31/05/2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

O título já é pura poesia. Karim Aïnouz e Marcelo Gomes se uniram para recriar o cinema de uma forma inusitada, preterindo o que ele tem de principal que é a imagem. Poesia, sons e sensações, o filme é para digerir aos poucos. Em uma sessão superlotada no Panorama de Cinema Baiano, assisti ao longa em uma cadeira improvisada, junto a vários outros divididos entre o chão, a escada e as confortáveis cadeiras do local. As palmas para o diretor e ator presentes foram sinceras e o debate que se seguiu explicou um pouco o que não precisava ser explicado. Afinal, aquilo era uma experiência única, um filme sobre a dor e a superação da mesma. Valeu o momento.

Há dez anos, os dois diretores ganharam uma verba para fazer uma pesquisa de campo para os filmes que estavam tentando produzir. Aïnouz, Madame Satã, e Gomes,Cinema, Aspirinas e Urubus. Foram então pelo sertão nordestino filmando em diversas câmeras e momentos. Com o material bruto, chegaram ao argumento do filme. Não queriam um documentário, por isso misturaram realidade à ficção, criando Zé Renato, um geólogo que está fazendo um estudo de solo para uma região que sofrerá a transposição de um rio. Apesar de não citar em nenhum momento, fica impossível não associar à polêmica transposição do Rio São Francisco. Pelo menos para nós, aqui no Nordeste.

Irandhir Santos empresta sua voz à Zé Renato com uma carga dramática impressionante. Marcelo Gomes disse que escolheu o ator pela voz aveludada, mas o que ouvimos no longa é uma voz amargurada, repleta de dor e angústia. É esse sentimento que compartilhamos com aquelas imagens mescladas que batem como um convite a mergulhar naquela história da mesma forma que os saltadores de Acapulco no final da projeção.

Em sua jornada, Zé Renato conhece pessoas diversas, mas uma lhe resume com simplicidade o que se espera do mundo: "uma vida lazer". Quem não quer "uma vida lazer"? Ter alguém de quem se gosta ao seu lado e poder curtir os bons momentos de nossa existência, sem se preocupar com problemas menores. Sem sentir dor ou solidão. A nossa vida é aquela pergunta constante do que vem depois, pois nunca estamos satisfeitos ou seguros da felicidade.

Aos que estranharem a fotografia, a escolha estética foi essa mesmo. Zé Renato é um geólogo, não um fotógrafo ou cineasta. Aquilo é o seu diário de bordo, sua alma aberta. Não são as imagens, mas as palavras e o sentimento que o conjunto passa ao espectador que importa. Ainda assim, a simulação do super 8 é bem simpática. A diretora de fotografia Heloísa Passos teve que juntar materiais de diversas câmeras diferentes para encontrar uma unidade e a escolha foi nivelar por baixo, como explicou Marcelo Gomes na conversa após a sessão.

O mais importante não é o como foi feito, mas o que o filme provoca em nosso sensorial. Repito que é uma viagem fantástica, só acho que é repetitiva e cansativa, chegamos ao final da projeção igual ao Zé Renato, angustiados em ver aquela mesma paisagem, sentir aquele mesmo sentimento, ter saudades daquela mesma pessoa. Faz parte do efeito fílmico e da recriação eterna que é a arte cinematográfica.

Boa notícias os soteropolitanos, o filme estreia dia 04 no Espaço Unibanco.


6 opiniões:

Mariana disse...

Belo trailer!

31 de maio de 2010 09:35
Robin disse...

Parece mesmo um belo filme. Curioso.

abraços

31 de maio de 2010 17:56
Fernando disse...

O título também me chamou a atenção. A história parece ser bem realista. Acho que vou gostar...

1 de junho de 2010 00:53
Amanda Aouad disse...

Belo trailer e belo filme, Mariana.

É diferente, Robin, muito interessante.

O título é muito bom mesmo, Fernando. É como eu falei, é uma linguagem experimental. Gostie muito.

abraços

1 de junho de 2010 10:26
Fred Burle disse...

Ufa, Amanda!
Fiquei até aliviado ao ler sua crítica. Li umas críticas detonando o filme e o chamando de enfadonho para baixo e não entendi nada.
Eu achei sensacional, imergi na história junto com o Pedro e dificilmente esquecerei a definição de "vida lazer".
Excelente!

P.S.: desculpa que tenho aparecido pouco. Estou com a vida corrida, mas sempre que dá faço questao de te ler.

Beijos!

1 de junho de 2010 20:26
Amanda Aouad disse...

Eu até entendo, Fred, não é um filme fácil, a linguagem é experimental demais, muita gente pode não embarcar. Mas, aqui pelo menos, foi mágico, muitos depoimentos emocionados no debate posterior. O filme é belo, poético e profundo.

Ah, e desculpo se você vir dar um alô vez ou outra, hehe. É bom vê-lo por aqui.

bjs

1 de junho de 2010 23:48

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