. Entendi e não vi nada demais, o que ele falou foi que não precisa mostrar o artista verdadeiro, nem virar um especial de televisão. Ao fazer um filme, façamos um filme.

Quanto a preferirmos apontar os erros a incentivar os acertos, também discordo, devemos aprender com as críticas. Já dizia Nelson Rodrigues: "Toda Unanimidade é burra". Criticar a crítica em vez de estudá-la é, sim, burrice.

31 de dezembro de 2009 17:05
Amanda Aouad disse...

Visitante, pode desabafar e expor sua opinião, que esse espaço foi concebido para ser público, mas cuidado com os julgamentos. Estudar e analisar filmes também é "fazer", conforme falou o "cinéfilo" aí em cima. O que seria do cinema sem a teoria da montagem de Eisenstein?

Sou uma das maiores incentivadoras do cinema nacional, tanto que faço questão de ter toda semana, pelo menos, um post sobre o assunto. E não é verdade que exigimos perfeição dos nacionais e aceitamos qualquer coisa dos americanos, cada filme tem que ser avaliado por si só. Dê uma olhada em todo o blog em vez de se ater a um só post para fazer seu julgamento. Até por torcer muito pelo cinema nacional, criticamos, para vê-lo cada vez melhor. Mesmo porque ele ainda depende do nosso dinheiro para sobreviver (99% dos filmes são com leis de incentivo público). Mesmo Os Filhos de Francisco teve apoio da Lei Rouanet.

Abraços e volte sempre.

2 de janeiro de 2010 11:51

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