10/02/2010

The Blind Side

Cartaz de The Blind Side John Lee Hancock começa o filme com uma narração de Sandra Bullock explicando a função de um quarterback e linebacker. A explicação aparentemente solta serve para evidenciar a função do nome do filme em inglês, "o lado cego", que se refere ao mesmo tempo à posição do jogo e à metáfora de uma parcela da sociedade que vive nesse "lado cego", sem que ninguém se preocupe ou faça nada. Por isso, o título original é mais fiel ao filme do que Um sonho possível, até porque nosso protagonista era tão apático que nem mesmo tinha um sonho, ele ia deixando a vida o levar.

O filme é baseado na história real de Michael Jerome Oher, um garoto negro, pobre, filho de uma viciada em crack que é adotado por uma família rica e branca tornando-se um astro do futebol americano. O longa é uma espécie de mistura de Preciosa e Invictus, com uma dose de fantasia um pouco mais desconcertante. Não sei até que ponto tudo ali é real, mas tudo parece romanceado demais para ser crível. Aristóteles em sua Poética já dizia que, em uma narrativa, é melhor você escolher coisas irreais, mas críveis, do que coisas reais, mas incríveis. É o conceito da tal verossimilhança que falta em Um Sonho Possível. Tudo é fácil demais para o jovem Michael. Não há um grande conflito e os que aparecem são frouxos e facilmente resolvidos.

Sandra Bullock em Um sonho possívelO filme começa com Big Mike sendo aceito em uma escola porque o professor esportivo o vê jogando basquete. Ele é apático, perdeu no teste de Q.I, quase não presta atenção nas aulas, mas fica lá, no seu mundo. Interessante que o professor gosta dele por vê-lo jogando basquete, mas o coloca no time de futebol, que ele nunca tinha jogado na vida, só por seu tamanho. Uma noite de frio, ele passa andando pelo carro da família de Sandra Bullock e ela resolve levá-lo para casa. Em uma conversa surreal, ela deixa o garoto dormindo no sofá da sala e fala ao marido que não sabe se ele roubará nada, mas se no dia seguinte ela descer e gritar, ele ligue para seguradora... Admiro tanto despredimento material. A partir dessa noite, o garoto vai ficando e se tornando membro da família, melhorando nos estudos e aprendendo a jogar futebol. Em outra cena irreal, Sandra Bullock visita a mãe de Michael e discute com os traficantes locais. No mundo real, no mínimo ela levava um tapa, talvez um tiro, mas tudo bem.

Sandra Bullock em Um sonho possível
Um sonho possível fala de esperança, de valores familiares e de superação, mas o problema é que ele não aprofunda nada disso. O roteiro vai passando superficialmente por tudo como se dissesse "não sei como foi possível, só sei que foi assim". Sandra Bullock está realmente muito bem como a perua loura de bom coração, mas nada excepcional. Após ver sua atuação começo a torcer pelo terceiro Oscar de Meryl Streep, apesar de ter dito que a interpretação da atriz em Julie e Júlia não merecia o prêmio. Na verdade, a interpretação chave do filme é do garoto Jae Head, que faz S.J., o irmão adotivo de Michael. Quinton Aaron é apenas honesto em seu Big Mike.

O fato é que a história do garoto negro, gordo e pobre (tal qual Preciosa) que encontra a superação pelo esporte de uma forma meio mágica, vencendo jogos improváveis (como em Invictus), pode ter conseguido sua indicação ao Oscar, mas não atinge a profundidade necessária para um bom drama. Ainda assim, é um filme a ser visto.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

4 opiniões:

Robin disse...

É, ainda não conferi esse filme, mas gosto muito de Sandra Bullock, vou aproveitar o carnaval para ver.

abraços

10 de fevereiro de 2010 17:34
Amanda Aouad disse...

Ela está bem, Robin, mereceu a indicação ao Oscar, só acho que não é nada excepcional para vencer. bjs

10 de fevereiro de 2010 19:02
Ricardo Martins disse...

Como a estréia foi adiada agora para depois do Oscar! Verei o filme essa semana! Expectativas: Muitas, mas quero que o filme me leve, pois como fã do trabalho de Bullock que me encantou em praticamente todos seus filmes, esse parece ser muito gratificante!

Acho que a opinião é livre! Muitos gostarão de outra interpretação, como Meryl, Gabourey, Mulligan... ou até a da Sandra, pois acho que todas tocam de diversas formas cada pessoa!

Pelo que vi, Sandra Bullock conquistou uma legião e a critica, que já lhe renderam vários prêmios. Na minha opinião ela leva o Oscar e merecidamente, por um bom trabalho! Caso não, quem for também mereceu! Pois fato é todas, mas todas já foram vitoriosas por estarem juntas nesta indicação!

Gostei da comparação dos temas do filme, que de alguma forma lembram Preciosa e Invictus! Não havia pensado nisso!

Abraço

12 de fevereiro de 2010 00:02
Amanda Aouad disse...

Oi, Ricardo, respeito sua admiração pela atriz e devo confessar que também gosto de Sandra Bullock, vi todos as suas comédias românticas, adoro Enquanto você dormia e A casa do lago. Acho ótimo que ela tenha pego um papel mais maduro, com certos desafios e ganho, com isso, a confiança da academia. Acontece que sua interpretação não é em nada excepcional, então, entre duas boas interpretações sem grande primor, eu fico com Meryl pelo conjunto da obra, senão, esse prêmio de Bullock vai ser semelhante a Gwyneth Paltrow em Shakespeare Apaixonado.

abraços

17 de fevereiro de 2010 12:11

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