26/05/2010
Licença para falar de Lost
Peço licença para falar neste espaço cinéfilo sobre televisão. É que essa semana foi exibido o último episódio da série Lost, produto com seis temporadas que marcou a teledramaturgia mundial. Após ver o último episódio e alguns comentários pela internet, senti necessidade de comentar sobre o assunto e como muitos aqui também assistem e gostam, creio que vai ser uma discussão válida. A começar, queria falar que não me importa tanto o último episódio, mas o conjunto da obra, o que Lost significou na construção narrativa seriada e como ela irá ser lembrada. Muitos mistérios ficam sem respostas? Sim, faz parte da vida, já dizia Shakespeare: "há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
Muitos fãs reclamam que na sexta temporada a ciência foi posta de lado, dando lugar à mística. É verdade, com a morte de Daniel Faraday muitas explicações científicas ficaram no ar. A mitologia da ilha foi mais forte no final, mas o que não impede que teses científicas e filosóficas possam surgir a partir de então. A graça e o diferencial desta série são exatamente estes, continuar existindo em outras mídias, em nosso imaginário e nossas conversas.
Lost conseguiu entrar para o hall de grandes séries que serão lembradas. Por vários motivos, a começar pela narrativa em si. A fragmentação das cenas, o mistério crescente, o paralelo em flashbacks e posteriormente em flashforwards. Outro elemento particular de Lost era a estrutura em torno de quatorze protagonistas. A maioria das séries foca em um ou dois personagens principais, mesmo séries de drama cotidiano como Desperate Housewives ou Grey's Anatomy ou séries adolescentes como Barrados no Baile e Melrose têm, no máximo, cinco protagonistas. O que isso influencia? Em várias coisas, primeiro na identificação do espectador. Ele pode não gostar de Jack e Kate, mas se identificar com Sawyer ou Locke, assim há possibilidade maior de atingir mais pessoas. Além disso, a série não perde fôlego, tem sempre uma história atingindo o clímax, é mais fácil administrar a curva dramática.
A música também foi um ponto forte na série. O desenho musical era todo pensado, ajudando no efeito de suspense e ligação. Há uma brincadeira com músicas antigas que retornam em outras cenas, também. O início da segunda e da terceira temporada começam de forma muito parecida. Um disco sendo colocado com uma música antiga em uma casa desconhecida por um personagem não identificado, depois é revelado que aquela casa é na ilha, na segunda temporada era Desmond na escotilha, na terceira era Juliette na vila d’Os Outros. E essa música utilizada retorna em outros momentos, como no episódio em que Desmond volta a Londres e ao entrar no bar, a mesma música está sendo tocada. São cuidados que a maioria dos espectadores não identifica, mas ajudam a compor o conjunto e constroem efeitos.
Outra característica importante de Lost, que já vem sendo utilizado por outras séries, foi a utilização de transmídia. Lost possui um universo estendido na internet, além de livros e outros produtos no mundo real, como o chocolate Apolo que existia apenas da série e depois foi lançado nos supermercados. Nesse limite real e ficção, a ação mais emblemática foram os ARGs entre temporadas. Jogos de realidade alternativa que utilizam elementos de ficção misturados à realidade para atingir os objetivos. O mais famoso foi o Lost Experience, mas tiveram outros interessantes como o Dharma Wants You, que começou com uma propaganda chamando as pessoas para se cadastrarem como voluntários para experiência da empresa. Esses jogos misturam pistas e códigos na internet, com temas da própria série e alguns eventos no mundo real, sendo uma boa experiência de interatividade dos fãs com o produto. Hoje, o espectador não quer mais ser apenas um passivo da mensagem, quer interagir com ela, e Lost conseguiu atingir esse intuito de forma muito inteligente.

A série fez link com deslocamento temporal e geográfico, o que a coloca na categoria de ficção científica, porém tem um universo mais palpável com o uso da ciência e a filosofia. Além disso, colocou a dicotomia entre bem e mal bem distintas, com elementos de imortalidade e monstros mitológicos, apelando também para aspectos religiosos. Ela se apresentou como uma série de aventura e convivência baseada no reality show Survivor e depois foi se revelando algo além disso. São náufragos tal qual milhares de outras histórias, mas em uma ilha especial, uma “Ilha da Fantasia” talvez, onde tudo pode acontecer. Há uma referência muito forte à O Mágico de Oz também, inclusive literais, com Locke sendo chamado de o homem por trás da cortina (o mágico), mensagem como “não há lugar melhor que a casa da gente” até no título de um episódio, e a idéia de que nunca devemos desistir de nossos sonhos. Outra série que poderia ser lembrada comparativamente é Além da Imaginação de 1959, que sempre trazia fenômenos sem explicação utilizando a questão de tempo e espaço de forma científica.
Lost pode ser enquadrada então como uma série dramática (pela caracterização de seriados americanos há duas categorias séries dramáticas ou comédias de situação – o chamado sitcom), que tem uma hora de duração e exibição semanal. Mas, seus episódios não se fechavam em si, ela dialoga com séries como Twin Peaks, 24 Horas ou Heroes onde um episódio é a continuação do outro. Percebe-se que cada episódio procura focar em uma mini-história, um personagem, um acontecimento, mas sempre há um gancho forte para o próximo, que prende o espectador e o faz ficar ansioso pela semana seguinte. Essa estrutura faz com que a fidelidade seja essencial para o entendimento. Não dá para assistir episódios fora da ordem, por isso, as séries em geral preferem o formato de episódios que se encerram em si.
Durante cinco anos ela foi essa mistura de assuntos, idéias, estruturas, mas tudo com uma aura especial, de novidade. O que muitos se decepcionaram na última temporada foi que ela mudou o foco. Não era mais a ilha o personagem principal. Não foi a ilha que os escolheu, os levou para lá e ainda queria algo deles? A ilha perdeu lugar para o homem e uma luz misteriosa que pode ser divina ou resultado do magnetismo do lugar. E aí, a discussão nos leva ao final.
ATENÇÃO A PARTIR DAQUI PARA OS SPOILERS DO ÚLTIMO EPISÓDIO.
Eu tinha muito medo da última temporada pela forma como a quinta terminou. Se eles passasem uma borracha em tudo, ia ser muito frustrante. Felizmente, as teorias do falso final de Caverna do Dragão não se confirmaram. Eles também não alteraram a linha temporal "o que aconteceu, aconteceu". Mas uma estranha realidade alternativa surgiu. Era estranho ver os personagens que vimos evoluir nesse período retornar a uma atitude e situação pseudo-inicial. Isso porque algumas diferenças começaram a surgir. Do ponto de vista de estrutura narrativa, esse recurso era necessário para manter o jogo duplo que antes era usado com o passado ou futuro dos personagens. A gente se perguntava, no entanto, onde tudo isso ia dar, já que não havia um link direto entre as duas realidades.
De repente, vem o último episódio e dá um nó em tudo isso. Nunca houve uma realidade paralela. Aquela era um futuro distante, onde todos os personagens que iam morrendo aos poucos se encontrariam para seguirem juntos a caminhada evolutiva. Ou seja, tudo foi real. Kate, Sawyer e Claire foram os verdadeiros sobreviventes do vôo 815 que saíram da ilha após tudo, levando Richard, Lapidus e Miles. A cena final com Jack morrendo no lugar onde acordou na primeira temporada, é fantástica. O ciclo se fechou. Na falsa realidade alternativa, também conhecida como Limbo, eles despertam aos poucos, compreendem sua situação e juntos vão para o céu ou seja lá o que era aquela luz. Melodramático sim, mas muito bem construído e emocionou. Era o fechamento, a despedida, um plus para aqueles que passaram seis anos acompanhando as trajetórias daqueles personagens. Eu gostei bastante do fechamento, só acho que a sexta temporada poderia ter mantido a idéia inicial em vez de resumir tudo que acontecia na ilha à proteção de uma luz divina. Ainda assim, vai ter sempre um lugar na minha estante. Já estou com saudades daquela turma.





































18 opiniões:
Ótimo texto. Eu ia escrever sobre o Lost no meu blog, mas acho que você conseguiu resumir bem tudo o que eu ia dizer. Recomendarei que o pessoal dê uma passada por aqui. Sou cinéfila, mas não me incomodo de forma alguma de ler sobre um seriado aqui. Afinal de contas, também é audiovisual. Sem contar que Lost possui qualidades técnicas muito superiores a de outros seriados, se aproximando da qualidade cinematográfica. Parabéns!
26 de maio de 2010 23:32Parabéns pelo texto Amanda. Está de ótima qualidade. Uma belo arremate a série. Contudo, minha interpretação difere um pouco da sua narrativa no último parágrafo. Mas a essência está preservada. O intuito é promover essa discordância mesmo, mas sempre dentro de uma mesma variante.
27 de maio de 2010 10:26Bjs
Que bom, Camila, obrigada, fico feliz.
27 de maio de 2010 14:43Reinaldo, mas e qual foi a sua interpretação? É bom debater as diferenças...
bjs
O último episódio foi feito para emocionar e como você bem escreveu, nesta temporada a ciência foi deixada de lado para dar lugar a fé. A questão era defender a ilha porque aquelas pessoas estavam ali por um motivo maior que elas.
27 de maio de 2010 16:44Mesmo eu acreditando que o final poderia ainda ter sido melhor, concordo que é uma série para entrar na lista das melhores de todos os tempos, não só pelos mistérios, mas principalmente pelos ótimos personagens.
Até mais
Oi Amanda,
27 de maio de 2010 19:26belo apunhado de toda série... eu tb acho que Lost foi bem fechada, se não respondeu todas as perguntas, deixou brecha pra gente sempre poder discutir um ponto e outro. Mas o maior mérito mesmo é ter conseguido ter feito tanto sucesso em tempos de download rápido e principalmente por conta do fio narrativo tão intricado mesmo quanto tantos personagens "principais". Com esse final temos a prova que a proposta se manteve fiel em toda a existência da série. Vai deixar MUITAS saudades.
Eu desisti de "Lost" há um bom tempo porque sentia que os roteiristas se perderam um pouco no decorrer destas temporadas. Natural, isso acontece com todas as séries, mas a falta de respostas a algumas coisas me irritava demais. Mesmo assim, não dá para não admitir que "Lost" é uma série que conquistou seu lugar na história da tv norte-americana. Apesar de não ter visto o episódio final, fiquei feliz de ver que a minha teoria sobre a presença deles na Ilha estar correta.
27 de maio de 2010 19:46Gostei muito de sua análise. Também corroboro com quase tudo e achei o último episódio sensacional. Muito bom mesmo.
27 de maio de 2010 21:34Lost é insuperável, até que se prove o contrário ehehhe
O fato de nos deixar pensando, mesmo após esse final emocionante, foi algo que sempre gostei. A forma como essa serie instigava, forçando a imaginar cada vez mais, num mar de opções que pareciam infindáveis. Sem dúvida, algo que sentirei saudades. Muitas. Belo texto Amanda. Parabéns!! Vou recomendá-lo para todos. Forte abraço. Erik.
28 de maio de 2010 09:02Eu gostei do final. Lost é aquele tipo de série que vai ficar na memória para sempre. Gostei muito de seu balanço final.
28 de maio de 2010 19:14abraços
Amanda...
28 de maio de 2010 19:18Sem dúvida esse foi um dos melhores textos sobre Lost que já li. Não só sobre o series finale, mas sobre a série inteira. Você resumiu bem todas as qualidades e virtudes do seriado.
É provável que o desfecho tenha decepcionado aquele pessoal mais preocupado com o lado científico da série, mas no meu entender esse lado filosófico/mitológico foi bem eficaz e até essencial pra gerar toda a carga dramática que acompanhamos nos acontecimentos derradeiros.
No fim, Lost é uma mistura de tudo o que você possa imaginar. Durante esse 6 anos ele abordou os mais variados assuntos, sempre com muita qualidade.
Tudo bem alguém não gostar das resoluções, mas não consigo aceitar pessoas que não entenderam o final criticando o seriado como um todo. Li uma matéria na folha escrita por um cidadão que poderia ser tudo, menos alguém que acompanhou Lost por essas 6 temporadas.
E como você falou, é um seriado que exige que você acompanhe todos os episódios.
Repito, excelente análise!
Abs.
Pois é, Hugo, gostando ou não do último episódio, a série foi um sucesso nesses seis anos.
29 de maio de 2010 11:30Obrigada, Fernando. Vai deixar mesmo muitas saudades.
Kamila, eu me irritei um pouco na terceira temporada, mesmo assim, resisti e fui até o fim, acho que eles fizeram uma boa média no final das contas.
Isso mesmo, Robin. Obrigada, pelo elogio.
Obrigada mesmo, Bruno. Concordo que a parte mitológica / filosófica e até religiosa davam embasamento para a história, mas o científico também. Eles podiam ter mantido tudo junto sempre. De qualquer forma, eu também gostei do final. Para mim foi satisfatório.
abraços
Obrigada, Erik, e volte sempre.
Obrigada, Rodrigo, também acho o grande marco da televisão.
Amanda, excelente texto sobre Lost e só vem afirmar que realmente concordamos com tudo o que foi este seriado, mesmo você temendo (conforme comentou dia desses no meu blog) sobre a tal "luz" e todo o misticismo que girou em torno dela. Que acabou corroborando com um final menos científico e plausível do que os que odiaram a série gostariam de ver.
31 de maio de 2010 07:55[]´s
Pois é Amanda. A ilha foi deixada mesmo de lado. Tanto é que nada explica pq as mulheres não podem engravidar lá ou o poder de cura. Por exemplo tem aquela passagem que se Juliet ficar na ilha a irmã dela seria curada. Não foi Jacob que fez aquilo. Entre outras coisinhas. Reduzir tudo a proteger a luz realmente foi uma banalização do significado da ilha. Mas preserva a veia religiosa (uma espécie de santo graal)e mostra que é dali que emana o poder da ilha mesmo.
31 de maio de 2010 11:36E no final das contas, tudo era um purgatório mesmo. Lembre-se do diálogo entre Ben e Hugo na porta da igreja. A realidade paralela apenas foi uma maquiagem (assim como a viagem temporal que de certa forma deu vazão a realidade paralela A.K.A:limbo). Existem dissonâncias em qualquer interpretação que se faça. A minha própria tem seu percentual de incoerência, por isso não a havia aberto antes. E como disse, essa era a intenção. Mas essa intenção nunca foi a primazia. É fruto, volto a dizer, das circunstâncias.
bjs
Obrigada, Márcio, suas anáises também foram ótimas.
31 de maio de 2010 16:25Reinaldo, dos mistérios eu nem incomodo tanto, me incomodo é com essa perda de identidade da ilha em si. Quanto a sua teoria, é interessante (tanto o Santo Graal, quanto o purgatório desde antes, apesar de achar que foi tudo real mesmo.
bjs
foi uma serie marcante, ainda não estou muito bem pq acabou hehehe... nem parece q faz 6 anos...
1 de junho de 2010 14:57Verdade, Jamile, nem parece que passou. A terça-feira ficou mais vazia.... hehe.
1 de junho de 2010 23:46Eu ainda fico bastante emocionado (com os olhos cheios de lágrimas mesmo) quando me lembro ou leio sobre essa fantástica série. Foram 6 anos de pura adrenalina, correrias, mistérios a serem solucionadas, dentre outras...
3 de abril de 2011 14:28Adoro ler uma ótima argumentação sobre o final da série e odeio saber que ainda existem pessoas que não conseguiram entender ou não gostarão daquele final. Acho inclusive que falta um pouco de humanidade nestas pessoas e acredito que elas não perceberam que a essência da série sempre foram as pessoas e seus conflitos pessoais, os mistérios estavam sempre em 2º plano. E quem disse que todos os mistérios não foram solucionados?
Parabéns amanda (mesmo com um comentário tardio p/ o post) pela ótima analise, é uma pena que você não teve a oportunidade de conhecer uma de nossas edições do famoso Encontros Lost Salvador. Deixo pra vc alguns links memoraveis de nossa jornada:
Promo do 8º Encontro
http://www.youtube.com/watch?v=AweMH5g8m5Y
Promo do 7º Encontro
http://www.youtube.com/watch?v=rOlPrQ77XNw
Promo do Último Encontro
http://www.youtube.com/watch?v=5SrUx-1aOFo
Antes tarde do que nunca, Angêlo, hehehe. Também sinto não ter participado de nenhum dos encontros Lost por aqui. E, sem dúvidas, foi uma grande série.
3 de abril de 2011 22:06bjs
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